Maior foguete do mundo foi anunciado há 10 anos para colonização de Marte. SpaceX prepara várias versões e bases de operação.
Nos últimos anos, um dos (poucos) motivos mais frequentes para que a astronáutica receba atenção da mídia geral é o desenvolvimento da Starship: o maior foguete já lançado, inspirado pela ambição de um dos homens mais ricos (e polêmicos) do mundo. Elon Musk criou a SpaceX em 2002 para concretizar seu sonho de tornar a humanidade multi-planetária. E a Starship é um elemento crucial disso.
67° Congresso Internacional de Astronáutica (IAC) – Guadalajara, México, setembro de 2016. Musk fez uma das apresentações mais emblemáticas da história aeroespacial moderna, tornando público o projeto do Interplanetary Transport System (ITS). Não era apenas um novo foguete da SpaceX, mas sim uma arquitetura de transporte preparada para ser integrada à colonização espacial.
O veículo em si seria constituído de dois estágios totalmente reutilizáveis. O estágio inferior seria o propulsor encarregado de levar a nave (estágio superior) até o espaço. Após a separação, a nave seguiria de forma propelida até a trajetória desejada. Como no Falcon 9, a reutilização torna o projeto financeiramente possível. Descartável, o ITS seria absurdamente caro e inviável. A quantidade também seria uma aliada: a produção em massa baratearia as unidades.
Um aspecto que causou alvoroço na apresentação e na comunidade astronáutica/fogueteira foi a escala. O ITS era simplesmente monumental. O conjunto teria 122 metros de altura, dezenas de motores e mais de 10 mil toneladas, sendo capaz de lançar centenas de toneladas ao espaço. Cem passageiros poderiam fazer a primeira viagem a Marte ainda na próxima década.
Logo, a audácia do ITS tomou um banho frio de realidade. Além de aspectos técnicos, como superfícies de controle para voo atmosférico e trens de pouso, a engenharia de produção necessária desafiava padrões da indústria. As atualizações das estimativas de custos e prazos também não favoreceram o projeto.
No IAC de 2017, em Adelaide, na Austrália, Musk apresentou uma versão redimensionada e comercialmente viável, batizada de Big Falcon Rocket (BFR). O diâmetro do veículo foi reduzido de 12 para 9 metros e material estrutural foi trocado. Incialmente, a SpaceX escolheu fibra de carbono, mas trocou-a por aço inoxidável por razões de custo, comportamento térmico e facilidade de produção.
Outra grande modificação foi a abordagem de negócio. O BFR substituiria gradualmente o Falcon 9, o Falcon Heavy e a cápsula Dragon, assumindo desde o lançamento de satélites comerciais e constelações de internet Starlink até missões tripuladas à Lua e a Marte, além de voos ponto a ponto na Terra, capazes de conectar cidades opostas do planeta com voos de cerca de menos de uma hora.
Sucessivas reiterações do projeto geraram ceticismo na comunidade astronáutica internacional. A escala sem precedentes representava desafios de engenharia inéditos. O comportamento do aço inox nas temperaturas de reentrada não é fácil de gerenciar. A operação simultânea de dezenas de motores de alta pressão é altamente complexa.
Por outro lado, engenheiros e entusiastas reconheciam que a abordagem iterativa da SpaceX, baseada em testes rápidos de hardware (em vez de anos projetos e simulações, como nas empresas mais tradicionais), estava gerando avanços contínuos. O cronograma de longo prazo desejado por Musk (“Musk time”) poderia não ser atendido, mas a SpaceX avançaria muito mais rapidamente do que qualquer outra empresa que tentasse construir um sistema de transporte como esse.
Testes Tradicionalmente, uma empresa aeroespacial criando um novo lançador orbital leva 8 ou 10 anos entre o início do projeto e o primeiro lançamento de teste. O pensamento da SpaceX é diferente, preferindo a prototipagem rápida e o teste de equipamento de baixo custo. Para a Starship, o cenário desses testes é a Starbase, uma instalação criada em Boca Chica, Texas, especialmente para seu desenvolvimento.
