Após anos de atraso, Ariane 6 estreou lançando cubesats e experimentos embarcados; problema em APU impediu fase final da missão, com liberação de cápsulas experimentais e reentrada de segundo estágio. Competitividade de foguete, custos e design descartável são questionados.
O foguete europeu Ariane 6 foi lançado pela primeira vez ontem, após anos de espera e em meio a uma “crise de lançadores” da Agência Espacial Europeia (ESA). A bordo, estavam cubesats, experimentos acoplados e pequenas cápsulas de reentrada para testes.
O foguete decolou do espaçoporto europeu de Kourou, na Guiana Francesa, às 16h01 de Brasília. O lançamento teve um pequeno atraso devido a um problema no sistema de aquisição de dados.
“Um foguete completamente novo não é lançado com frequência e o sucesso está longe de ser garantido”, disse Josef Aschbacher, diretor geral da ESA em comunicado. “Tenho o privilégio de ter testemunhado este momento histórico em que a nova geração europeia da família Ariane decolou – com sucesso – restabelecendo efetivamente o acesso europeu ao espaço.”
O Ariane 6 é um foguete de dois estágios construído pela francesa ArianeGroup, uma joint venture entre a Airbus e a Safran, e operado por sua subsidiária Arianespace para a ESA. O primeiro estágio do foguete é movido por um motor Vulcain 2.1, uma variante do Vulcain 2, do Ariane 5, e o estágio superior possui um motor Vinci, uma nova tecnologia. Seu design modular pode ser adaptado para missões à órbita baixa da Terra ou ao espaço profundo.
Foi usada a versão A62, com dois propulsores de combustível sólido P120C (usados no primeiro estágio do foguete Vega-C) no primeiro estágio, e 56 m de comprimento. O A62 pode transportar até 11,4 toneladas para a órbita baixa da Terra, enquanto o A64, com quatro propulsores P120C, pode levantar até 21,6 toneladas. Este último valor é comparável à capacidade de carga útil do Ariane 5. Mas o Ariane 6 fará o trabalho por cerca de metade do preço, segundo estimativas.
Voo O voo VA262 iniciou-se sem problemas e os propulsores laterais se separaram pouco depois de dois minutos após o início do vôo, a 62 km de altitude. O motor do primeiro estágio – Vulcain 2.1, movido a hidrogênio e oxigênio líquidos – foi desligado com quase oito minutos de voo. Nesse momento, aconteceu a separação entre os primeiro e segundo estágios.
Com uma hora e cinco minutos de missão, ocorreu a primeira separação de cargas, implantando em órbita os cubesats OOV-Cube, Curium One e Robusta-3A, com o estágio superior em uma órbita circular de 577 km. Os experimentos YPSat e Peregrinus, acoplados ao estágio, também foram iniciados.
Ao todo, nove cubesats foram colocados em órbita com sucesso. Dois compõem o Experimento de Interferometria de Rádio com Cubesats (CURIE), da NASA, que tentará determinar a origem das misteriosas ondas de rádio solares.
“Esta é uma missão muito ambiciosa e emocionante”, disse o investigador principal do CURIE, David Sundkvist, da Universidade da Califórnia em Berkeley, em um comunicado da NASA “Esta é a primeira vez que alguém pilota um rádio interferômetro no espaço de forma controlada e, portanto, é um pioneiro para a radioastronomia em geral.”

Os outros cubesats farão uma variedade de trabalhos, do estudo do clima e do tempo da Terra à medição de raios gama altamente energéticos.
Cinco experimentos permaneceram anexados ao estágio superior, acompanhando-o em sua jornada planejada ao espaço e de volta à atmosfera da Terra. Pelo menos, essa era a viagem planejada. Na manobra de retorno, aconteceram alguns imprevistos.
APU O foguete também deveria liberar duas cápsulas experimentais de reentrada com cerca de duas horas e 40 minutos de voo, após uma manobra que colocaria o estágio em trajetória de reentrada, rumo ao remoto Ponto Nemo, no Oceano Pacífico.
Porém, a transmissão oficial da ESA relatou um problema com a Unidade de Potência Auxiliar (APU), que pressuriza os tanques de combustível do estágio, permindo que o motor Vinci reacenda, e fornece impulso adicoonal.
Assim, o estágio superior não completou a queima planejada e, segundo a Agência, esperava-se que o problema afetasse apenas o final da missão. O estágio, com os experimentos embarcados e as duas cápsulas não liberadas, permaneceu em órbita.
“Em determinado momento, reacendemos a APU. Ela reacendeu e depois parou”, disse o CEO do ArianeGroup, Martin Sion, em uma coletiva de imprensa após o lançamento. “Não sabemos por que parou. Isso é algo que teremos que entender quando tivermos todos os dados.”
A anomalia, que ocorreu durante a fase de “demonstração tecnológica” da missão, não deve ofuscar o sucesso geral do voo, disseram ele e outros membros da equipe da missão durante o briefing.

Novo foguete O voo de ontem foi um momento crucial para a ArianeGroup, principal contratada para o foguete, e a Arianespace, que tem 30 lançamentos encomendados. O voo de ontem abriu caminho para uma série de missões civis, de defesa e segurança e comerciais.
