Acoplagem com estação espacial está marcada para amanhã; retorno será a partir de 14 de junho. Missão acontece com sete anos de atraso em relação ao cronograma original.
A nave CST-100 Starliner da Boeing finalmente está em órbita em seu primeiro voo tripulado após anos de atrasos em seu desenvolvimento e dois voos não tripulados.
Um foguete Atlas V da United Launch Alliance (ULA) decolou do Complexo de Lançamento Espacial 41 da Estação da Força Espacial de Cabo Canaveral, na Flórida, às 11h52 de Brasília na missão Crew Flight Test (CFT). A Starliner se separou do estágio superior Centaur 15 minutos após a decolagem e completou uma queima de inserção orbital com seus próprios propulsores 16 minutos depois, colocando a espaçonave na baixa Terra.
“Com o lançamento da Starliner, a separação do foguete e a chegada em órbita, o teste de voo da tripulação da Boeing está no caminho certo”, disse Mark Nappi, vice-presidente e gerente do programa de voos tripulados comerciais da Boeing, em um comunicado da empresa logo após a inserção orbital.
Em uma entrevista coletiva após o lançamento, Nappi e Steve Stich, gerente do programa de tripulação comercial da NASA, disseram que a espaçonave estava em boas condições. Houve um pequeno problema: um sublimador, que usa água para controle térmico durante o lançamento e a reentrada, usou mais água do que o esperado durante o lançamento. Stich disse que há um sistema de reserva para reabastecer o tanque de água. “Foi bom obter esses dados do voo e entendê-los.”
A Starliner Calypso está programada para se acoplar à Estação Espacial Internacional (ISS) por volta das 12h15 de amanhã. A nave permanecerá na ISS pelo menos até 14 de junho. O pouso acontecerá horas após a desacoplagem no White Sands Missile Range, no Novo México.
A bordo da Starliner estão os astronautas da NASA Butch Wilmore e Suni Williams. Wilmore foi piloto de teste da Marinha dos EUA e participou do desenvolvimento do T-45 Goshawk. Foi ao espaço duas vezes: uma missão de 11 dias do Ônibus Espacial à ISS em 2009 e a Expedição 41 da ISS, em 2014.
Williams também foi piloto de teste da Marinha. Fez parte das Expedições 14/15 e 32/33 da ISS, tendo voado no Ônibus Espacial e na Soyuz. Chegou a ser recordista feminina em quantidade e duração somada de caminhadas espaciais: foram 7 atividades somando 50 horas e 40 minutos.
“Todos nós sabemos que, quando as coisas ficam difíceis, como acontece com frequência, os durões se esforçam, e todos vocês o fizeram”, disse Wilmore enquanto aguardava na plataforma para a decolagem. “Vamos continuar, vamos colocar fogo neste foguete.”
“Vamos, Calyspo, nos leve ao espaço e volte”, disse a piloto Williams minutos antes do lançamento.
No briefing, Nappi e Stich disseram que não ouviram muito deles desde que chegaram à órbita sobre o desempenho da espaçonave. “Eles estavam realmente concentrados em cumprir uma série de objetivos, preparar a espaçonave para a órbita”, disse Stich. Entre esses objetivos, estavam testes de controle manual da espaçonave e de situações de emergência envolvendo perda de energia e comunicações.

Enquanto a Starliner está em voo livre, não há vídeo ao vivo, embora o vídeo esteja sendo gravado e possa ser transferido por downlink depois que a Starliner se acoplar à ISS. Nappi disse que a capacidade de fornecer vídeo ao vivo de dentro da espaçonave – como faz a Crew Dragon, da SpaceX – será adicionada, mas isso levará alguns voos.
A Starliner também tem cerca de 360 kg de carga a bordo, incluindo uma nova bomba para um sistema de reprocessamento de urina na ISS. Ela foi adicionada à carga na semana passada, depois que a bomba na estação falhou. A bomba, de 70 kg, está ocupando o lugar de duas malas de roupas e suprimentos de higiene.
