Remarcada para dia 21, missão de teste levará dois astronautas à ISS. Vazamento de hélio em propulsor de atitude forçou engenheiros a realizar bateria rigorosa de testes.
Sim, mais um atraso para a Starliner. E quem segue o BdA no Instagram leu isso antes de chegar ao blog.
A nave da Boeing, que já acumula anos de atraso em seu desenvolvimento, sofreu mais um atraso esse mês, após uma tentativa de lançamento tripulado. Até então, a próxima tentativa de lançamento estava marcada para amanhã, dia 16. Agora, foi adiada para o dia 21. A culpa é de um vazamento de hélio no módulo de serviço.
A última tentativa de lançamento da missão Crew Flight Test 1 (CFT-1), às 23h34 de Brasília do dia 6 de maio, foi interrompida com a tripulação já a bordo por uma falha de uma válvula do Centaur III, o segundo estágio do Atlas V, foguete da United Launch Alliance que lança a Starliner.
Após esse evento, Tory Bruno, CEO da ULA, explicou em uma coletiva de imprensa que houve um problema com uma válvula de alívio de pressão de oxigênio líquido estágio. Essa válvula conta com um solenoide para ajustar seu funcionamento caso oscile irregularmente e, tecnicamente, ele poderia ser comandado. Porém, segundo Bruno, a empresa escreveu suas normas de lançamentos tripulados com a regra de não alterar o estado da válvula com a tripulação a bordo.
Diante dessa situação, o diretor de lançamento da ULA Tom Heter III decidiu não prosseguir e a equipe removeu a tripulação da Starliner, conduzindo os astronautas para um local seguro. Então, os tanques de combustível do foguete foram esvaziados.
Hélio Na contagem regressiva, um vazamento de hélio foi detectado em um dos quatro módulos de propulsão do módulo de serviço da nave S3 “Calypso”. O vazamento estava dentro dos limites aceitáveis e não foi considerado um impedimento para o lançamento.
Depois que o Atlas V retornou ao prédio de integração para a substituição da válvula do Centaur – que já foi realizada -, engenheiros examinaram melhor o vazamento de hélio. As tubulações do sistema foram verificadas e “parafusos foram apertados”, mas o lançamento foi adiado em alguns dias para verificações finais.
O problema foi encontrado em um flange conectado a um dos propulsores de controle de reação da espaçonave. Esses propulsores são responsáveis por ajustar a atitude da Starliner no espaço. Sem eles, a nave não teria controle de orientação e não poderia, por exemplo, acoplar à Estação Espacial Internacional (ISS).
O hélio pressuriza o sistema de propulsão, atuando no controle da dosagem de combustível. Sem essa pressurização, o sistema não funciona. O flange é um ponto crítico de conexão do sistema de propulsão. Qualquer falha poderia comprometer a pressurização do sistema, colocando os objetivos da missão em risco.
Portanto, a tarefa dos engenheiros é de grande responsabilidade. Essa avaliação exigiu uma abordagem holística para entender os fatores que levaram ao problema. Não era apenas sobre localizar o vazamento e solucioná-lo, mas também entender suas causas: falha na montagem, falha de projeto problemas nos materiais, etc.
A equipe empregou ferramentas e técnicas avançadas, incluindo testes de pressão e tecnologias de imagem. Para garantir o rigor da fixação, uma bateria de testes foi realizada em condições que simulam o ambiente hostil do espaço. Esses testes foram projetados para validar a eficácia dos reparos e garantir que a integridade e a funcionalidade do sistema permaneçam inalteradas.
Rastrear e retificar o problema exige uma abordagem meticulosa, não apenas com inspeção física e testes dos sistemas da Starliner, mas também com revisão da documentação de projeto e montagem. Assim, a Boeing visa não apenas corrigir o problema, mas também aumentar a resiliência e a confiabilidade de sua nave.
Testes rigorosos não são apenas uma fase no desenvolvimento de veículos espaciais. São uma necessidade contínua. Cada teste, quer identifique uma falha ou confirme a funcionalidade, contribui para uma compreensão mais profunda das capacidades e limitações do veículo. Esse conhecimento é inestimável, formando a base sobre a qual a segurança e o sucesso de missões espaciais são construídos.
Consequências O adiamento repercutiu na comunidade aeroespacial, mostrando que há um equilíbrio sutil entre inovação e segurança na astronáutica. A mudança de data evidencia o compromisso da Boeing com os rigorosos padrões de segurança e precauções inerentes à exploração espacial, mas tem implicações serias no planejamento logístico de à ISS.
O ajuste da data de lançamento de uma missão como essa não é apenas no calendário, implicando uma revisão ampla da logística da missão – incluindo a coordenação com a ISS para acoplagem e outras atividades e garantia de disponibilidade de locais de pouso para o retorno da nave. É uma baita dor de cabeça…
De forma mais ampla, também demonstra os desafios inerentes à certificação de espaçonaves tripuladas e ressalta o significado de falhas e redundâncias no projeto dessas naves, especialmente em sistemas tão críticos. A Boeing, além abordar a questão em si, mas também deverá reavaliar e aprimorar seus processos de teste e verificação para evitar problemas semelhantes no futuro.
Para os astronautas escalados para a missão, o atraso afeta os cronogramas de treinamento e preparação. A tripulação passa por treinamento rigoroso adaptado a parâmetros específicos da missão. Qualquer mudança no cronograma requer ajustes nessa preparação.
Também há consequências para os objetivos mais amplos da NASA e seus parceiros internacionais, que dependem do sucesso do desenvolvimento de veículos tripulados comerciais para manter astronautas constantemente no espaço – especialmente na ISS.
Missão Programada para lançamento às 17h43 de Brasília a partir da plataforma 41 na Estação da Força Espacial de Cabo Canaveral, a CFT-1 será o segundo voo da Calypso – que foi usada no voo não tripulado, que visitou a ISS. A bordo, estarão os astronautas Butch Wilmore e Sunita Willians.
Wilmore foi piloto de teste da Marinha dos EUA e participou do desenvolvimento do T-45 Goshawk. Foi ao espaço duas vezes: uma missão de 11 dias do Ônibus Espacial à ISS em 2009 e a Expedição 41 da ISS, em 2014.
Williams também foi piloto de teste da Marinha. Foi parte das Expedições 14/15 e 32/33 da ISS, tendo voado no Ônibus Espacial e na Soyuz. Chegou a ser recordista feminina em quantidade e duração somada de caminhadas espaciais: foram 7 atividades somando 50 horas e 40 minutos.
A Calypso não carregará não apenas os dois tripulantes, mas também a importância de ser o primeiro voo tripulado da Starliner, com desenvolvimento conturbado, testes meticulosos e soluções de problemas imprevistos.

A acoplagem com a ISS deve acontecer na tarde do dia 22. Esse procedimento é crucial para provar a funcionalidade da nave e também do planejamento desse tipo de missão. O encontro da nave com a estação é uma dança cuidadosamente coreografada – e altamente dependente da precisão dos sistemas de propulsão e navegação da nave.
O retorno da Calypso à superfície terrestre deve acontecer por volta de 30 de maio no deserto de White Sands, no Novo México. Não será apenas a conclusão da missão, mas a demonstração da capacidade da Starliner de retornar à Terra com sua tripulação em segurança. A escolha do local de pouso considera não apenas aspectos ligados à nave, mas também às operações de recuperação, garantindo que o veículo e a tripulação possam ser recuperados e analisados adequadamente.


