Sonda pode ter pousado “um pouco de lado”. Missão anterior de empresa fez pouso duro.

A segunda missão de pouso lunar da Intuitive Machines, IM-2, chegou à superfície da Lua ontem, mas a sonda espacial Athena parece estar deitada de lado, dificultando sua missão planejada de demonstração científica e tecnológica.

A IM-2 foi lançada em 26 de fevereiro em um Falcon 9, que colocou a Athena em uma trajetória translunar. A espaçonave, que tem 4 metros de altura, realizou uma queima de 492 segundos de seu motor principal no início de 3 de março, entrando em órbita ao redor da lua. Ontem, uma manobra às 7h33 de Brasília colocou a nave em sua rota descendente, com o pouso programado para 14h32 na região polar sul da Lua.

Cerca de três horas e meia após a Athena tocar o solo lunar, a empresa informou em um briefing que o módulo de pouso estava “um pouco de lado”, embora sua orientação exata fosse incerta.

“Tivemos muito sucesso até agora, no entanto, tenho que dizer que não acreditamos que estejamos na atitude correta na superfície da Lua”, disse Steve Altemus, presidente-executivo da Intuitive Machines, empresa com sede em Houston, Texas, no briefing.

Mais tarde, ele disse que os engenheiros estavam obtendo dados conflitantes após o pouso. Os dados do motor revelaram haver gás em sua câmara de combustão, sugerindo que o motor estava disparando em modo ocioso, o que exigiria que a nave estivesse na vertical. Os dados de uma unidade de medição inercial (IMU) indicavam que o módulo estava de lado.

Não ficou claro o que fez a nave espacial pousar “de lado”, mas Altemus e Tim Crain, vice-presidente sênior da Intuitive Machines, disseram que os altímetros a laser estavam fornecendo dados “com ruído” durante os testes na órbita lunar. “Ele simplesmente permaneceu com ruido até o pouso”, disse Crain. “É para lá que vamos olhar enquanto investigamos qual impacto isso pode ter tido no sistema.”

Imagem capturada pela Athena durante sua alunissagem (Reprodução NASATV)

Apesar de estar de lado, o módulo está gerando alguma energia e transmitindo telemetria de volta para a Terra. Crain disse que os engenheiros estão tentando juntar as peças da atitude e orientação exatas, o que os ajudará a determinar quanta energia eles podem gerar e as condições térmicas da espaçonave. Isso ajudará a dizer quais cargas úteis podem operar e em que grau.

“Sabemos que podemos nos comunicar com as cargas úteis. Podemos falar com elas e comandá-las para ligar e desligar”, disse Altemus. Assim que entenderem melhor o estado da Athena, trabalharão com as cargas úteis para priorizar as atividades “que nos permitiriam capturar alguns objetivos da missão”. O perfil da missão “estará fora do normal, porque não estamos obtendo tudo o que pedimos em termos de geração de energia, comunicações, etc.”, disse ele.

Eles acrescentaram que não estava claro como isso afetaria a implantação de uma broca da NASA, bem como um veículo “saltador” da Intuitive Machines e dois pequenos rovers.

Incerteza Na manobra de pouso, a Athena deveria realizar uma longa queima de frenagem mudar sua orientação para pousar verticalmente. A telemetria exibida pela empresa em sua transmissão na internet pareceu mostrar a nave conduzindo essa queima de frenagem conforme o esperado, mas mais perto do horário de pouso, a telemetria pareceu congelada ou distorcida. Em um momento, indicou que o módulo estava vários quilômetros abaixo da superfície.

Por cerca de 20 minutos após o horário planejado para o pouso, os controladores da missão relataram ter obtido telemetria indicando que a sonda estava na superfície e gerando energia. No entanto, sua orientação era incerta.

“Tudo bem, equipe, continuem trabalhando no problema”, disse Crain, diretor de voo para o pouso, no controle da missão cerca de 15 minutos após o horário programado para o pouso. Ele disse que os controladores estavam desligando sistemas desnecessários agora que o módulo de pouso parecia estar na superfície.

“Estamos gerando energia. Estamos nos comunicando por meio de nosso rádio de telemetria e estamos trabalhando para avaliar exatamente qual é nossa orientação na superfície”, disse ele. Isso incluiu analisar imagens tiradas pelo módulo de pouso após o pouso, embora elas não tenham sido divulgadas imediatamente.

Imagem capturada pela Athena durante sua alunissagem (Reprodução NASATV)

Cargas O local de pouso pretendido era Mons Mouton, um planalto a 160 km do polo sul – mais próximo do polo do que qualquer espaçonave já esteve. Essa região é de interesse estratégico para a NASA, dado o potencial para depósitos de gelo de água em crateras permanentemente sombreadas. Além de uma prioridade científica, a água é um ponto importante no suporte a futuras expedições tripuladas: além de poder ser consumida por astronautas, ela pode ser usada para a fabricação de propelente. No cronograma oficial do programa Artemis, uma missão tripulada à região deve acontecer em 2027.

A principal carga útil da NASA a bordo é o Polar Resources Ice Mining Experiment 1 (PRIME-1): uma broca projetada para penetrar até um metro na superfície e um espectrômetro para medir quaisquer voláteis, como gelo de água, pelos quais a broca passar abaixo da superfície.