Vários testes com tanques de oxigênio e metano líquidos e motores foram conduzidos antes de que esses elementos pudessem ser integrados. Em 2019 começaram os testes com o Starhopper, um cilindro curto e robusto de aço inoxidável, com aparência rudimentar, pernas de pouso fixas e uma coifa ogival provisória na parte superior. O objetivo principal era testar a integridade estrutural do novo material sob pressões criogênicas, o comportamento dos tanques e ignição e controle do motor Raptor. O Raptor por si só foi um feito inédito: o primeiro propulsor de ciclo de combustão em estágio rico em oxigênio de fluxo cheio.
Em março de 2019, com o veículo de teste ancorado ao solo por cabos de segurança, foi feito o primeiro acionamento estático do motor. Nos meses seguintes, o Starhopper fez voos livres. O mais incrível foi em 25 de agosto, quando o protótipo alcançou 150 m de altura, realizou uma manobra controlada de translação lateral e pousou suavemente.
Em paralelo, a SpaceX já havia iniciado a construção de protótipos em escala real, Mk1 e Mk2. Foram fabricados de maneira quase artesanal, ao ar livre, por equipes de soldadores que uniam anéis de aço inoxidável sob o sol escaldante do Texas. Eles foram “tanques de teste”, passando por rigorosos testes de pressurização criogênica, sendo pressurizados com oxigênio e metano até estourarem, com tampos voando e anéis de aço sendo retorcidos. Isso permitiu que a SpaceX conhecesse os limites do material e dos processos de fabricação de forma detalhada.
Essa fase rudimentar, porém altamente eficiente, permitiu à empresa avançar rapidamente para o desenvolvimento de veículos aerodinâmicos de alta altitude. A estratégia consistia em testar separadamente os dois estágios antes de tentar lançar o veículo completo. Entre o final de 2020 e meados de 2021, o horizonte de Boca Chica foi dominado por protótipos cilíndricos de aço inoxidável com ogivas aerodinâmicas e aletas.
Manobras Diferente de outras naves de reentrada, a Starship foi projetada para retornar à atmosfera com o intradorso (“barriga”) para frente, utilizando sua grande superfície para gerar arrasto e perder velocidade e as quatro aletas móveis para controlar a descida. Na fase final, os motores Raptor são acionados, a Ship assume a posição vertical e pousa de forma propulsada. Para essa manobra, são consumidos oxigênio e metano de pequenos tnques secundários.
O primeiro grande marco dessa fase ocorreu em dezembro de 2020 com o protótipo SN8 (Serial Number 8). Impulsionado por três motores Raptor, ele subiu até a altitude alvo de 12,5 km e desligou os motores sequencialmente. Então, realizou a manobra de inclinação, assumindo a posição horizontal. Na descida, controlou sua atitude com as aletas e, na fase final, tentou um “flip” para voltar à vertical para o pouso. Por baixa pressão no tanque secundário de metano, não houve o acionamento dos motores como esperado e o SN8 se cochou contra a plataforma de pouso e explodiu de forma impressionante. Apesar disso, o teste foi considerado um sucesso estrondoso pela engenharia da SpaceX, pois validou quase todas as complexas transições aerodinâmicas em voo real, além de fornecer dados valiosos que não poderiam ser obtidos de outra forma.
Os testes subsequentes, SN9, SN10 e SN11, refinaram o sistema de controle de voo. O SN10, em março de 2021, conseguiu realizar o pouso vertical pela primeira vez, mas teve danos estruturais nas pernas de pouso e explodiu minutos depois. A consagração definitiva dessa fase veio em maio de 2021 com o voo do SN15, com centenas de melhorias em aviônica, sistemas de propulsão e soldagem. O SN15 repetiu toda a coreografia de voo a 10 km de altitude, fez o flip e pousou suavemente na plataforma de Boca Chica.
Enquanto a Starship tinha manobras de pouso validadas, o primeiro estágio, chamado Super Heavy, começava sua própria jornada de testes em solo e voos sub-orbitais. Com 33 motores Raptor e 3.400 toneladas de capacidade de propelente, era necessária uma infraestrutura de solo gigantesca, incluindo uma torre de lançamento equipada com braços mecânicos para montagem e captura dos estágios.
