No ano que acabou, uma nova sonda passou a orbitar Marte e duas máquinas completaram 3 anos de exploração na superfície do planeta. Vênus, um asteróide e um cometa também foram visitados. Novas descobertas sobre o crescimento da galáxia foram feitas. O Blog do Astrônomo apresenta os 10 principais fatos astronômicos de 2006.
10º lugar O Discovery volta a voar
A quase impecável missão STS-121 de julho completou o retorno da Nasa aos vôos com ônibus espaciais depois da tragédia da Columbia em fevereiro de 2003. Esse vôo abre caminho para novas construções na Estação Espacial Internacional (ISS) e oferece a possibilidade de astronautas realizarem os reparos de que o Telescópio Hubble necessita.
Os engenheiros da Nasa retiraram do tanque externo da STS-121 uma estrutura de espuma de 15 kg, de duas partes, chamada rampa PAL. O gerente do programa do ônibus, Wayne Hale, denominou essa operação na maior alteração aerodinâmica no veiculo desde que o ônibus começou a voar. Durante a missão STS-114, em julho de 2005, um pedaço de espuma com pouco menos de 1 metro de comprimento soltou da rampa PAL, mas não atingiu a Discovery.
A Discovery foi lançada em 4 de julho de 2006 com Steve Lindsey no comando de uma tripulação de seis pessoas: o piloto Mark KelIy, os especialistas de missão Michael Fossum, Lisa Nowak, Stephanie Wilson e Piers SelIers e o alemão Thomas Reiter, da Agência Espacial Européia (ESA), que permaneceu a bordo da ISS. A chegada de Reiter marcou a primeira vez, em três anos, que uma equipe completa de três pessoas ocupou a Estação Espacial.
A Discovery atracou na ISS em 6 de julho. Sellers e Fossum realizaram três caminhadas espaciais, duas delas para consertos críticos no transportador móvel da ISS, que movimenta seu braço robótico. Sem ele a construção da ISS não poderia ser retomada em vôos posteriores. Em 12 de julho Sellers e Fossum fizeram a terceira caminhada para testar como uma substância negra parecida com manteiga de amendoim chamada NOAX (non-oxide adhesive experimental), teria reparado amostras pré-danificadas de painéis reforçados de carbono-carbono do ônibus. Testes dos painéis em solo permitirão avaliar como este material funciona em reparos no espaço.
O ônibus aterrissou no Centro Espacial Kennedy em 17 de julho. Depois de inspecioná-lo, Lindsey, um veterano de quatro vôos com o ônibus, estava impressionado com a ausência de sinais de danos. "Nunca vi um veículo que estivesse tão limpo", avaliou.
"Retomamos o bom caminho", segundo o dirigente da Nasa Michael Griffin. Sobre a chance de a Discovery reparar o Telescópio Espacial Hubble, Griffin disse que os gerentes deveriam completar uma detalhada análise pós-vôo e concluir com sucesso a próxima missão (STS-115, com o ônibus Atlantis).
A Nasa considera as missões Hubble mais arriscadas porque um ônibus na órbita do telescópio não pode alcançar o porto seguro da ISS se problemas surgirem.
STS-121: http://www.nasa.gov/mission_pages/shuttle/shuttlemissions/sts121/main/index.html
9º lugar Salto quântico na Exploração de Marte
A última sonda da Nasa a explorar o Planeta Vermelho inicia seu trabalho. O Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) entrou em órbita ao redor do Planeta Vermelho em 10 de março. Em novembro, após meses de ajustes orbitais, o MRO começou a trabalhar duro.
"Esta missão ampliará significativamente nosso entendimento científico sobre Marte, pavimentará o caminho para nossas próximas missões robóticas no final desta década e nos ajudará a preparar o envio de seres humanos a Marte", prevê Doug McCuistion, diretor do programa Mars Exploration, da Nasa. Mais ou menos em dezembro de 2008, quando a missão primária do MRO terminar, os cientistas esperam que a sonda tenha enviado 3.300 gigabytes de dados para a Terra – o suficiente para encher mais de 700 DVDs.
