Além de ciência planetária, missão tem potencial para astrobiologia. Requisitos de missão e planejamento pré-lançamento estão sendo discutidos no âmbito de possível parceria.

Esta semana, estão reunidos no Centro de Voo Espacial Goddard, da NASA, em Greenbelt, Maryland, para debater a Uranus Orbiter and Probe, uma missão da agência espacial dos EUA em fase de elaboração. O projeto envolve o envio de uma espaçonave para orbitar Urano e lançar uma sonda na atmosfera do planeta. A nave poderia ser construída e lançada em uma década.

A missão vem sendo discutida há algum tempo e está começando a tomar forma em seu planejamento, com a NASA convidando a Agência Espacial Europeia (ESA) a participar do projeto, por exemplo, construindo a sonda de entrada.

A parceria uniria o poderio científico e tecnológico de duas das principais agências espaciais do mundo, aproveitando experiências e recursos coletivos das organizações e ampliando a capacidade de conduzir pesquisas profundas de forma mais econômica e inovadora. A parceria também seria farol para a colaboração científica internacional, combinando esforços para superar desafios que seriam maiores se encarados de forma individual.

O acordo reduziria custos e forneceria instrumentos de ponta para os americanos e ofereceria aos europeus uma oportunidade única de participar de uma missão importante a um custo relativamente baixo. Com o histórico muito bem sucedido da missão Cassini-Huygens, que continua sendo a empreitada científica com melhores resultados no Sistema Solar Externo, a nova parceria tem grande potencial para aprimorar nossa compreensão do sistema capitaneado por Urano.

Dois hemisférios de Urano registrado em infravermelho, revelando nuvens, faixas e anéis (NASA/JPL)

Outro planeta azul Urano, o sétimo planeta a partir do Sol, é um enigma. Permaneceu, em grande parte, intocado e pouco estudado em comparação com seus vizinhos. Sua inclinação axial de 98° resulta em variações sazonais extremas, que podem fornecer dados importantes sobre como a distribuição de energia solar afeta a dinâmica atmosférica. Isso torna o planeta uma potencial fonte de insights sobre os processos que moldam atmosferas e climas planetários.

A atmosfera do planeta é rica em hidrogênio, hélio e metano. A distinta cor azul é criada pelo metano, que absorve a luz com comprimentos de onda mais próximos ao vermelho e reflete a luz mais próxima do azul. Seus sistemas climáticos são caracterizados por ventos extremos e formações de nuvens. Urano é uma janela única para estudar a química e a dinâmica atmosférica sob condições de irradiação solar criadas por sua inclinação extrema.

O campo magnético uraniano, significativamente inclinado em relação ao seu eixo de rotação, atrai cientistas a pesquisar a geração de campos magnéticos planetários – tópico que está nos limites da ciência planetária.

Além de estudos atmosféricos e magnéticos, a missão examinará de perto os anéis e as luas do planeta. Cada lua do planeta tem seus próprios segredos. Da superfície fraturada e geologicamente diversa de Miranda, registrada pela Voyager 2, aos possíveis oceanos subterrâneos de outras luas, esses satélites naturais apresentam um amplo campo para estudos envolvendo características e processos geológicos e estruturas internas.

Como aconteceu e acontece com sondas que exploraram ou exploram os planetas gigantes (Cassini, em Saturno, e Galileu e Juno em Júpiter), a sonda uraniana poderá fazer passagens próximas aos satélites naturais. Poderá até implantar pequenas sondas orbitais ou de pouso em uma delas. Esses astros nos ajudarão a entender melhor as “luas geladas” do Sistema Solar e podem nos dar pistas sobre as condições necessárias para a vida e a história do Sistema.

A missão trará melhor entendimento sobre o sistema uraniano, claro. Mas também pode nos fazer entender melhor mecanismos que atuam de forma mais ampla no Sistema Solar, nos ajudando a compreender desde a formação e evolução planetária até a dinâmica magnética e atmosférica dos gigantes de gelo (planetas como Uranos e Netuno).

Esse é o tipo mais comum de exoplaneta na Via Láctea, com características que se situam entre as dos gigantes gasosos (Júpiter e Saturno) e as de planetas terrestres. Esse é mais um motivo para nossa Ciência se interessar tanto pelo estudo desse planeta.