Wilmore e Williams passarão cerca de oito dias na ISS submetendo a espaçonave a uma série de testes para obter a certificação operacional para voos tripulados.
Tentativas Essa foi a terceira tentativa de lançamento da CFT. A primeira, em 6 de maio, foi cancelada cerca de duas horas antes da decolagem, quando uma válvula de alívio de oxigênio do Centaur começou a oscilar. A ULA levou o foguete de volta ao prédio de integração para substituir a válvula.
Enquanto isso, a Boeing investigou um vazamento de hélio em um propulsor no módulo de serviço da Starliner. A empresa e a NASA concluíram que o propulsor poderia voar no estado em que se encontrava, mas descobriram o que a agência chamou de “vulnerabilidade de projeto” no sistema de propulsão, o que exigiu o desenvolvimento de um novo modelo de backup para garantir que a nave pudesse realizar uma queima para saída de órbita caso ocorresse uma rara combinação de falhas.
“Às vezes, para voos espaciais, você planeja contingências e projeta o veículo para ter margem”, disse Stich em uma coletiva de imprensa em 31 de maio, com a segunda tentativa de lançamento marcado para o dia seguinte. “Poderíamos lidar com um vazamento 100 vezes pior do que esse. Portanto, […] concluímos que a coisa mais inteligente a fazer era realizar a missão, e poderíamos realizá-la com segurança.”
A segunda tentativa foi interrompida pouco menos de quatro minutos antes da decolagem. A ULA determinou que uma fonte de alimentação em um rack de computador no solo estava com defeito. A empresa o substituiu e testou novamente o sistema. Esse trabalho adiou o lançamento para hoje.

Conquista “Sei que é muito fácil perder a paciência quando se espera que os lançamentos aconteçam”, disse Ken Bowersox, administrador associado da NASA para operações espaciais, durante a coletiva após o lançamento, mas “valeu a pena esperar pelo lançamento de hoje”.
“Conversamos muito com nossa equipe sobre ignorar muitas coisas que lemos. Nós nos concentramos no que é positivo”, disse Nappi sobre as críticas aos atrasos e problemas da Starliner. Ele disse que recebeu uma “enxurrada de mensagens de texto e e-mails” parabenizando-o pelo lançamento. “Não posso dizer o quanto isso é bom para nossa equipe da Starliner.”
“Estou sorrindo, acredite em mim”, acrescentou Nappi, de semblante sério e sem sorriso.
O lançamento também foi um marco para a ULA, pois foi a primeira vez que a empresa lançou uma missão tripulada. O Atlas V tem 22 anos de operação e lançou missões emblemáticas, como as sondas Mars Reconaissance Orbiter, New Horizons, OSIRIS-REx, Lunar Reconaissance Orbiter, MAVEN, Solar Dynamics Observatory e InSight, além de diversas cargas comerciais e governamentais.
Na coletiva, Tory Bruno, presidente e executivo-chefe da ULA, comentou que participou de quase 450 lançamentos. “Tenho certeza de que já vi de tudo, mas devo lhes dizer que não há nada como isso.”
Wilmore e Willams parabenizaram a ULA após o lançamento “por fazer parte do clube dos voos espaciais tripulados”, disse Nappi. “Acho que precisamos cortar a gravata dele ou algo assim.” Quando a coletiva acabou, Stich cortou a gravata de Bruno com uma tesoura.
Se tudo correr bem na CFT, a Starliner transportará sua primeira tripulação comercial para uma estadia de cerca de seis meses na ISS talvez já em 2025. O Starliner-1, o primeiro voo operacional, levará os astronautas Mike Fincke, Scott Tingle, ambos da NASA, e Josh Kutryk, da Agência Espacial Canadense. A tripulação já está treinamento. Fincke também integrou a tripulação reserva da CFT.