Um dos objetivos do projeto do Ariane 6 é reduzir custos por meio de novas tecnologias, incluindo soldagem por fricção e fabricação aditiva. A ArianeGroup pretende aumentar a produção do Ariane 6 para atingir uma cadência de lançamento de cerca de nove lançamentos por ano.
“O Ariane 6 é essencial e um pré-requisito para a implementação de uma política e estratégia espacial europeia mais ampla”, disse Hermann Ludwig Moeller, diretor do Instituto Europeu de Política Espacial, ao site SpaceNews .
Moeller disse que o “foco na Europa precisa de mudar para além dos lançadores, para a utilização acelerada do espaço, em todos os domínios e para o benefício de toda a economia europeia, para a prosperidade dos seus cidadãos, a competitividade da suas indústrias, bem como para a proteção da paz global e inspiração das gerações futuras.”
“A Europa precisa duplicar o seu investimento no espaço até 2040, caso contrário, corre o risco de se tornar uma potência média, um parceiro júnior, e de ser marginalizada ao lado das potências existentes – os EUA e a China – e das novas potências espaciais emergentes, incluindo a Índia”, afirmou.
Atrasos O Ariane 6 chega como um alívio para uma crise europeia de acesso ao espaço. O lançador descartável foi projetado para suceder o venerável e agora aposentado Ariane 5. No início de 2010, em uma atualização do Ariane 5, começaram os trabalhos no Ariane 6. O desenvolvimento em si começou no final de 2014 e seu primeiro voo estava inicialmente marcado para 2020.
Anos de atraso por questões técnicas e fatores externos, como a pandemia, fizeram esse voo acontecer um ano após o Ariane 5 ser retirado de serviço – ao contrário do planejado inicialmente.
O Ariane 5 era o “burro de carga” da ESA e realizou 117 missões orbitais de 1996 a 2023. Sem esse lançador, o continente ficou incapaz de lançar grandes satélites por meios próprios. Os europeus contavam com apenas um lançador orbital operacional, o Vega, capaz de lançar apenas pequenos satélites.
O Ariane 6 “garantirá o nosso acesso assegurado e autônomo ao espaço – e a toda a ciência, observação da Terra, desenvolvimento tecnológico e possibilidades comerciais que isso implica”, comentou a ESA e nota após o lançamento de ontem.
“Estamos perfeitamente no caminho certo para fazer um segundo lançamento este ano, em 2024, para o Ministério da Defesa francês, e para realizar as próximas missões”, disse o CEO da Arianespace, Stéphane Israël. “Então, não tem consequência nos próximos lançamentos.”
A próxima missão Ariane 6 colocará em órbita o satélite espião francês CSO-3.
Custos O novo foguete reduz custos em relação ao antecessor, mas não existe muita clareza sobre quanto. A Arianespace tem sido cautelosa quanto a essas informações e tudo o que temos são estimativas.
No final do ano passado, um artigo na Ars Technica fixou o preço base de um lançamento do Ariane 5 em cerca de € 150 milhões (US$ 162 mi atuais), o que colocaria o preço alvo de uma missão do Ariane 6 em € 75 mi (US$ 81 mi). Isso o tornaria “razoavelmente competitivo” com o Falcon 9, da SpaceX, dominante do mercado – que pode ser reservado por US$ 67 mi.
Os estados membros da ESA comprometeram-se a subsidiar o Ariane 6 em valores de € 290 a 340 mi (US$ 314 a 368 mi) por ano até 2031 pelo menos. Portanto, o custo real por lançamento provavelmente será consideravelmente maior do que o que os clientes do Ariane 6 estão pagando.
O Falcon 9 é parcialmente reutilizável: seu primeiro estágio volta à Terra para recuperação, retrabalho e mais voos. O Ariane 6, por outro lado, é totalmente descartável – uma decisão de projeto que vai contra as tendências do mercado. A justificativa da ESA é que o foguete voará no máximo 10 vezes por ano num futuro próximo, de forma que o investimento em reutilização não valeria a pena.
“Nossas necessidades de lançamento são tão baixas que não faria sentido economicamente”, disse Toni Tolker-Nielsen, diretor de transporte espacial da ESA, recentemente ao SpaceNews , referindo-se à reutilização. “Então, nós realmente não precisamos disso neste momento.”
(Traduzindo: a diretoria da ESA não acha importante que o continente desenvolva um lançador reutilizável e não vê como isso poderia justificar investimento ao atender o mercado privado.)
O mercado que o Ariane 6 encontra em sua estreia é dramaticamente diferente daquele que recebeu o Ariane 5, há mais de um quarto de século. Graças à SpaceX e outros empreendimentos comerciais, a reutilização está se tornando o padrão na indústria.
O Ariane 6 já tem 30 voos em seu manifesto, acrescentou Tolker-Nielsen, 18 dos quais para a constelação Kuiper, de internet por satélite da Amazon. O foguete provavelmente realizará mais uma missão este ano, depois aumentará para seis voos em 2025, oito em 2026 e 10 em 2027, disse ele.
Em janeiro, o Financial Times citou Aschbacher dizendo que “não há garantia” de que a ArianeGroup continuaria a ser a empresa de lançamento preferida da Europa.