Miranda, lua de Urano, fotografada pela sonda Voyager 2 (NASA/JPL)

É por essa lista de interesses científicos que a missão recebeu status de prioridade na Pesquisa Decadal de Ciência Planetária e Astrobiologia dos EUA de 2022, com a NASA designada para liderá-la.

As motivações científicas para uma missão a Urano são convincentes. Missões dedicadas a Júpiter e Saturno fizeram grandes descobertas, incluindo oceanos subterrâneos em luas geladas que podem ter o potencial de abrigar vida. No entanto, Urano e Netuno só foram fotografados a espaçonave Voyager 2 passou por eles nos anos 80.

Sabemos pouco sobre a formação desses dois planetas. Urano pode ter começado como aspirante a gigante gasoso, mas tarde demais para atrair hidrogênio e hélio, com a nebulosa solar já se dissipando. Ou por um processo muito diferente, mas semelhante ao que aconteceu à Terra. Ele também poderia ter se formado mais perto de Júpiter e se afastado depois, injetando comentas do Sistema Solar Interno – que trouxeram água para a Terra. Diferentes cenários são possíveis conforme o que sabemos hoje, mas conhecer a composição da atmosfera de Urano em detalhe restringiria as condições sob as quais o planeta se formou e mostraria como elas mudaram com o tempo.

A janela para fechar esse acordo está se fechando rapidamente. Há um grande benefício científico em chegar a Urano perto do ano 2050, quando sua posição na órbita fará o Sol iluminar igualmente ambos os hemisférios e de suas luas. Considerando um tempo de desenvolvimento típico de 10 anos para uma missão como essa e somando os tempo de viagem até o planeta – de 12 a 15 anos, dependendo da data de lançamento e do veículo -, seria necessário que os trabalhos se iniciassem nos próximos anos.

A NASA declarou que espera liberar fundos para a missão a partir de 2026 ou 2027. Do outro lado do Atlântico, o programa orçamentário da ESA não inclui nenhuma contribuição substancial para uma missão como essa.

ESA A pesquisa de 2022 enfatizou a oportunidade de parcerias internacionais para esse projeto, observando que, no ano anterior, um comitê de cientistas seniores que assessorava a ESA em seu plano de longo prazo (o Voyage 2050) recomendou que a agência europeia buscasse uma contribuição de “classe média” para uma missão orbital de gigantes de gelo liderada por um parceiro internacional. A ESA avaliou a possibilidade de fornecer a sonda de entrada atmosférica – o que, segundo ela, poderia ser feito dentro do orçamento de missão de médio porte de cerca € 500 milhões (US$ 537 mi).

O envolvimento de cientistas europeus seria muito importante na comunidade global de exploração espacial. Além de facilitar o intercâmbio de ideias e tecnologias, garantiria à missão um amplo espectro de conhecimentos, experiências e insights. Cientistas europeus estão na vanguarda de vários domínios de pesquisa relevantes para a missão, como ciência planetária, química atmosférica e magnetismo planetário. Sua participação permite um diálogo científico rico e a integração de diversas metodologias e perspectivas – cruciais para os desafios complexos a serem enfrentados pela missão.

Europeus também se envolveriam diretamente nas fases de concepção, implementação e análise da missão. Isso é fundamental para desenvolver e refinar tecnologias que podem definir padrões na exploração espacial no futuro. Também contribuiria para a formação da próxima geração de cientistas e engenheiros espaciais europeus, deixando um legado de inovação e liderança na comunidade espacial internacional.

Espera-se que as contribuições europeias se estendam além da investigação científica e do apoio técnico. Através da contribuição na missão, cientistas poderão adquirir experiências e dados inestimáveis que impulsionariam outras missões europeias.

Na revista Science, o artigo de comentário “Por que a Agência Espacial Europeia deve participar da missão dos EUA a Urano” (Why the European Space Agency should join the US mission to Uranus) pede que a ESA e NASA assinem a parceria e comecem a trabalhar na missão o quanto antes. Segundo o texto, isso atrairia o interesse de outras agências espaciais, tornando a missão menos custosa e trabalhosa a cada uma das organizações participantes.

