Starship pode prejudicar estudos sobre gelo em regolito. Sondas orbitais e na superfície poderia medir efeitos causados em pouso não tripulado.
Anos atrás, a descoberta de água gela deu início a um movimento de programas lunares que visam estabelecer bases na superfície, como o programa Artemis, da NASA, e a Estação Internacional de Pesquisa Lunar, liderada pela China.
Uma grande quantidade de gelo de água está preservada escondida no fundo de crateras do polo sul lunar, sem receber luz do Sol desde que se acumulou em regiões permanente sombreadas (PSRs), armadilhas frias “onde o Sol não brilha”. Essa água serviria para a produção de água potável, oxigênio e até combustível.
O Projeto de Mapeamento Lyman Alpha (LAMP) da sonda Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), da NASA, em órbita da Lua desde 2009, tem como principal objetivo encontrar gelo de água em crateras polares profundas. E o LAMP estimou entre duas e 60 toneladas de água na superfície no de uma das maiores crateras do polo sul.

Novas pesquisas levantaram algumas preocupações ligadas à atividade humana na região desse gelo, especialmente sobe o uso da nave Starship, da SpaceX – escolhida pela NASA para ser o Sistema de Pouso Tripulado do programa Artemis. Sua pluma de exaustão poderia contaminar o gelo, segundo um artigo recente. Publicado no The Planetary Science Journal, o estudo foi liderado por Bill Farrell, cientista pesquisador sênior do Instituto de Ciências Espaciais, em Columbia, Maryland.
A pluma gerada no pouso da Starship tem potencial, em alguns casos, para entregar mais de 10 toneladas de água às PSRs. “Esta contribuição antropogênica poderia possivelmente sobrepor-se e misturar-se com o regolito gelado que ocorre naturalmente na superfície superior”, afirma o artigo.
“Uma possível consequência é que a origem do regolito gelado superficial intrínseco, ainda indeterminada, possa ser perdida à medida que se mistura com a contribuição antropogênica extrínseca”, escreveu a equipe. “Essa massa antropogênica adicional de água depositada na superfície das PSRs poderia reduzir ou destruir a capacidade de compreender a origem do regolito gelado superficial intrínseco e natural.”
O artigo também analisou atividades humanas anteriores, como os pousos do Módulo Lunar do programa Apollo. Esses pousos forneceram apenas uma quantidade muito pequena, menos de 1%, da água superficial nas PSRs. Essa seria uma fração irrelevante comparada à água superficial intrínseca da PSR.
“No entanto, os pousos da Starship na região polar sul têm o potencial de adicionar uma contribuição substancial de água às PSRs, possivelmente excedendo a massa de gelo superficial existente nas PSRs em apenas quatro pousos”, ressalta o estudo.
Efeitos O trabalho de modelagem exosférica de Parvathy Prem, cientista planetária do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, em Laurel, Maryland, foi usado para descobrir a quantidade de água superficial que libera gases e migra para as regiões polares frias.
“Acontece que cerca de 20% do depósito de água de alta latitude encontra o seu caminho para as crateras permanentemente sombreadas no pólo sul”, disse Farrell ao site Space.com.
“Até o momento, os investigadores simplesmente não sabem a origem deste regolito gelado da superfície superior observado pelo LAMP nas armadilhas frias”, explicou o cientista. Poderia ser um sinal de gelo mais profundo detectado pelos espectrômetros de nêutrons da sonda orbital Lunar Prospector, da NASA, e da LRO.
No entanto, também pode ser proveniente de uma ou mais fontes distintas, acrescentou Farrell, possivelmente de fontes ativas e contínuas, como a migração de água criada pelo vento solar ou o fornecimento de água por micrometeoroides.
“Com um grande módulo de aterrissagem entregando dezenas de toneladas de água para as armadilhas frias, os investigadores podem perder a capacidade de determinar de forma única a origem desse gelo na superfície superior”, comentou Farrell.
Farrell e colegas sugerem que ativos orbitais atuais e futuros sejam usados para inspecionar o efeito dos módulos de aterrissagem polares nas armadilhas frias dentro das PSRs. Os dados poderiam determinar o efeito do pouso de uma Starship, por exemplo, no regolito gelado natural e intrínseco da superfície.
Antes do primeiro pouso tripulado no programa Artemis, programado para a missão Artemis III, a Starship faria um pouso de demonstração não tripulado, Os efeitos desse pouso nas PSRs poderiam ser monitorados por recursos orbitais.
O Rover de Exploração Lunar para Investigação de Voláteis (VIPER), da NASA, que estará pela região, poderia coletar dados sobre a água fornecida pela Starship durante o pouso. A sonda poderia fornecer uma “taxa de captura” da PSR, inédita e medida in loco no local, usando a química liberada pelos motores da Starship no pouso como fonte conhecida, afirma o artigo.