Os instrumentos do MRO estudarão Marte, da atmosfera à superfície do planeta. Uma câmara meteorológica imageadora acompanhará todo o planeta diariamente, enquanto um sensor de radiação infravermelha registrará temperaturas atmosféricas e presença de vapor d’água. O mapeador de minerais da sonda poderá identificar depósitos relacionados com a água, como de carbonatos e sulfatos, em áreas tão pequenas como um quadrado de 30 metros x 30 metros. A câmara de alta resolução do MRO, a mais poderosa jamais enviada a outro planeta, é capaz de enxergar rochas do tamanho de uma mesa, e um radar fará sondagens de gelo e água no subsolo.
Entre abril e setembro a missão de US$ 720 milhões roçou a atmosfera de Marte 426 vezes. A manobra, denominada aerofrenagem aproximou o ponto mais distante da órbita da sonda de 43 mil km para 1.100 km, e reduziu seu período orbital de 35 h para 127 min. O empuxo de um jato colocou o MRO, em 11 de setembro, em sua órbita de trabalho, entre 316 e 250 km.
O MRO se junta a uma frota de sondas orbitais que já estudam o planeta: Mars Global Surveyor e Mars Odyssey, da Nasa, e Mars Express, da Agência Espacial Européia. E, contra todas as expectativas, ambos os perambuladores MERs continuam vivos e fortes – apenas desgastados pelo uso – quase três anos depois que pousaram em Marte.
MRO: http://www.nasa.gov/mission_pages/MRO/main/index.html
8º lugar Retorno a Vênus
Um hiato de 12 anos na exploração de Vênus terminou quando a sonda Venus Express, da Agência Espacial Européia (ESA), entrou em órbita ao redor desse planeta em 11 de abril. Venus Express é a primeira sonda dedicada a estudar nosso mundo vizinho desde que a missão Magalhães de mapeamento’ por radar da Nasa terminou, em 1994, com um mergulho deliberado na atmosfera de Vênus.
Venus Express segue a bem-sucedida missão Mars Express da ESA, que alcançou o Planeta Vermelho em 2003. Na verdade, a maioria dos instrumentos da sonda foi construída com peças sobressalentes já certificadas para vôo de duas sondas anteriormente lançadas – Mars Express e Rosetta. Essa segunda nave interceptará o Cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko em 2014.
Com base em suas similaridades gerais, Vênus já foi considerado planeta gêmeo da Terra. Mas agora sabemos que suas nuvens perpétuas são formadas de ácido sulfúrico, não de água. O dióxido de carbono compõe a maior parte da densa atmosfera do planeta que, na superfície, registra pressão 90 vezes maior que a pressão atmosférica da Terra ao nível do mar. O calor não pode escapar facilmente pela espessa atmosfera de CO2 e assim a temperatura na superfície sobe a um valor constante de 465°C. Isso torna impossível a água líquida em qualquer ponto da superfície de Vênus. Mas os cientistas pensam que Vênus, como a Terra, pode já ter abrigado oceanos.
O objetivo primário da missão Venus Express é o estudo da atmosfera venusiana. Nuvens que se mostram melhor no ultravioleta ocorrem em altitudes de 50 km e viajam ao redor do equador em quatro dias – ultrapassando 50 vezes a rotação da superfície do planeta. O que fornece energia para essa "super-rotação" ainda é um mistério.
Venus Express já forneceu uma primeira visão detalhada do turbilhão sobre o pólo sul do planeta, um furacão atmosférico com dois olhos. O Espectrômetro Imageador Visível e Infravermelho Térmico (VIRTIS) da sonda pode operar em muitos comprimentos de onda do infravermelho. Como cada comprimento de onda vê a emissão de uma altitude diferente, VIRTIS pode fatiar a atmosfera de Vênus e ajudar a modelar sua estrutura.