Os primeiros protótipos do propulsor passaram por extensos testes de fogo estático que sacudiram toda a região. Parte dessa propagação acústica se dava pela ausência de um sistema de supressão de vibrações – comum em plataformas de lançadores orbitais, com água sendo injetada abaixo do foguete logo antes dos acionamento. Esse sistema ainda não havia sido implementado no primero voo de teste integrado, IFT-1, em 20 de abril de 2023.
Esse foi um dia histórico: a decolagem inaugural do sistema completo, unindo Super Heavy e Starship, no maior veículo lançado até então. Apesar de o foguete ter conseguido sair da plataforma, enfrentou falhas em motores e problemas de controle de atitude. Por isso, foi acionado o sistema de terminação de voo, explodindo a o veículo a cerca de 39 km de altitude, pouco mais de três minutos após a partida. O teste, contudo, atingiu o objetivo principal de coletar um volume massivo de dados em voo real.
A força bruta dos motores e a ausênsia de um sistema de supressão acústica gerou consequências severas. A plataforma de lançamento foi completamente destruída, abrindo uma cratera sob o pedestal e arremessando toneladas de blocos de concreto, aço retorcido e poeira a grandes distâncias. O impacto ambiental local incluiu um incêndio de aproximadamente 3,5 acres em áreas vizinhas, além de centenas de acres cobertos por detritos particulados no parque estadual e reservas ecológicas próximas. Isso forçou a SpaceX a redesenhar profundamente os sistemas de solo da Starbase e incluir um sistema defletor de água em alta pressão.
Os voos seguintes foram dedicados para testar o comportamento aerodinâmico e a recuperação do Super Heavy. Uma fase importante foi a validação da “separação a quente” (hot-staging): os motores do estágio superior acendem antes que o propulsor se separe completamente. Chegou a ser usado um anel inter-estágio provisório, ejetado do Super Heavy na reentrada.
Também foram praticadas manobras de recuperação do primeiro estágio. Primeiro, sobre o oceano, simulando a captura pela de lançamento. Depois, a SpaceX conseguiu fazer a captura real, em outro momento muito celebrado. Esses testes permitiram dominar a manobrabilidade de um veículo de mais de 70 metros de altura retornando a velocidades hipersônicas.
Leia mais:
“SpaceX realiza quarto voo de teste integrado da Starship”, 07/06/2024
“Starship é destruída em voo de teste”, 07/03/2025
Starship A campanha de voos integrados representou uma curva de aprendizado íngreme e espetacular, marcada por lançamentos que redefiniram o ritmo da engenharia aeroespacial global. Cada missão subsequente serviu para testar fronteiras críticas: controle e manobras na atmosfera e no espaço, proteção térmica (que usa placas de cerâmica de nova geração), transmissão de dados pela rede Starlink, sistemas eletromecânicos, atualizações dos motores, sistema de lançamento de satélites starlink, etc.
Nos voos mais recentes, a espaçonave demonstrou a capacidade de realizar manobras complexas no espaço, lançar satélites Starlink, reentrar nas camadas densas da atmosfera e executar queimas controladas de frenagem sobre os oceanos, culminando em amerissagens suaves e controladas. Em alguns casos, veículos inteiros permaneceram flutuando e transmitindo dados e vídeo via Starlink até serem rebocados para análise. A cada voo, a engenharia iterativa da SpaceX corrigia instabilidades aerodinâmicas e aprimorava a confiabilidade dos motores Raptor.
O marco mais recente foi 14º voo integrado, em 28 de setembro de 2026. Pela primeira vez, o sistema completo cumpriu com sucesso uma missão orbital. Mesmo com contratempos com motores, o veículo alcançou a órbita e realizou com êxito a primeira implantação de carga útil operacional do foguete – lançando 26 satélites Starlink V3. Após cerca de três horas do lançamento, a starship amerissou com precisão ao norte do Havaí.
