Rio de Janeiro, anos 60: dois eletrotécnicos são encontrados mortos no alto de um morro; policiais falham em encontrar forma e motivo das mortes. História inclui amigo suspeito, OVNIs, experimentos espirituais com explosivos, e máscaras de chumbo.

Em qualquer lista de mistérios, este caso não pode faltar. Sem solução, objeto da mídia há mais de cinco décadas, ocupando os novos meios à medida em que se desenvolvem, dos jornais ao YouTube. Condições e relatos incomuns faziam tornavam o quebra-cabeças difícil de montar. Uma característica do caso daria seu nome: as máscaras de chumbo.

Na tarde de 20 de agosto de 1966, um garoto de 18 anos, empinava pipa no Morro do Vintém, no bairro Santa Rosa em Niterói, RJ, quando encontrou dois cadáveres. Assustado, avisou a polícia. Pelas condições de difícil acesso ao local e uma forte chuva, os policiais só subiram o morro no dia seguinte. Levaram mais de duas horas para chegar aos corpos.

A cena  A pequena equipe de policiais e bombeiros acompanhados de jornalistas e curiosos encontrou uma cena um tanto incomum. Os corpos, que já exalavam um odor fortíssimo, estavam próximos um do outro e parcialmente cobertos pela vegetação. Ambos estavam deitados de costas no chão, sobre um tipo de cama feita com folhas de pindoba, uma palmeira, cortadas com faca ou algo assim, próximos a um marco de cimento para demarcação de lotes.

Eles apresentavam uma coloração rosada e vestiam ternos e capas de chuva. Não havia sinais de trauma, luta ou consumo dos corpos por animais. “Era como se estivessem dormindo”, comentou um policial. O que mais chamava a atenção nos corpos deu o nome popular do caso: ambos tinham máscaras de chumbo para cobrir os olhos, tipicamente usadas para proteção contra radiação, visivelmente de “fabricação grosseira”. (Dada a forma dos objetos, acho que faria mais sentido usar a expressão “óculos de chumbo”.)

Eles foram identificados pelos documentos que portavam: Manoel Pereira da Cruz, 32, nascido em ES, e Miguel José Viana, 34, natural do RJ técnicos em eletrônica de Campos dos Goytacazes (a cerca de 260 km) – especialistas na instalação de transmissores e repetidores de sinal de televisão -, sócios em um pequeno negócio de reparos de televisores.

Vítimas do Mistério das Máscaras de Chumbo (via Revista UFO)

Seus relógios tinham sido tirados dos pulsos e acomodados nos bolsos. Próximo aos cadáveres, estavam uma garrafa de água mineral magnesiana, uma folha de papel laminado que fora usada como copo e um embrulho de papel com duas toalhas úmidas. Também encontraram um par de óculos pretos com uma aliança em uma das hastes, um lenço com as iniciais A. M. S. e um bloco de anotações continha símbolos e números (códigos de referência para válvulas eletrônicas e equações básicas, como a Lei de Ohm).

Havia um bilhete com as seguintes instruções: “16,30hs esta’ local determinado. 18,30hs ingerir capsúla após efeito, proteger metais aguardar sinal mascara”. A investigação grafotécnica demonstrou que a caligrafia era de Miguel, mas as palavras não faziam parte do vocabulário de nenhum dos dois, o que levou a polícia a acreditar que alguém ditou tais palavras para as vítimas, parecendo que foram escritas rapidamente. A expressão “ingerir cápsula” parecia ser de um profissional de saúde. “Sinal” pode significar o efeito do que teriam ingerido ou um sintoma, conforme o jargão da homeopatia.

No bolso de Manoel, foi encontrado um maço de cigarros Continental quase no fim. Pode-se inferir que esperavam que não esperavam passar muito tempo no morro. Do contrário, ele teria levado um maço extra.

O forte cheiro dos corpos em decomposição tornava os trabalhos ainda mais difíceis e a equipe utilizou formol para reduzir o odor.

A autópsia não encontrou ferimentos e sinais de radioatividade. “Maneca”, auxiliar de necrópsia do Instituto Médico Legal (IML) de Niterói, disse ao delegado Idovam Ferreira, responsável pela investigação, que as vísceras não haviam sido enviadas para exame toxicológico porque tinham apodrecido.