“Considerando os longos cronogramas envolvidos na construção da missão e seu longo tempo de viagem, pedimos à NASA que inicie rapidamente o estudo da missão Uranus Orbiter and Probe. Isso geraria entusiasmo para promover a cooperação internacional com a ESA e com as agências espaciais nacionais que têm colaborações bem estabelecidas com a NASA, como a JAXA no Japão e a Agência Espacial dos Emirados Árabes Unidos.

Também pedimos que a ESA priorize o financiamento para apoiar essa colaboração estratégica, com base nos sucessos do passado por meio da Cassini-Huygens e por uma fração do custo de uma missão emblemática de um gigante de gelo liderada pela Europa. […] Todos nós obteríamos esses resultados cruciais mais cedo ou mais tarde e poderíamos visitar o sistema quando ele estivesse totalmente iluminado, e não na escuridão parcial.”

O artigo também oferece uma alternativa caso a ESA não tope a parceria, embora o poder científico da missão seja menor. A sugestão “seria estabelecer um consórcio de países europeus individuais para ser responsável pela construção da sonda. As restrições de recursos financeiros provavelmente limitariam a instrumentação e, talvez, a profundidade em que essa sonda poderia penetrar, mas, com um projeto cuidadoso, a sonda ainda poderia retornar dados cruciais”.

Infográfico mostrando alinhamento planetário na década de 2030 que permitiria que uma sonda lançada em 2031 alcançasse Urano em cerca de 12 anos (Nature)

Planejamento Até o lançamento da sonda, serão conduzidas uma série de atividades complexas, como o projeto meticuloso e a construção da espaçonave, que deverá ser capaz de suportar os rigores do espaço profundo e o ambiente hostil do sistema uraniano. A complexidade de projetar e projetar uma nave que opere nesse ambiente inóspito exige um nível de sofisticação tecnológica e confiabilidade que leva as capacidades atuais ao limite. Engenheiros e cientistas de ambas as agências estão debatendo a respeito para tentar definir as especificações de projeto, pelo menos a nível inicial.

Em paralelo, os planejadores da missão estão trabalhando na trajetória que levará a espaçonave a Urano, otimizando eficiência de combustível e potenciais oportunidades científicas, como passagens por outros planetas ou asteroides. Esse processo é extremamente complexo, envolvendo cálculos e simulações detalhados e avançados para traçar um curso que aproveita as assistências gravitacionais e minimiza o tempo de viagem.

Outro ponto importante é o desenvolvimento dos instrumentos científicos que estarão a bordo da sonda. Além de projeto e construção meticulosos, cada um deve passar por testes rigorosos para garantir seu desempenho nas condições extremas que enfrentará.

Quanto ao lançamento em si, NASA e ESA acordariam a escolha de um veículo lançador. Essa decisão é fundamental para o cronograma e o orçamento da missão, com aspectos como custo, confiabilidade e capacidade sendo considerados entre os principais.

Há também questões ligadas ao planejamento de operações de missão e estruturas de análise de dados: firmado o acordo, as agências deverão estabelecer a infraestrutura para comunicação com a sonda, armazenamento de dados e recursos de processamento. Isso garantirá que a comunidade científica poderá acessar e utilizar os dados da missão da forma mais adequada.

A natureza ambiciosa da missão requer um financiamento substancial e restrições financeiras representam outro desafio significativo. Para solucionar isso, as agências debatem estratégias de compartilhamento de custos e explorando fontes de financiamento alternativas, incluindo parcerias internacionais e contribuições do setor privado. Essa abordagem não apenas alivia as pressões financeiras, mas também promove um senso mais amplo de investimento e propriedade no sucesso da missão.

Adaptação Os dados disponíveis sobre Urano e suas luas coletados são um tanto limitados. Portanto, o design da missão deve ser flexível, capaz de se adaptar a novas descobertas e necessidades científicas à medida que surgirem. Essa adaptabilidade está embutida no planejamento da missão, com contingências para períodos de observação prolongados e o potencial redirecionamento de recursos para áreas de interesse particular ou descobertas inesperadas.

O risco de falha da missão, por problemas técnicos, erros de trajetória ou cortes de comunicação, é mitigado por simulações rigorosas, redundâncias em sistemas críticos e planos de contingência abrangentes. Ao se preparar para uma ampla gama de potenciais problemas, NASA e ESA querem garantir que a missão possa resistir ao imprevisto, preservando seus objetivos científicos.