Leia mais: “Starship completa órbita pela primeira vez”, 30/09/2026
Atualmente, a Starship encontra-se não é um veículo de lançamento operacional, mas pode ser reducionismo dizer que se trata “apenas” de protótipos experimentais quando comparada a projetos de outras empresas aeroespaciais. Especialmente em escala. Até hoje a SpaceX permanece como a única organização conduzindo o desenvolvimento de um foguete tão grande.
Embora a recuperação dos propulsores na torre de lançamento já tenha sido demonstrada com sucesso, ainda é necessário padronizar essa captura para ambos os estágio. Isso será fundamental para reutilizar o foguete em questão de horas, como a SpaceX anuncia.
Outro desafio – especialmente para os voos à Lua e a Marte – é o abastecimento em órbita. Será necessário transferir centenas de toneladas de oxigênio e metano líquidos (criogênicos, de manuseio complexo) de uma nave tanque para a nave da missão no espaço. Isso será necessário já na primeira missão da Starship à Lua pelo programa Artemis, da NASA.
Texas Enquanto isso, a linha de montagem em Starbase está sendo preparada para produzir novas versões em ritmo industrial, visando abastecer a demanda de alta frequência exigida pelas constelações de satélites e missões tripuladas.
Localizada no extremo sul do Texas, às margens do Golfo do México, Boca Chica era uma vila de pescadores e veranistas modesta e isolada, perto da fronteira com o México. A área chamou a atenção de Elon Musk por volta de 2014, quando a SpaceX buscava um local exclusivo e comercialmente viável para construir seu próprio espaçoporto privado. Até então, a empresa dependia estritamente de bases governamentais alugadas.
Em Boca Chica, a proximidade com a linha do equador favorece a economia de combustível para lançamentos orbitais e a baixa densidade populacional parecia ideal para testes de foguetes. Contudo, a região era cheia de pântanos costeiros instáveis e solos arenosos propensos a inundações, além de abrigar algumas dezenas de residências modestas. Em negociações acirradas, os proprietários desses imóveis foram convidados a vendê-los para a SpaceX.
Com o caminho livre, a empresa transformou a região. Onde havia apenas uma estrada de acesso ladeada por dunas, campos, pântanos e poucas dezenas de casas, surgiu um complexo industrial futurista. Primeiro, grandes tendas de montagem e construções fabrís mais modestas. Depois, imensos prédios para fabricação de aço, tanques criogênicos gigantescos, refinarias rudimentares de propelente e torres de lançamento e captura. A vila remanescente foi parcialmente integrada às operações, servindo de alojamento e escritórios de engenharia, transformando-se oficialmente no distrito corporativo e técnico de Starbase.
Inevitavelmente, houve impactos sociais, econômicos e ambientais profundos. A chegada da SpaceX injetou centenas de milhões de dólares na economia do Condado de Cameron, gerando milhares de empregos diretos e indiretos, transformando cidades vizinhas, como Brownsville, em centros de inovação tecnológica e atraindo turistas e entusiastas espaciais de todo o mundo.
Mas o impacto ambiental sobre os frágeis ecossistemas costeiros tornou-se alvo de contínuos debates regulatórios e protestos de grupos ambientalistas. A presença humana – especialmente os testes de foguetes – criaram problemas à fauna local, incluindo espécies protegidas de aves migratórias e tartarugas marinhas. Para balancear a questão, a SpaceX passou a investir expressivamente em programas de compensação ambiental, monitoramento de vida selvagem e projetos educacionais na região.
Além disso, o fechamento frequente da Rodovia Estadual 4 (a única via de acesso à praia de Boca Chica) para testes de solo e voos gerou atritos com moradores locais e banhistas. A atividade da SpaceX passou a ser tão relevante na região que a empresa passou a considerar que toda a governança local seria mais efetiva se conduzida de forma independente.
A vila de Boca Chica foi formalmente emancipada e transformada em uma cidade, com governo próprio, por uma votação local em maio de 2025 feita por petição da SpaceX. A estrutura administrativa da nova municipalidade é gerida principalmente por funcionários da empresa e moradores ligados às operações. Essa autonomia permitiu que a gestão direta de questões civis, infraestrutura básica, serviços públicos e o planejamento de expansão urbana, que inclui projetos de novas moradias, centros comunitários e áreas comerciais.
