Sonda chinesa enviará amostras do lado distante da Lua para a Terra. Missão histórica levou cargas úteis internacionais.

Amostras do lado mais distante da Lua começaram sua jornada para a Terra depois que a espaçonave chinesa Chang’e-6 as coletou e as lançou na órbita lunar. O veículo de ascensão decolou do topo do módulo de aterrissagem na Cratera Apollo às 20h38 de ontem, dia 3.

“O ascensor Chang’e-6 da China separou-se do módulo de aterrissagem e decolou da Bacia do Polo Sul-Aitken na Lua às 7h38, horário de Pequim, em 4 de junho”, disse a Administração Espacial Nacional da China (CNSA) em um comunicado. “Depois de cerca de seis minutos, ele entrou na órbita desejada e iniciará várias manobras orbitais na próxima etapa do processo.”

A Chang’e-6 pousou no dia 1º e começou a coletar amostras de rochas e regolito com uma pá e uma furadeira pouco depois. A missão esperava coletas até 2 kg de amostras.

Chang’e-6 coletando amostras da superfície do lado distante da Lua

Essa foi a quarta alunissagem bem-sucedida da China, em quatro tentativas – e a segunda no lado distante. Em janeiro de 2019, a Chang’e-4 também pousou no lado distante, carregando um lander e um rover. Nenhum outro país alunissou no lado escuro ate agora.

“O trabalho de embalagem foi concluído em condições normais e todo o processo foi tranquilo”, disse Li Xiaoyu, engenheiro do Centro de Controle Aeroespacial de Pequim (BACC), à tv estatal chinesa CCTV.

As operações são etapas cruciais na missão, que envolve quatro espaçonaves e tem o objetivo de entregar à Terra amostras únicas e cientificamente valiosas do lado distante da Lua. As amostras podem conter material ejetado das profundezas da crosta lunar. Esse e outros materiais podem fornecer informações sobre por que os lados próximo e distante são tão diferentes, bem como pistas sobre a história do início do Sistema Solar.

Superfície lunar registrada pelo lander da Chang’e-6 (CNSA)

O veículo decolou e se posicionou de forma autônoma, determinando sua atitude com a ajuda do satélite de retransmissão Queqiao-2. Espera-se que o veículo se acople ao módulo de serviço da missão nos próximos dias. Nessa manobra, as espaçonaves viajarão a cerca de 1,6 km/s.

Após o acoplamento, os recipientes de amostras serão transferidos para um módulo de reentrada atmosférica em um processo automatizado. O veículo de subida será descartado enquanto o módulo de serviço aguarda o tempo calculado para iniciar seu retorno à Terra. Espera-se que isso ocorra entre 20 e 21 de junho, com o módulo de reentrada aterrissando na Mongólia por volta de 25 de junho.

A China não publicou os cronogramas planejados para as etapas, mas a missão está ocorrendo de maneira semelhante à Chang’e-5, missão de retorno de amostras do lado próximo, em 2020. As autoridades espaciais chinesas indicaram anteriormente que a missão duraria 53 dias.

Lançamento do veículo de ascensão da Chang’e-6 com amostras da superfície lunar

Missão “A missão é bastante difícil”, disse Ge Ping, porta-voz da Chang’e-6 e vice-diretor do Centro de Exploração Lunar e Engenharia Espacial CNSA, à CCTV sobre a Chang’e-6. “Lançamos o satélite de retransmissão Queqiao-2 nos estágios iniciais, adotamos tecnologias de amostragem inteligente rápida e decolagem e subida da superfície da lua, que estabeleceram uma base sólida para tecnologias, como pouso suave e amostragem em corpos extraterrestres.”

O Queqiao-2 foi lançado em março e entrou em uma órbita lunar específica que possibilita a comunicação com o lado mais distante da Lua.

A Chang’e-6 é composta por quatro espaçonaves que somam cerca de 8,2 toneladas. Foi lançada em 3 de maio do espaçoporto de Wenchang e entrou na órbita lunar cerca de 4 dias e meio depois. O módulo de aterrissagem da missão, com cerca de 3,2 toneladas, alunissou no dia 1º de junho. O local de pouso é a região sul da Cratera Apollo, uma cratera de latitude média dentro da vasta bacia do Polo Sul-Aitken (SPA).

Módulo de pouso da Chang’e-6, com o veículo de ascensão, fotografado por um pequeno rover na cratera Apollo, no lado distante da Lua (CNSA)

O módulo de aterrissagem liberou um pequeno rover que capturou imagens dele. Os rastros do propulsor podem ser vistos no regolito lunar. A imagem mostra o módulo de aterrissagem, seus painéis solares, um braço de escavação e uma bandeira chinesa, acionada após a conclusão da coleta de amostras. O veículo de ascensão está no topo do módulo. Uma câmera panorâmica também capturou os arredores.

As imagens foram compartilhadas por meio da conta China Aerospace na rede social chinesa Weibo e, em seguida, foram republicadas por meio da conta CNSA Watcher no X.

O Centro Nacional de Estudos Espaciais (CNES) francês anunciou que sua carga útil Detection of Outgassing RadoN (DORN), para detectar a liberação de gás radônio, foi ligada e coletou dados com sucesso. A carga foi desligada antes do lançamento do veículo de subida. O módulo de pouso também carregou o Negative Ions at the Lunar Surface (NILS), desenvolvida pelo Instituto Sueco de Física Espacial, que a CNSA confirmou ter sido ativada. Um retrorrefletor laser passivo italiano também estava a bordo do módulo.

Bandeira chinesa da Chang’e-6, levantada após a sonda coletar amostras da superfície no lado distante (CNSA)

“Depois que a coleta foi concluída, a bandeira vermelha de cinco estrelas levada pelo módulo de pouso da Chang’e-6 foi desdobrada com sucesso no lado oposto da lua”, disse a CNSA. “Esta é a primeira vez que a China exibe de forma independente e dinâmica a bandeira nacional no lado oposto da Lua. A bandeira é feita de novos materiais compostos e tecnologia especial.”

As descobertas da Chang’e-6 podem fornecer novas percepções sobre a região onde pousou. Essa área é de especial interesse porque acredita-se que ela contenha reservas de gelo de água que poderiam suportar a colonização lunar. A NASA planeja enviar um rover, VIPER, para investigar a região em 2026.

Além das missões Chang’e, outras missões à superfície lunar foram feitas nos últimos anos. As bem-sucedidas incluem a Chandrayaan-3, da Índia, a SLIM do Japão e a Odysseus da empresa americana Intuitive Machines. A Luna-25 da Rússia, a Hakuto-R da japonesa iSpace e a Peregrine da americana Astrobotic ficam entra as que não lograram êxito.

Superfície lunar com trem de pouso da Chang’e-6 (CNSA)

Planos A Chang’e-6 é parte de um programa lunar amplo da China. O país seguirá com duas missões ao polo sul da Lua: Chang’e-7, em 2026, e Chang’e-8, por volta de 2028. O lançamento a partir da superfície lunar e o acoplamento na órbita serão experiências aplicáveis ao plano da China de colocar astronautas na Lua e trazê-los em segurança à Terra antes de 2030.

Tudo isso faz parte de um plano para estabelecer uma base lunar permanente, a International Lunar Research Station (ILRS), planejada para a década de 2030. Vários países e organizações já se inscreveram no projeto.

Além disso, a coleta de amostras será útil para outras missões, como a Tianwen-2, destinada a explorar cometas e asteroides. A China também planeja lançar a missão de retorno de amostras de Marte, Tianwen-3, por volta de 2030.

Superfície lunar fotografada pela Chang’e-6 (CNSA)