A missão primária de mapeamento da sonda demorará cerca de 500 dias terrestres, mas a Venus Express leva combustível suficiente para manter sua órbita polar pelo dobro desse tempo.
Venus Express: http://www.esa.int/SPECIALS/Venus_Express/index.html
7º lugar Duas centenas de exoplanetas
Em julho passado astrônomos anunciaram um conjunto de descobertas que empurrou o número de planetas conhecidos orbitando estrelas que não o Sol para além de 200. A estrela austral μ (mi) do Altar juntou-se à 55 do Caranguejo num clube exclusivo: são as únicas estrelas conhecidas, fora o Sol, que abrigam pelo menos quatro planetas. O ano também trouxe a confirmação de um planeta com 2,9 vezes a massa de Júpiter ao redor da estrela Pollux de Gêmeos.
Em maio, astrônomos suíços anunciaram que três planetas com massa de Netuno orbitam a estrela HD 69830, semelhante ao Sol, localizada a 42 anos-luz, na constelação da Popa. Os três planetas com massa praticamente igual provocam na estrela central uma leve oscilação que as sensíveis medidas espectrais revelaram. Cada planeta tem massa mínima entre 10 e 18 vezes a da Terra – próxima à de Urano e à de Netuno (14,5 e 17,1 vezes a massa da Terra, respectivamente). Esses novos mundos orbitam ao redor de sua estrela em 8,67, 31,6 e 197 dias.
Os astrônomos acreditam que o planeta mais interno seja provavelmente rochoso, enquanto o mais externo é o de menor massa a ocupar a zona habitável de uma estrela. Em 2005 o Telescópio Espacial Spitzer, da Nasa, detectou grandes quantidades de poeira aquecida em torno da estrela – indicando possivelmente a presença de um massivo cinturão de asteróides.
"Isto é sensacional", disse Alan Boss, teórico da Carnegie Institution, de Washington. Encontrar um sistema com três "super-Terras [ao redor de uma estrela pouco menos massiva que o Sol] dá boas razões para aceitarmos a idéia da existência de muitos planetas como a Terra".
Mas em janeiro passado astrônomos que usam uma técnica observacional chamada microlente gravitacional anunciaram o menor e mais distante (de sua estrela central) planeta até então encontrado ao redor de uma estrela normal. A técnica da microlente detecta planetas através do seu efeito gravitacional na luz de estrelas de fundo. O novo mundo, denominado OGLE-2005-BLG390Lb tem 5,5 vezes a massa da Terra e orbita uma fria estrela anã M a 21 mil anos-luz em Sagitário. Os cientistas dizem que um planeta gigante gasoso tão pequeno não se manteria em equilíbrio, por isso pensam que esse novo mundo seja uma mistura de gelo e rocha.
"Esta descoberta indica que planetas com a massa da Terra não devem ser incomuns", explica Kailash Sahu, do Space Telescope Science Institute, de Baltimore, membro da equipe de descobridores. "Se encontramos um, deve haver outros."
Em outubro uma equipe chefiada por Sahu anunciou um grupo de candidatos a planetas encontrados na Janela de Baade, denso campo estelar em Sagitário. Usando o Telescópio Espacial Hubble, a equipe identificou 16 estrelas cujo brilho diminui segundo um padrão que sugere que planetas estão passando na frente delas.
6º lugar Multiplicação dos satélites da Via Láctea
Sete novas galáxias-satélites que orbitam a Via Láctea foram descobertas por astrônomos da Cambridge University, na Inglaterra. Vasily Belokurov, Daniel Zucker e seus colegas usaram dados do Sloan Digital Sky Survey (SDSS) combinando quase um quarto do céu para criar a mais clara visão de estrelas fluindo em correntes perto do pólo norte da Via Láctea. A equipe nomeou a área de Campo de Correntes.
Correntes de estrelas se formam quando marés da Via Láctea lentamente esgarçam galáxias satélites e aglomerados globulares de estrelas. Os escombros se movem ao longo da órbita do sistema desintegrado. Em maio os astrônomos anunciaram a descoberta de duas novas galáxias anãs: Boötes (Boieiro) e Canes Venatici (Cães de Caça) que se encontram a 196 mil e 720 mil anos-luz, respectivamente.