Assim, a Starbase passou de um complexo industrial privado encravado no litoral texano para se tornar, na prática, uma entidade municipal autônoma, alinhando a governança local diretamente às demandas logísticas e de crescimento das instalações locais da SpaceX.
Flórida e Louisiana A Starbase texana, apesar de tão ampla e complexa, é apenas a primeira. Para sustentar a escala de milhares de voos anuais imaginada por Musk, serão necessárias outras bases. Uma delas será na histórica Costa Espacial, na Flórida. A SpaceX está construindo centros de lançamento, com destaque para adaptações ao Complexo de Lançamento 39A do Centro Espacial Kennedy, da NASA. A plataforma lançou missões do programa Apollo, do Ônibus Espacial e da SpaceX.
A nova torre ultrapassa os 145 m de altura e foi equipada com o sistema de braços mecânicos. Após etapas iniciais de fundação, a SpaceX redesenhou e fabricou a “mesa de lançamento” em suas instalações em Roberts Road, dentro do Centro Espacial. O suporte e os sistemas de deflexão e supressão de água foram transportados e instalados.
As instalações em Roberts Road foram expandidas massivamente para abastecer as operações da Starship na Flórida. Essas expansões incluem hangares de fabricação pesada equivalentes à Starfactory do Texas, que fabrica componentes estruturais. Assim, esses componentes poderão ser montados localmente e transportados por vias terrestres curtas até a plataforma 39A.
Como a plataforma continua sendo utilizada para os lançamentos dos foguetes Falcon 9 e Falcon Heavy (inclusive com missões críticas de carga e tripulação para a ISS), as obras ocorrem em paralelo a uma rotina intensa de voos, exigindo planejamento minucioso e execução cuidadosa.
Mas o que realmente deve redefinir a exploração espacial comercial é a base no Estado da Louisiana. Localizada na região de Vermillion Parish, na costa do Golfo, o espaçoporto terá mais de 120 mil acres e de dez a doze torres de lançamento. Serão realizados milhares de lançamentos por ano, com pico entre 20 e 30 por dia.
A planta deverá funcionar como um sistema autossuficiente. Os planos incluem instalações próprias de produção em massa de propelente, usinas de geração de energia, acesso marítimo por águas profundas (por exemplo, para transporte de grandes anéis de aço por meio de barcas), hangares para processamento de veículos e até um aeródromo integrado. O projeto integra um plano de compensação e restauração ecológica em parceria com agências estaduais e federais para conter a erosão costeira e proteger os pântanos e habitats de aves migratórias da região.
A SpaceX estima que investirá US$ 100 bilhões nas instalações que devem compor, de longe, o maior complexo de lançamento do planeta. A empresa aproveitará a vasta experiência local em engenharia costeira e infraestrutura offshore e prevê-se a geração de mais de 3 mil empregos diretos e milhares indiretos
As obras devem começar em 2027, com o início da movimentação de terra, terraplanagem e construção da infraestrutura básica. O primeiro voo da Starship a partir dessa base deve ocorrer em 2029.
Versatilidade Outro ponto importante do projeto da Starship que a torna economicamente viável é sua arquitetura modular. Há um projeto base que serve de plataforma para diferentes versões. Como um chassi de caminhão pesado ou uma fuselagem de aeronave comercial, a ogiva e a célula central da nave podem ser adaptadas para diferentes propósitos, criando variantes especializadas para atender às demandas comerciais, científicos e governamentais.
A variante cargueira é a espinha dorsal comercial. Projetada com uma imensa coifa que se abre oferece um volume útil de aproximadamente 1.000 m³, superior ao espaço interno de um Boeing 747. Será o burro de carga da SpaceX (como o Falcon 9 é hoje), servindo para o lançamento em massa de constelações, permitindo colocar centenas de toneladas na órbita baixa de uma vez. Também será fundamental para o transporte de infraestrutura pesada para Marte e a Lua: habitats, rovers, painéis solares, sistemas de extração de recursos in situ, componentes estruturais, tanques de armazenamento, etc.