Financiamento O lançamento ocorre após anos de atrasos no desenvolvimento da Starliner, que sofreu problemas que vão desde software defeituoso e válvulas corroídas até componentes de paraquedas com margens de segurança inadequadas e fita inflamável usada nas cablagens. Esses problemas exigiram que a Boeing realizasse dois voos de teste sem tripulação, em vez de um, conforme planejado originalmente.
Leia mais:
“Voo tripulado da Starliner sofre mais um atraso”, 15/05/2024.
“Voo tripulado da Starliner é adiado novamente”, 22/05/2024.
O Programa Comercial de Tripulações da NASA teve origem no Programa Comercial de Carga, financiado pela primeira vez em 2006. Até então, somente programas estatais enviavam suprimentos para a ISS e a agência decidiu recorrer ao setor privado para estimular a independência e a resiliência dessas empresas e economizar verbas públicas.
O programa de cargas estimulou o desenvolvimento da nave Dragon em sua primeira versão, apenas cargueira, e do veículo Cygnus, da Northrop Grumman. Ambos realizam missões de reabastecimento para a ISS. Em breve, também será utilizado a nave Dream Chaser, da Sierra Space. O sucesso do programa ajudou a NASA a conceder seus primeiros contratos para voos tripulados em 2010, totalizando coletivamente US$ 50 milhões (no valor de cerca de US$ 72 mi na cotação atual) para cinco empresas.
O quinteto incluía a Blue Origin, a Boeing, a Paragon Space Development Corp, a Sierra Nevada (agora Sierra Space) e a ULA. Cada uma recebeu apoio do Desenvolvimento Comercial de Tripulações 1 (CCDev-1) para várias tecnologias de voo espacial tripulado. O financiamento da ULA ajudou a certificar o Atlas V para essas missões.
Entre 2010 e 2014, várias novas rodadas de financiamento trouxeram apoio extra à Boeing, SpaceX e a várias outras empresas. O CCDev-2, anunciado em abril de 2011, concedeu um total de US$ 270 mi à Blue Origin, Boeing, Sierra Nevada e SpaceX. A Boeing recebeu US$ 92 mi nessa rodada para a Starliner, enquanto os US$ 75 mi da SpaceX foram destinados ao desenvolvimento da Crew Dragon.
O financiamento aumentou com a Capacidade Integrada de Tripulações Comerciais (CCiCap) em agosto de 2012, quando a NASA reduziu para três empresas: a Sierra Nevada recebeu US$ 212 mi pela Dream Chaser, enquanto a Boeing e a SpaceX receberam US$ 460 mi e US$ 440 mi, respectivamente.
A SpaceX e a Boeing receberam então o último grande contrato para o trabalho de desenvolvimento final, conhecido como Capacidade de Transporte Comercial Tripulado (CCtCap), em setembro de 2014. O acordo da Boeing valia US$ 4,2 bi na época, enquanto a SpaceX recebeu US$ 2,6 bi. O dinheiro também foi destinado a cobrir seis voos operacionais com tripulação de e para a ISS.

Desafios Surgiram muitos obstáculos logísticos e técnicos para as espaçonaves de ambas as empresas. A NASA queria que as duas lançassem astronautas em 2017, mas o primeiro voo de teste da SpaceX foi lançado em 2020. O da Boeing foi lançado hoje.
Muitos fatores contribuíram para esses atrasos. O Congresso repetidamente deu menos dinheiro do que a Casa Branca e a NASA solicitaram e surgiram obstáculos técnicos. As soluções da Boeing, no entanto, exigiram mais voos e mais tempo do que as da SpaceX.
A SpaceX já enviou 12 missões tripuladas para a ISS até o momento, incluindo o voo de teste de 63 dias Demo-2 com os astronautas da NASA Bob Behnken e Doug Hurley, em 2020. Esperava-se que a Demo-2 ocorresse em 2019, logo após uma Crew Dragon sem tripulação ter chegado à ISS pela primeira vez em março. Porém, apenas um mês depois, a Dragon explodiu durante um teste de solo de seu sistema de abortamento de lançamento. A SpaceX, como esperado, adiou os lançamentos tripulados até que pudesse resolver a causa do acidente, uma válvula defeituosa.