“Boötes, de tamanho menor, é dez vezes maior que um grande aglomerado globular e Canes Venatici é mais que o dobro de Boötes” explica Zucker. Ambos os sistemas parecem residir dentro de seus próprios halos massivos de matéria escura.
AS primeiras galáxias satélites da Via Láctea conhecidas foram a Grande e a Pequena Nuvem de Magalhães. Entre 1937 e 1994 foram encontradas mais nove. O estudo feito pela equipe da Cambridge quase dobrou esse número.
A estrutura mais proeminente do Campo é uma gigantesca trilha curva criada pela galáxia anã Sagittarius, descoberta em 1994. Conforme orbita ao redor da Via Láctea. Pesquisadores mapearam a esteira estrelada no céu e os dados do SDSS revelaram que a corrente parece ser bifurcada.
Também foi encontrada uma nova corrente que ocupa mais de 70° do céu. Os pesquisadores a chamaram inicialmente de Corrente Órfã, pois não conseguiram identificar sua fonte. Belokurov acredita que ela é formada pela recém-descoberta galáxia anã Ursa Major II, que se encontra dentro da trilha.
SDSS: http://www.sdss.org/
5º lugar Hayabusa explora asteróide
A missão japonesa Hayabusa para o asteróide 25143 Itokawa pegou de surpresa muitos membros da comunidade da ciência planetária. Lançada em 9 de maio de 2003, a Hayabusa, que significa falcão, em 12 de setembro de 2005 posicionou-se junto ao asteróide e passou a voar em formação com ele. A ambiciosa missão seria a primeira a pousar num asteróide, coletar amostras e trazê-las para a Terra.
Antes que as câmaras da Hayabusa enviassem suas primeiras imagens em c1ose-up, os cientistas presumiam que os pequenos asteróides vizinhos da Terra teriam superfície com pouca variedade geológica. Close-ups de outros objetos vizinhos da Terra mostravam superfícies com crateras, recobertas com um espesso manto de poeira de rochas pulverizadas por milênios de impactos.
Itokawa, no entanto, não mostrou sinais óbvios de crateras de impacto. E as imagens de rochas do tamanho de casas, de lascas salientes de rochas e de regiões lisas, aparentemente poeirentas, logo descartaram a idéia de que esses pequenos corpos devem ser geologicamente simplórios.
Os cientistas pensam que Itokawa é um asteróide de "cascalho empilhado" – um ajuntamento solto de rochas fragmentadas. Especulam que a textura peculiar de”’lontra marinha" do Itokawa pode ter sido formada quando duas rochas menores colidiram e se fundiram num asteróide de 535 metros. Uma área lisa que os cientistas da missão apelidaram Mar das Musas, numa alusão à designação MUSES-C que foi dada à Hayabusa na fase de pré-lançamento, e também às musas da mitologia grega, pode marcar a área de contato com a sonda espacial. Embora o Mar das Musas e outras áreas planas pareçam poeirentas, na verdade estão cobertas de cascalho.
Apesar de a Hayabusa ter tocado o asteróide duas vezes, com a intenção de coletar amostras, os controladores da Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (Jaxa) não puderam confirmar se a operação teve êxito. Uma seqüência de infortúnios veio depois da última tentativa de coletar amostras, em 25 de novembro de 2005. Mas, no fim de maio, os engenheiros estavam se comunicando regularmente com a sonda. Eles tentarão trazer a Hayabusa de volta para a Terra em junho de 2010.
Sete artigos publicados na edição de 2 de junho da revista Science resumem os resultados da missão. "Hayabusa foi um formidável sucesso tanto para o estudo dos asteróides quanto para testar o conceito de espaço cósmico", escreveu Erik Asphaug, especialista em asteróides da California University em Santa Cruz.