“Eu vi as vísceras colocadas em uma prateleira e eu perguntei ‘mas como?’ ‘Doutor, as vísceras estão podres… mesmo porque nós não temos reagente'” contou Idovam em entrevista ao programa Linha Direta, da Rede Globo, em 2004. Posteriormente Idovam também revelaria que a geladeira do IML havia quebrado.

“Maneca” teria informado ao irmão de Miguel, Herval Viana, que se encarregara de fazer o exame de necropsia nos corpos porque o médico legista Astor de Mello não aparecia por lá já havia dias.

Portanto, não houve exames em busca de substâncias tóxicas em um caso que inclui um bilhete com a instrução “ingerir cápsulas”. O IML estava sobrecarregado e, quando os exames possíveis foram concluídos, os órgãos já estavam em um estado de decomposição que impossibilitaria testes confiáveis. A putrefação também tornou impossível determinar se foram eletrocutados.

“A investigação teria um prosseguimento normal se, por coincidência, naquele dia, 21 de agosto, não tivesse sido assassinado um detetive de nome Hilton Magalhães, que, à época, era o chefe do departamento de segurança pessoal da delegacia de vigilância”, comentou no programa de 2004 o jornalista Mário Dias, o primeiro a chegar no Morro do Vintém, com grupo de policiais e bombeiros. Entre os jornalistas que cobriram o caso, sua atuação se destaca. No Diário do Povo, ele acompanhou as duas investigações e é o autor do nome do caso, “Mistério das Máscaras de Chumbo”.

Policiais, bombeiros, jornalistas e curiosos chegam aos corpos no Morro do Vintém (Via Elessandro de Almeida)

Houve pressão sobre o IML para agilizar os trabalhos no corpo do detetive. “Os dois cadáveres, de Manoel e Miguel, ficaram para segundo plano”, disse Mário lembrando-se do tumulto no IML.

Além disso, em um momento um tanto bizarro (ao melhor estilo do caso), a porta do recinto onde estavam as entranhas de Manoel e Miguel ficou aberta – permitindo a entrada de um cão que se alimentou delas. É válido questionar os resultados considerando a omissão dessa informação?

Sem explicação  Herval esteve no IML no dia 22 e falou com “Maneca” para liberar os corpos. A liberação ocorreu de forma irregular, sem Atestado de Óbito. No dia 24, Dias foi ao IML para obter informações sobre o caso e descobriu que as vísceras haviam sido descartadas.

Cerca de um mês depois, Herval retornou ao IML para pegar os Atestados de Óbito com o legista Astor de Mello. Neste momento, “eu senti que ele ficou em dúvida [sobre] o que colocar na causa mortis“, contou Herval no documentário. Os laudos da necrópsia indicariam causa mortis indeterminada por conta da avançada decomposição.

Na época, o delegado Idovam defendeu em seu relatório à Justiça que Manoel e Miguel foram vítimas de uma experiência parapsicológica mal sucedida no alto do morro – uma mistura de suicídio involuntário e acidente. A tese não foi aceita pelo promotor Edmo Lutterbach.

O promotor apontou, por exemplo, que os laudos de necrópsia – emitidos quase dois meses após as mortes – eram imprecisos e continham rasuras. Um dos peritos, Sebastião Faillace, mudara de ideia e não queria colocar seu nome no documento e o mesmo fora raspado e substituído pelo de Walmor Giani, um legista já falecido.

No programa, quando Idovam foi perguntado sobre o motivo da aceitação do laudo sem a realização dos exames necessários, ele apontou para a “administração”. “Eu não tinha condições de lutar contra a administração, mesmo porquê eu não tinha como provar em absoluto isso.”

“Se houve rasura é porque estava ali o nome de alguém para assinar e não quis assinar, se recusou”, disse Lutterbach no mesmo programa. Ele requereu novas investigações.

Passo a passo  O caso chegou às mãos do então detetive da Delegacia de Homicídios, Saulo Soares de Souza, conhecido por seu desempenho “acima da média”. Ele investigou o caso durante dois anos e chegou a levantar a hipótese de que os técnicos foram atraídos a Niterói por um golpe.

Matéria de 27 de outubro de 1966 do Correio da Manhã

Correio da Manhã 27 de outubro de 1966

No inquérito, os investigadores reconstituíram uma narrativa plausível dos últimos dias de Manoel e Miguel. Eles haviam dito às família que iriam a São Paulo comprar peças e outros materiais para a oficina e um automóvel usado. Na noite de 17 de agosto, terça-feira, Manoel pediu ajuda para Neli, sua esposa com quem tinha dois filhos, para contar e embrulhar o dinheiro que levaria: 2,3 milhões de Cruzeiros, cerca de mil Dólares na época. A maior parte deste dinheiro não seria encontrada. O cadáver de Miguel tinha 157,8 mil Cruzeiros (por volta de 68 Dólares) e o de Manoel estava com apenas 4,6 mil Cruzeiros (menos de 2 Dólares).