A versão tripulada está sendo projetada para transportar dezenas de passageiros em voos de longa duração, transformando a escala dos voos tripulados. O interior é pensado para maximizar o conforto humano em microgravidade, contando com amplos alojamentos, áreas de convivência, sistemas avançados de suporte à vida e um domo panorâmico de vidro, oferecendo uma vista ampla do espaço.
Nos anúncios públicos, esta variante é o coração do plano de Musk para a colonização de Marte, viabilizando o transporte em massa de colonos e cientistas. Na Terra, a versão tripulada também é a base para o conceito de transporte de passageiros ponto a ponto, que promete conectar metrópoles, como Nova York a Xangai, em menos de 45 minutos através de voos sub-orbitais.
Esse potencial inédito capturou a atenção das Forças Armadas dos Estados Unidos, com destaque para o Comando de Transporte (TRANSCOM), que viu a possibilidade de elevar absurdamente a velocidade de projeção de poder militar. Aeronaves de transporte de grande porte, como o C-5 Galaxy, levam de 15 a 24 horas para cruzar oceanos e dependem de uma rede de bases aéreas aliadas e reabastecimentos intermediários.
Uma Starship cargueira poderia entregar até 150 toneladas de suprimentos, equipamentos pesados e veículos blindados para qualquer ponto do planeta em menos de uma hora, independente de infraestrutura convencional. Também se pensou na inserção rápida de tropas de elite e equipes de resposta humanitária ou de combate.
A proposta conceitual prevê o uso da Starship para missões de mobilidade rápida em escala global, permitindo que um contingente significativo de forças especiais seja posicionado em zonas de crise ou teatros de operações distantes em tempo recorde. Além da rapidez, a proposta também elimina barreiras tradicionais, como espaços aéreos restritos ou contestados e a vulnerabilidade de comboios terrestres.
Entre os desafios dessas operações, estão segurança de pouso em ambientes não preparados, a certificação sob padrões rigorosos do Pentágono para missões críticas e a questão diplomática de sobrevoar nações soberanas com balística intercontinental militar. Apesar desses obstáculos, acordos de firmados entre a SpaceX e o Pentágono para estudar a viabilidade de versões militares da Starship mostram que essas ideias não estão tão distantes da realidade.
Talvez o contrato mais prestigioso e desafiador da Starship seja com a NASA para atuar como o sistema de pouso lunar tripulado (Human Landing System, HLS) no programa Artemis. Como a Lua não tem atmosfera, a versão lunar da Starship não precisa de aletas aerodinâmicas e escudos térmicos para reentrada. Em contrapartida, o veículo será equipado com um sistema de propulsão para pouso. Esses propulsores ficarão na metade superior da nave para evitar a ejeção de poeira e rochas lunares. O HLS também terá interior adaptado para operações em baixa gravidade, painéis solares extensíveis, comportas adaptadas para operações lunares e um elevador para carga e tripulação.
Leia mais: “Avaliação da NASA sugere mais atrasos para a Starship da Artemis III”, 05/07/2024
Para os reabastecimentos em órbita, a SpaceX terá naves-tanque: uma Starship otimizada para armazenar e transferir centenas de toneladas de propelente em órbita. Elas também precisam estar prontas para a as missões à Lua. As naves “de missão” decolarão da Terra com tanques parcialmente abastecidos e serão abastecidas por essas naves-tanque em órbita. Totalmente abastecidas, poderão seguir para suas missões além da órbita da Terra.
O espaço interno vasto da Starship chamou a atenção da NASA, que examina e investe em iniciativas de estações espaciais, considerando que a Estação Espacial Internacional (ISS) será descontinuada no fim da década. Conceitos estudados em parceria com a NASA e empresas aeroespaciais visam transformar células modificadas da Starship em estações espaciais comerciais. Nesse arranjo, o veículo mantém seus sistemas de suporte à vida ativos, energia solar dedicada e capacidade de acoplamento para naves visitantes.
A construção da ISS exigiu dezenas de voos tripulados para a montagem complexa de vários módulos “pequenos” ao longo de cerca de 20 anos. Uma estação baseada na Starship seria um laboratório orbital pronto para uso, com espaço interno gigantesco para pesquisas científicas, manufatura em microgravidade e turismo espacial.