Hayabusa: http://www.isas.jaxa.jp/e/enterp/missions/hayabusa/index.shtml
4º lugar Estrelas de nêutrons colidem e emitem raios gama
Detectadas pela primeira vez por satélite em 1967, as breves mas potentes rajadas de radiação de alta energia conhecidas como erupções de raios gama (GRBs: Gamma Ray Bursts) ofereceram aos astrônomos muitas promessas como também muitos enigmas. Em 2003 os cientistas consolidaram uma relação entre erupções que duravam mais que 2 segundos com estrelas massivas explodindo como supernovas.
Erupções mais curtas, no entanto, continuavam um mistério. Mas em meados de 2005 os satélites Swift e HETE-2 (High Energy Transient Explorer-2) da Nasa flagraram três erupções de curta duração que revelaram segredos.
Uma típica GRB curta dura 0,3 segundos e irradia 1% ou menos da energia de uma GRB de longa duração. Os telescópios de raios gama não podiam fornecer posições precisas antes que o clarão da erupção apagasse. Mas em 9 de maio, 9 de julho e 24 de julho, Swift e HETE-2 deram aos astrônomos o que estavam procurando. A rajada de 9 de maio, que durou apenas 50 ms, marcou pela primeira vez a detecção da emissão de raios X de uma GRB curta. A emissão de raios X é posterior ao clarão principal.
HETE-2 detectou a GRB de 9 de julho numa galáxia anã em que ocorria a formação de estrelas, mas os trabalhos de acompanhamento realizados com o Observatório de Raios X Chandra e o Telescópio Espacial Hubble, ambos da Nasa, descartaram a possibilidade de supernova.
Swift detectou a erupção de 24 de julho que, em apenas 0,25 s, liberou quantidade de energia que o Sol despende em 100 milhões de anos. Teóricos sugerem que a fonte seria uma estrela de nêutrons que se desintegrou ao se aproximar de um buraco negro. Observatórios do mundo continuaram monitorando essa fonte em ondas de rádio, ópticas e infravermelhas – uma primeira olhadela geral de uma GRB curta em diferentes regiões do espectro eletromagnético. A rajada tinha vindo de uma galáxia elíptica a 3,5 bilhões de anos-luz.
Manchetes proclamaram “mistério cósmico resolvido" depois de uma entrevista coletiva à imprensa concedida pela Nasa em outubro de 2005. Astrônomos publicaram artigos sobre esses eventos em 2006.
Eles admitem que a questão de as GRBs curtas serem causadas pela fusão de estrelas de nêutrons ainda não está resolvida. O Swift observou dez outras GRBs curtas de origem ambígua, que tanto a fusão quanto o colapso de uma estrela massiva poderiam explicar.
HETE-2: http://space.mit.edu/HETE/
3º lugar Reclassificação do Sistema Solar
O mês de agosto começou com um Sistema Solar de nove planetas. Astrônomos se reuniram em Praga (capital da República Tcheca) e no fim daquele mês o ele tinha oito.
Plutão foi finalmente excluído quando 424 astrônomos votaram, em 24 de agosto, para determinar a definição científica de planeta. Foi a descoberta em janeiro de 2005 do 2003 UB313 – objeto melhor conhecido por seu apelido Xena, inspirado pela TV – que apressou a expulsão do nono planeta. Pois se Xena era 5% maior que Plutão, os dois deveriam ser planetas, ou nenhum deles.
A União Astronômica Internacional (UAI), fonte oficial dos nomes celestes, tinha suspendido a classificação de Xena até que surgisse uma definição científica para planeta. Depois de um acirrado debate os astrônomos decidiram que nem Xena nem Plutão definiriam essa questão.
Eles inventaram uma nova classe (planetas anões) para objetos suficientemente grandes cuja gravidade fosse capaz de Ihes dar a forma esférica, porém suficientemente pequenos para que essa mesma gravidade não conseguisse remover objetos vizinhos em órbitas similares. Essa classe inclui Plutão, Xena e Ceres (o maior asteróide já descoberto).