No dia seguinte, Manoel embrulhou duas toalhas para levar, sem explicar o motivo. Os dois técnicos foram à rodoviária de Campos acompanhados do amigo Élcio Correia Gomes, que ficou ali, e pegaram o ônibus das 9h da Viação Santo Antônio para Niterói, chegando na cidade por volta de 14h30.

Passaram o a loja de eletrônicos Fluscop (na Travessa Alberto Vitor, no centro da cidade), cujo dono, Hernani Teixeira de Carvalho Filho, os visitara em Campos dias antes. Eles já eram clientes da Fluscop, que funcionava como um hub para quem trabalhava com eletrônica. Não compraram nada na loja e, segundo Hernani, tinham pressa e se recusaram a almoçar com ele. O inquérito não apurou a visita de Hernani aos dois.

Com tempo chuvoso, compraram capas de chuva de borracha na loja de itens de plástico e borracha Casa Brasília, na rua Cel. Gomes Machado, com Manoel pagando por elas. Estranhamente, não as vestiram de imediato.

Depois, passaram no bar e leiteria São Jorge, na rua Marquês do Paraná, para comprar a garrafa d’água. Eles levaram o comprovante da compra para devolver o vasilhame depois. A garçonete que os atendeu disse que Miguel parecia “muito nervoso” e olhava o relógio de pulso com frequência.

O detetive fez os trajetos e notou algo importante: o tempo que eles levaram entre a rodoviária e a Fluscop era muito grande, cerca de 50 minutos. Saulo fez o caminho a pé, de ônibus e de táxi – e sempre havia “um espaço de tempo vazio”. No meio do caminho, havia um centro espírita/parapsicológico dirigido por um homeopata espírita de influência na cidade e até com apresentações na TV. Teriam os dois buscado orientações para uma experiência?

Após passarem no bar, presume-se que seguiram direto para o local onde foram encontrados mortos. O vigia Raulino de Matos, morador local, disse ter visto Manoel e Miguel chegando ao morro em um jipe outros dois homens, sendo o motorista loiro, pouco antes das 16h30. Os técnicos prosseguiram a pé, o que chamou a atenção de Raulino pois já estava perto do anoitecer e o tempo piorava – tornando o crepúsculo mais rápido.

Passagem de ônibus de Campos para Niterói, parte do inquérito (via Cabana do Terror)

Na manhã seguinte, 18, quinta-feira, o jovem Paulo Cordeiro Azevedo dos Santos, 18, caçava passarinhos no morro quando viu os corpos e avisou o guarda Antônio Guerra, da Companhia de Radiopatrulha.

Posteriormente, esse policial foi ouvido pelo delegado Venâncio Bittencourt, que comandou as investigações. Bittencourt queria entender a demora de dois dias para ir ao local e pensava que Antônio ou outra pessoa teria revistado os cadáveres para pegar dinheiro e objetos de valor, mas nada ficou comprovado.

No dia 20, por volta das 18h, Jorge da Costa Alves, também com 18 anos, estava procurando sua pipa junto com outros meninos no morro quando sentiram um forte mau cheiro e encontraram os corpos. Jorge avisou a 2ª Delegacia de Polícia de Niterói.

Somente na manhã de domingo, 21, policiais, bombeiros, jornalistas e curiosos subiram o Morro do Vintém e o mistério teve início publicamente. Existe um ponto interessantíssimo aqui: os cadáveres ficaram da noite de quarta-feira até a manhã de domingo expostos aos elementos… e não foram atacados por nenhum animal?

Reviravoltas  Em 25 de agosto de 1967, cerca de um ano depois das mortes, os corpos de Manoel e Miguel foram exumados para uma nova série de exames. O procedimento foi conduzido pelos legistas Sebastião Faillace e Adalberto Otto. A decomposição dos cadáveres não havia ocorrido conforme o esperado. Concluíram que isso devia-se ao uso excessivo de formol. Em São Paulo, o Instituto de Energia Atômica procurou por radiação nos cadáveres e não encontrou nada além do normal. Outra vez, não houve como determinar a causa mortis.