“Este experimento representa um marco significativo, pois será a primeira atividade de perfuração robótica conduzida na região do Polo Sul da Lua”, disse Jackie Quinn, gerente de projeto do PRIME-1 no Centro Espacial Kennedy, da NASA, na Flórida, em uma coletiva de imprensa em 25 de fevereiro. “É um passo crucial para entender e aproveitar os recursos lunares para dar suporte à exploração futura.”

O PRIME-1 está voando como parte do programa Commercial Lunar Payload Services (CLPS) da NASA sob uma ordem de tarefa atualmente avaliada em US$ 62,5 milhões. Esse contrato também inclui um retrorrefletor a laser, uma pequena carga passiva que a NASA inclui em muitos módulos lunares.

Também estão a bordo várias cargas comerciais, incluindo o Micro Nova Hopper, um veículo de 35 kg da Intuitive Machines projetado para saltar pela superfície lunar usando seu próprio sistema de propulsão. Batizado como Grace em homenagem à matemática e cientista da computação Grace Hopper, ele carrega um sistema de câmera e instrumentos da Agência Aeroespacial Alemã (DLR) e da empresa húngara Puli Space. A Intuitive Machines planeja realizar pelo menos cinco saltos do Grace durante a missão, incluindo em uma cratera sombreada perto do local de pouso.

“A ideia é que, se você tem uma cratera muito profunda e quer descer até ela, por que não fazer isso com algo como um drone?”, disse Martin em uma entrevista coletiva em 7 de fevereiro.

Também está abordo o rover Mobile Autonomous Prospecting Platform (MAPP), da empresa Lunar Outpost, do Colorado. Ele é equipado com câmeras ópticas e térmicas de alta resolução. E está carregando outro robô, o AstroAnt – um pequeno protótipo desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts que permanecerá no topo do MAPP graças às suas quatro rodas magnéticas.

Rover lunar MAPP, da Lunar Outpost, a bordo da ave Athena na missão IM-2 (Lunar Outpost)

Outra carga útil comercial é um sistema de comunicações Lunar Surface Communication System, da Nokia, que testará a capacidade de usar redes 4G/LTE na Lua. Ele tentará comunicações com o Grace e com o MAPP. Tanto a carga útil da Nokia quanto a Grace são apoiadas por prêmios do programa de desenvolvimento de tecnologia espacial Tipping Point, da NASA.

A Athena também carrega um data center da Lonestar Data Holdings para demonstração tecnológica, um rover demonstrador tecnológico de 498 g da empresa japonesa Dymon chamado Yaoki e tecnologias de proteção térmica da Columbia Sportwear.

Naves privadas A IM-1, a primeira missão lunar da Intuitive Machines alunissou em fevereiro de 2024, mas a nave Odysseus atingiu a superfície mais rápido do que o esperado, quebrando uma perna do trem de pouso e tombando. A empresa ainda conseguiu operar o módulo por cerca de uma semana, coletando alguns dados de suas cargas úteis.

Segundo a empresa, o pouso duro aconteceu por conta de um altímetro a laser não pôde operar porque um sistema de segurança não foi removido dele antes do lançamento, como pretendido. Antes do lançamento da IM-2, Trent Martin, vice-presidente sênior de sistemas espaciais da Intuitive Machines, disse que, para a nova missão, a empresa abordou 85 itens que não saíram como o planejado na IM-1.

Ilustração do lander Athena e do rover MAPP na superfície lunar, comunicando-se por um sistema da Nokia (Nokia / Intuitive Machines)

Esta missão é a quarta do programa CLPS. A primeira foi em janeiro de 2024, com o lander Peregrine, da Astrobotic. Ele sofreu um problema com seu sistema de propulsão horas após o lançamento, impedindo a nave de tentar alunissar.

Há poucos dias, a Blue Ghost 1, da Firefly Aerospace, alunissou com sucesso em Mare Crisium. Ela carrega um conjunto de 10 cargas úteis da NASA e operará em Mare Crisium, no quadrante nordeste do lado próximo da Lua, até 16 de março.

Leia mais: “Blue Ghost, da Firefly, pousa na Lua”, 03/03/2025

A Blue Ghost foi lançada em 15 de janeiro com outro módulo lunar privado, o Resilience, construído e operado pela ispace, sediada em Tóquio. O Resilience está seguindo uma trajetória caminho mais longa e deve tentar alunissar em 5 de junho. Ele não faz parte do CLPS, mas coletará terra e rocha lunares para a NASA usando um microrover chamado Tenacious.

“Tenho orgulho de dizer que este é um momento muito movimentado e emocionante na exploração lunar – e, em breve, de Marte -, e estamos prevendo uma cadência ainda mais movimentada por vir”, disse Niki Werkheiser, diretora de maturação tecnológica na Diretoria de Missão de Tecnologia Espacial da NASA, durante o briefing de 25 de fevereiro.

“Ambos têm desafios diferentes”, disse Nicky Fox, administrador associado da NASA para ciência, no briefing após o pouso da IM-2, comparando as missões da Firefly e da Intuitive Machines. “Eu certamente não quero fazer parecer que a Firefly foi um pouso fácil. Pousar na Lua é difícil.”

Apesar dessas declarações, os investidores da Intuitive Machines não pareceram confortáveis. Ontem, as ações da empresa fecharam 20% mais baixas, com a queda ocorrendo após o pouso. Nas negociações após o expediente, as ações caíram ainda mais – mais um terço duas horas após o fechamento dos mercados.