Os astrônomos também concordaram que Plutão fosse o protótipo de uma nova classe de objetos trans-netunianos ainda sem nome, à qual Xena também pertence.
As reações a essa decisão variaram desde suspiros de alívio até a frase de pára-choque ("Buzine se Plutão ainda é um planeta”). Alan Stern, que lidera a missão New Horizons, da Nasa, para Plutão, rejeita a solução da UAI por considerá-la inviável, não didática, cientificamente falha e embaraçosa.
Deixando de lado os detalhes menos importantes, a decisão da UAI torna necessariamente a supremacia gravitacional Um aspecto importante para que um planeta seja planeta, segundo Michael Brown, da Caltech, um dos descobridores de Xena. Desta maneira coloca Plutão na série B.
Plutão e Xena logo receberam números oficiais no catálogo de planetóides da UAI – 134340 e 136199, respectivamente. E no dia 13 de setembro a UAI deu a Xena o nome oficial Éris, deusa grega da discórdia e rivalidade. Brown disse que o nome da mitológica deusa arruaceira foi “perfeito demais para ser rejeitado”. A lua de Éris é Dysnomia, filha de Éris e essência da ilegalidade (lawlesslless, em inglês) – uma referência que ainda preserva a ligação com “Xena, a Princesa Guerreira” estrelada por Lucy Lawless.
UAI: http://www.iau.org/
2º lugar WMAP estuda a inflação cósmica
O modelo inflacionário do Big Bang passou por um teste crucial em março. Isso ocorreu quando os cientistas que trabalham com a sonda Wilkinson Microwave
Anisotropy Probe (WMAP) liberaram dados há muito esperados e que envolviam urna visão da polarização da Radiação Cósmica de Fundo (RCF) em microondas. “Este é o começo de urna nova maneira de fazer cosmologia” disse Lyman Page, da Princeton University em Nova Jersey, um dos membros da equipe.
A WMAP foi lançada em 2001 para estudar a RCF com detalhamento sem precedentes. Em 2003 a equipe da WMAP lançou mapas da RCF que finalmente estipularam a época em que os átomos se formaram pela primeira vez (380 mil anos após o Big Bang), a idade (13,7 bilhões de anos) e a composição do Universo (a misteriosa energia escura dá conta de 74%; a matéria escura, de 22%, e toda a matéria ordinária, de 4%). Além disso, a equipe estima agora que as primeiras estrelas começaram a brilhar 400 milhões de anos após o Big Bang.
Desde 2003 dados adicionais têm possibilitado que os pesquisadores da equipe refinassem seus mapas térmicos da RCF e diligentemente extraíssem os valores de polarização ao nível de 200 bilionésirnos de 1°C. "Na maioria das vezes, cada técnica que trazíamos para experimentar era nova no campo da análise da polarizacão” explica Page.
A RCF torna-se polarizada, ou orientada, de três maneiras. Uma envolve a passagem de ondas gravitacionais através do plasma quente do Universo primordial. Ela é bem definida, porém está fora do alcance da WMAP. A outra ocorreu duas vezes – uma quando as microondas da RCF foram espalhadas pelo plasma do Universo primordial, e outra, mais tarde, ao serem ricocheteadas pelos elétrons que se tornaram livres quando as primeiras estrelas reionizaram o gás de hidrogênio neutro.
Os novos dados de polarização permitiram que os cosmólogos desemaranhassem dois efeitos similares de temperatura, um da inflação e outro das primeiras estrelas. "Podemos separar as coisas e dizer que isso veio das primeiras estrelas e aquilo, da inflação", diz Charles Bennett, da Johns Hopkins University, e principal investigador da missão. "Na verdade não medimos a polarização da inflação", explica ele. “Isso é algo que ainda gostaríamos de fazer.”