Nos autos, havia referência a garotos que foram abordados por um homem loiro de sotaque estrangeiro perguntando o caminho para o alto do morro poucos dias antes das mortes. Em junho de 1968, foi noticiado que a polícia procurava por um homem com essa descrição que foi visto conversando com os dois técnicos antes de entrarem no jipe que os levou até o morro. Essa descrição corresponde à do zelador do centro de estudos paranormais entre a rodoviária e a Fluscop. Ele também era técnico de TV e frequentava a loja. Essa pista também não deu em nada.

Matéria do Correio da Manhã de 27 de agosto de 1967 sobre a exumação dos corpos de Manoel e Miguel (Biblioteca Nacional)

A próxima evolução do caso seria uma guinada e tanto. Hamilton Bezani, detento de um presídio de alta segurança em São Paulo, confessou que esteve envolvido na morte dos dois técnicos. Bezani disse que ele e três comparsas, também criminosos conhecidos, planejaram o crime no centro espírita onde as vítimas teriam passado horas antes de morrer. Segundo ele, o plano fora criado pela proprietária do centro para pegar o dinheiro que eles carregavam. Bezani contou que Manoel e Miguel foram envenenados e os bandidos roubaram seis milhões de Cruzeiros.

Com a confissão, ele foi levado a Niterói para novos depoimentos. Acabou caindo em várias contradições: a quantia em dinheiro, a posição dos corpos e detalhes de como foram encontrados. A polícia concluiu que Bezani estava inventando uma história para poder permanecer no presídio de Niterói, de onde já tinha escapado duas vezes. Certamente, vislumbrava a oportunidade de uma terceira fuga. O criminoso foi devolvido à unidade prisional em São Paulo.

Pressionado por superiores, Saulo esforçou-se para encontrar respostas. Viu colegas desistindo do caso até que, repentinamente, a Justiça o arquivou por falta de provas em 12 maio de 1969, pouco depois de Lutterbach ser designado a outra jurisdição. “O arquivamento do processo pela Justiça foi estranho, foi atípico. A regra geral nesses casos é que o processo vá da polícia para juízo, volte de juízo para a polícia, até o tempo de sua prescrição, que seria, no caso, 20 anos. Mas, dois anos e pouco após o fato, a própria Justiça pediu através do Ministério Público e, por intermédio do juiz que comandava o feito, foi arquivado”, explicou Saulo em entrevista ao Linha Direta em 1990.

Se foi realmente um crime, o(s) autor(es) saíram imunes. As famílias das vítimas nunca saberiam o motivo das mortes. Como se a própria perda e o desconhecimento da causa não bastassem, a exposição pública do caso e as especulações criadas por desconhecidos foram somadas ao sofrimento.

“Acho que tem alguma coisa por trás disso aí. Não sei se alguma coisa atrapalhou a polícia ou a polícia chegou a alguma conclusão que nós não temos conhecimento, mas nós não aceitamos… Nossa família não aceita isso”, disse emocionado Herval em 1990.

“‘Como seu pai morreu?’, ‘Por causa de quê que morreu?’, ‘Crime da máscara de chumbo”… Não sei explicar. Aí tinha, às vezes, até em sala de aula mesmo, a professora virava e falava assim ‘Olha, deixa o rapaz lá, deixa o Arnaldinho quieto.’ Era coisa que incomodava, né?”, contou Arnaldo Luís Viana, filho de Miguel, no programa de 2004. Perguntado se a morte do pai era assunto encerrado, ele pediu: “Deixa a almazinha dele quietinha. Já mexeram depois de morto. Não, deixa mais quieto. Deixa quieto, é melhor. Se alguém descobrir a verdade, um dia, a gente pode ficar sabendo.”

Com a persistência do mistério, sobram hipóteses. Há pessoas que acreditam que a autópsia levantou a causa das mortes, mas as informações foram ocultadas em uma conspiração de acobertamento. Manoel e Miguel teriam morrido por uma alta dose de radiação de uma fonte desconhecida. Até fala-se de agentes americanos terem vindo ao Brasil. Até o momento, não foram apresentadas evidências corroborando essas ideias.