Mercado Nesse texto, falei sobre como o conceito de uma grande nave interplanetária foi modificada até se tornar a Starship – economicamente viável: materiais, infraestrutura, simplificação de mecanismos, abordagem para testes, aplicações comerciais e militares, enfim… Mas como ela se encaixa no mercado de lançamentos?
Vamos falar sobre custos. O padrão atual da indústria já era considerado altamente competitivo graças aos foguetes reutilizáveis da SpaceX. O custo de um lançamento comercial de Falcon 9 (parcialmente reutilizável) está em torno de US$ 67 a US$ 74 milhões, com uma capacidade de cerca de 22 toneladas para a órbita baixa. Isso resulta em um custo aproximado de US$ 3.000 a US$ 3.200 por kg.
Veículos como o europeu Ariane 6 ou o Vulcan Centaur, da americana ULA, operam com custos que variam de US$ 4.000 a mais de US$ 7.500 por kg enviado à órbita baixa. O SLS, usado pela NASA no programa Artemis, chega a custar bilhões por missão, resultando em dezenas de milhares de dólares por quilo.
As estimativas da Starship são tão impressionantes quanto o próprio tamanho do foguete. As projeções de longo prazo da SpaceX dividem-se entre os custos marginais operacionais e os preços comerciais.
Com a plena reutilização de ambos os estágios e uma cadência elevada de voos (algo que seria a operação ideal anunciada por Musk), a empresa projeta reduzir o custo operacional marginal de cada lançamento para algo em torno de US$ 10 milhões. No entanto, contratos comerciais iniciais voltados a grandes clientes governamentais e grandes cargas de terceiros, como estações espaciais privadas, apontam para preços de mercado na faixa de US$ 90 milhões.
A capacidade máxima de carga útil planejada para o veículo maduro varia de 100 a 250 toneladas, dependendo da versão e do perfil de reutilização. A meta de Musk é atingir um custo operacional inferior a US$ 10 a US$ 50 por kg. Analistas do setor aeroespacial – não tão sonhadores otimistas – fazem estimativas mais comedidas: entre US$ 100 e US$ 500 por kg nas primeiras operações comerciais em larga escala.
Reutilizando o primeiro estágio, o Falcon 9 deu um choque na indústria forçou engenheiros de foguetes no mundo todo a repensarem recuperação e reutilização de lançadores. A Starship pretende dar um choque numa escala muito maior. Se as metas de custo por kg forem atingidas, a Starship reduzirá em até 99% os custos praticados historicamente pelo mercado global. Isso poderá viabilizar indústrias inteiras no espaço: como mineração de asteroides, turismo orbital de massa, manufatura avançada em microgravidade… e até a colonização de outros mundos.
Em diferentes níveis de debate, surgem críticas à exploração econômica do espaço como o principal motor de nossas atividades fora do planeta. Particularmente, tento manter uma perspectiva realista. Considerando a história de nossa espécie, a busca pura pelo conhecimento científico fica em segundo plano. A ciência só ganha prioridade e financiamento maciço quando há uma clara perspectiva de retorno econômico ou de aplicação bélica.
Atividades como a mineração de asteroides ou o turismo espacial podem não parecer, à primeira vista, justificativas filosóficas tão profundas quanto a pura exploração científica. No entanto, a principal alternativa histórica tem sido o avanço da militarização do espaço – capaz de aprofundar ainda mais as disparidades geopolíticas e tecnológicas entre as nações industrializadas e os países em desenvolvimento.
Séculos atrás, navegamos pelos oceanos e mapeamos o globo movidos pelo comércio. Parece razoável prever que a exploração do Sistema Solar seguirá uma lógica semelhante. É irônico que o mundo seja catapultado para essa nova fase histórica pela ideia de um bilionário excêntrico disposto a arriscar sua fortuna para realizar a ambição pessoal da colonização de outro planeta.
“Quando algo é importante o suficiente, você faz mesmo que as chances não estejam a seu favor.”
-Elon Musk, fundador e CEO da SpaceX