Subtraindo os efeitos das primeiras estrelas os cosmólogos obtiveram os meios para determinar o tamanho das flutuações da RCF em diferentes escalas angulares. ”A polarização nos ajuda a reduzir a gama de coisas que podem ter acontecido no Universo", explica Bennett. Imagine a RCF como a superfície de um lago perturbada por ondas de muitos comprimentos diferentes. De acordo com o modelo mais simples do Big Bang, tanto as ondas mais longas como as mais curtas têm a mesma altura.
Mas a inflação, segundo a qual o Universo passou por uma expansão hiperveloz uma fração de segundo após o Big Bang, prediz algo levemente diferente.
WMAP: http://map.gsfc.nasa.gov/
1º lugar Stardust trás cometa para casa
Em 15 de janeiro a missão Stardust da Nasa cumpriu seu objetivo. Quando a espaçonave passou pela Terra, soltou uma cápsula de 46 kg contendo amostras de poeira cometária capturadas dois anos antes ao cruzar com o cometa 81P/Wild 2.
Por volta das 02h00 (horário do Pacífico) a cápsula colidiu com o topo da atmosfera da Terra movendo-se a 46.440 km/h – a mais veloz reentrada de qualquer artefato espacial e acendeu um rastro meteórico pelos céus do oeste americano. Sua viagem terminou com uma descida segura com pára-quedas no Air Force Test and Training Range, a sudoeste de Salt Lake City.
O gerente do Programa Stardust, Thomas Duxbury, tinha apenas acabado de falar com a imprensa em Utah quando as primeiras imagens feitas pela equipe de resgate da cápsula enegrecida em repouso no chão do deserto apareceram nos monitores. Ele tinha visto a cápsula pela última vez havia sete anos, antes que ela tivesse voado 4,6 bilhões de km. Agora ela pousara ilesa, trazendo pela primeira vez amostras diretas de um cometa. "Eu estava com lágrimas nos olhos” confessou.
Lançada em 1999, a sonda Stardust, de US$ 200 milhões, cruzou com o cometa Wild 2 em 2 de janeiro de 2004. Ela passou a 240 km do núcleo congelado, aprisionando partículas de poeira ejetadas pelo cometa numa placa superleve e super-resistente de aerogel, material composto de vidro ordinário e quase 100% de ar. Quando seis equipes de pesquisadores totalizando mais de 200 cientistas de todo o mundo começaram a analisar as amostras, algo extraordinário chamou a atenção.
Os astrônomos vinham descrevendo os cometas como corpos formados além da órbita de Netuno, com grãos submicrométricos de poeira interestelar que já existiam antes de o Sol se formar. "Contrariando isso, estamos encontrando rochas de até 10 μm sendo que, pelo menos algumas delas, foram formadas com certeza na região interna do Sistema Solar” disse Don Brownlee, da Washington University, pesquisador chefe da Stardust.
Elas têm relação com as intrusões de cálcio-alumínio encontradas em meteoritos. Essas intrusões são das coisas mais antigas do Sistema Solar – precedem outros componentes de meteoritos por alguns milhões de anos – e se formaram nas regiões mais quentes da nebulosa solar primitiva. "Basicamente encontramos, nos locais mais frios possíveis, sólidos que se formaram nas regiões mais quentes possíveis da nebulosa solar.” Esta única observação implica que houve um processo de mistura de grande escala, desde as partes internas do Sistema Solar até as mais externas, por todo o caminho.
"Isso tirou o tapete sob todas as noções preconcebidas que tínhamos” disse Donald Yeomans, especialista em cometas do Jet Propulsion Laboratory, em Pasadena, Califórnia."O que está acontecendo? De onde vieram essas particulas?"
Alguns acham que jatos lançados pelo jovem Sol poderiam ter levado materiais da parte interna do Sistema Solar para locais onde os cometas se formaram. A mistura poderia ter ocorrido também através de outros processos. Segundo Yeomans, as partículas misteriosas talvez tenham vindo até mesmo de outros sistemas. Essa é uma possibilidade que os pesquisadores da Stardust levarão em consideração quando examinarem a poeira interestelar coletada pela sonda.