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Destaque do bilhete encontrado com Manoel e Miguel (Via Aventuras na História)

Além da imaginação  Com divulgação na mídia, surgiram várias hipóteses para explicar as Máscaras de Chumbo: pacto de morte, suicídio, latrocínio, contato ufológico, experiência esotérica/espiritual… Alguns chegaram a afirmar que Manoel e Miguel estavam envolvidos em venda ilegal de material radioativo e foram assassinados por compradores insatisfeitos. Também foi dito que teriam uma relacionamento homoafetivo e, na impossibilidade de assumirem publicamente, decidiram ir a um local remoto para acabar com tudo. Para Mário, mesmo em 2004, os técnicos em eletrônica haviam sido vítimas de um assassinato seguido de roubo.

Inicialmente a polícia pensava que eles vieram encontrar uma terceira pessoa. “Aguardar sinal” poderia se referir a um sinal de um terceiro personagem na cena. O desaparecimento do dinheiro e ausência de um objeto cortante que teria sido usado para aparar as folhas também reforçavam a ideia. As máscaras, claro, não se encaixam nisso.

Na época, técnicos em eletrônica consultados pelo inquérito levantaram a hipótese de que Manoel e Miguel haviam sido mortos por um raio, uma vez que chovia muito naquela noite. Estar em um local alto e com uma máscara de chumbo aumentaria as possibilidades de ser atingido por uma descarga elétrica natural. Seus corpos, porém, sofreram apenas ligeiras queimaduras, conforme a necrópsia – compatíveis com trabalho em oficina. Queimaduras maiores não teriam sido constatadas porque as marcas se desfizeram com a decomposição dos cadáveres. Vale lembrar que não havia sinais de que um raio caíra no local onde foram encontrados.

Uma hipótese é a de que os dois homens teriam consumido drogas psicoativas com para entrar em contato com seres extraterrestres ou espirituais. Eles teriam utilizado as máscaras como proteção da forte luz que esperavam no encontro. Nessa hipótese, a overdose das drogas teria causado as mortes.

A tese do terceiro personagem indicava que essa pessoa poderia ter dirigido o experimento – mas não necessariamente teria participado. Tudo indica que Manoel e Miguel foram ao local por livre e espontânea vontade.

Dias após a descoberta dos corpos, a polícia prendeu e interrogou Élcio Gomes, que os acompanhou até a rodoviária de Campos. Espírita e homeopata, iniciou os dois técnicos em estranhas experiências, fazendo parte de um grupo “científico-espiritualista”. Élcio também aprendia noções de eletrotécnica com Miguel. Tendo acompanhado os dois até a rodoviária em Campos, talvez ele conhecesse os verdadeiros destino e propósito da viagem. Chegaram a pensar que ele teria se encontrado com os dois no centro espírita no caminho que fizeram em Niterói, mas se quer conseguiram provar que ele estava em Niterói. Como não encontraram nada que o incriminasse, ele foi liberado em poucos dias.

“No princípio, eu achei que ele podia ter participado de alguma coisa. Mas hoje, após eu observar muita coisa e acompanhar mesmo, eu chego à conclusão que Élcio não tem nada com isso aí”, disse Herval em entrevista ao Linha Direta em 1990

Experiências  Aquela não fora a primeira experiência desta natureza de Manoel e Miguel. Nem a primeira considerada perigosa. Certa vez, no pátio dos fundos da casa de Manoel, realizaram uma experiência “mística”. A explosão resultante assustou a vizinhança. Histórias semelhantes aparecem nos depoimentos de várias pessoas ligadas aos dois.

Em 13 de junho de 1966, provocaram uma grande explosão na Praia de Atafona, no delta do Rio Paraíba do Sul, em São João da Barra, a cerca de 40 km de Campos. Estavam na companhia de Élcio e Valdir, outro conhecido do grupo. O estrondo e o clarão foram tão fortes que a população pensou que estava ocorrendo um terremoto. Várias residências próximas tiveram danos ligeiros e esse foi o assunto da região por algum tempo. Esse episódio chegou a ser investigado pela Marinha do Brasil e eles teriam sido “expulsos” da praia por pescadores locais.

Até correu a história de que um “disco voador” teria caído na praia e houve relatos ufológicos no local. Élcio chegou a dizer que um objeto luminoso pousou na praia, ficou alguns minutos ali, ascendeu aí teria explodido. Em 16 de setembro, foi noticiado que a Marinha captou mensagens estranhas por rádio no dia anterior ao ocorrido na praia. As estações transmissoras possuíam identificações inexistentes. Se houve a alguma descoberta sobre isso, permaneceu secreta.