Os problemas da Starliner eram mais complexos. Sua primeira missão sem tripulação, Orbital Flight Test (OFT), em dezembro de 2019, não chegou à ISS. O sistema de cronometragem da cápsula ficou confuso e a Starliner ficou presa em uma órbita que impossibilitou o encontro com a estação. A investigação foi complexa e demorada, exigindo dezenas de correções, e a pandemia no início de 2020 atrasou ainda mais os cronogramas devido a problemas na cadeia de suprimentos e requisitos de distanciamento.
O voo seguinte se encontrou com a ISS sem problemas em maio de 2022, mas seu caminho para voos tripulados enfrentou outro obstáculo em 2023. No final do fluxo de treinamento da CFT, novos problemas com a espaçonave foram descobertos, exigindo outras correções. Os mais urgentes envolviam os paraquedas principais, que carregavam menos carga do que os engenheiros pensavam, e as cablagens da cápsula, em grande parte envolta em fita P213 inflamável.

Os astronautas da CFT, bem como a Boeing e a NASA, afirmaram repetidamente que esses problemas ficaram para trás, embora possam surgir novos problemas agora, durante a missão Wilmore também minimizou o fato da CFT ser a única coisa que determina o sucesso da Starliner, considerando todos os estágios de desenvolvimento para os astronautas como “de importância vital”.
“Isso é voo espacial tripulado”, disse a repórteres em uma entrevista coletiva em 25 de abril, quando a dupla chegou ao Centro Espacial Kennedy para quarentena, treinamento e preparativos para o lançamento, então marcado para 6 de maio. “Vocês conhecem aquele ditado que ouvem desde a Apollo 13: o fracasso não é uma opção. E isso não tem nada a ver especificamente com a Boeing ou com esse programa. São todas as coisas que fazemos em voos espaciais tripulados.”
Além disso, a falha na abertura total de um paraquedas durante o voo suborbital tripulado NS-25, da Blue Origin, levou a Boeing a verificar novamente os sistemas de paraquedas da Starliner.
“A Starliner usa alguns componentes semelhantes ao sistema de paraquedas [do New Shepard]”, explicou Stich em 31 de maio. Segundo ele, a Blue Origin forneceu dados de voo do NS-25 à NASA, à SpaceX e à Boeing, permitindo que os engenheiros garantissem a funcionalidade de componentes específicos. Depois de examinar os dados, foi determinado que a Starliner estava “pronta para voar”.
Com a expectativa de que a ISS continue em órbita até pelo menos 2030, o plano para o futuro é que três naves espaciais diferentes transportem astronautas para a estaçaõ e de volta. Além da Dragon e da Starliner nos contratos com a NASA, a Rússia continuará a enviar tripulações lideradas por seus cosmonautas usando sua espaçonave Soyuz até pelo menos 2028, quando o compromisso do país com a parceria deverá expirar.
Alguns astronautas da NASA continuam a usar a Soyuz por motivos poíticos e também porque os parceiros da ISS querem ter o maior número possível de backups em caso de problemas técnicos com qualquer nave.
Em 31 de maio, Fincke disse que a CFT “ajudará a dar continuidade ao processo de certificação da Starliner, de modo que a Starliner 1, 2, 3, até o infinito e além, possa voar e prestar serviços à Estação Espacial Internacional, e isso depende da Boeing, mas outras missões também estão disponíveis”.
Além disso, a CFT “realmente é toda a nossa atenção neste momento”, disse Nappiem 25 de abril. Com pelo menos mais seis anos de voos à ISS a serem planejados, “temos muito tempo para pensar no que virá depois disso”.