A praia teria até uma gruta misteriosa. Segundo um pescador, antes da explosão, submarinos desembarcaram um material que não foi encontrado. Essas histórias circularam com boatos de que três russos estavam em Niterói para averiguar o Mistério das Máscaras de Chumbo e estariam rondando o IML. Os boatos também falavam de um professor universitário americano que teria comprado um boteco perto do IML para acompanhar a movimentação do local. Três chineses teriam chegado a Campos nessa época perguntando sobre Manoel e Miguel. Quando procurados com um intérprete, contatou-se que não falavam mandarim e não se pareciam com chineses. Eles teriam ido a Atafona sem retorno. Para concluir os boatos sem credibilidade, a autópsia dos técnicos teria encontrado um metal inexistente na Terra.

Remoção dos corpos no Morro do Vintém (Via Elessandro de Almeida)

Também em setembro, foi encontrada na oficina de Miguel um exemplar do livro A Vida no Planeta Marte com várias anotações. Além de material sobre ufologia, publicações sobre esoterismo e espíritos foram encontrados nas casas de ambos. Algumas usam eletromagnetismo para explicar telepatia, comunicação com espíritos, etc.

Encontraram também material para confecção das máscaras, inclusive o restante do chumbo. Jornalistas confirmaram que elas foram fabricadas na oficina de Manoel, embora não saibamos o dia exato da fabricação. Elas foram feitas cortando tubos, conformando-os até achatarem-se e cortando. Herval, o irmão, encontrou um talonário de solicitação de serviço de onde teria sido removido o papel do bilhete com as instruções.

Sobrenatural  Segundo Isabel Viana, irmã de Miguel que sabia que ele participava de um grupo de experiências desse tipo, ele teria dito a ela que cumpriria uma “missão importante” em breve, mas isso era segredo. Ela também disse que eles teriam construído algo como um aparelho de rádio através do qual recebiam mensagens codificadas de origem desconhecida. Chegou a circular uma informação de que foi notada uma antena diferente sobre a casa de um deles. Seria por onde receberiam as transmissões? O objeto desapareceu de forma desconhecida em uma época que não foi determinada. (Essa história da antena também não me soa crível.)

Antes da viagem, uma sobrinha de Miguel perguntou a ele porque iria a São Paulo comprar um carro se em Campos seria mais barato. Ele manteve a versão da viagem a São Paulo e acrescentou que precisava saber de uma coisa e, depois, diria se acreditava mesmo em espiritismo.

O Padre Oscar González Quevedo (aquele do Fantástico), então professor de parapsicologia, explicou ao jornal O Globo que máscaras de chumbo eram empregadas em experiências de ocultismo. Segundo ele, a prática permitia que irradiações luminosas de novos mundos afetassem o “terceiro olho”. Para Quevedo, tais experiências poderiam fulminar os praticantes, mas as máscaras forneceriam alguma proteção.

Nesse tipo de experimento, a pessoa deve estar em jejum para provocar desequilíbrio físico e mental e ingerir uma quantidade de determinada droga para entrar em transe. No ritual chamado de psigama, o experimentador procura liberar a alma para conseguir captações espirituais. Na hiperestesia, seus nervos superexcitados são usados para obter sensações de aspectos sutis da realidade que o cerca. “Para se conseguir êxito em qualquer uma dessas práticas, são indispensáveis muitos exercícios e perfeito estado físico”, explicou.

Para alguns pesquisadores de parapsicologia, os técnicos podem ter sido vítimas de uma experiência mal sucedida. Teriam recebido instruções de entidades espirituais, mas não teriam sido capazes de executar a experiência conforme tais ordens. Talvez, nem as tenham compreendido corretamente.

OVNI  Após as mortes ganharem a atenção da mídia, foi divulgado um relato ufológico que estaria conectado a elas. A dona de casa, Gracinda Barbosa Cortino de Souza, disse à polícia ter visto um estranho objeto sobre o morro próximo ao momento em que os investigadores acreditavam que Manoel e Miguel haviam falecido – entre 19h e 20h.

Gracinda morava com os três filhos, duas meninas e um menino, perto do Morro do Vintém. Ela dirigia um Fusca pela Alameda São Boaventura, no bairro Fonseca, com os filhos quando Denise, a mais velha, de 7 anos, chamou a atenção para algo no alto do morro. O objeto era arredondado, com um halo de luz alaranjada intensa e um anel de fogo soltando raios azuis em várias direções.

Todos viram o OVNI pairando sobre o local da morte dos técnicos de Campos. Li que a menina chegou a desenhar o objeto para a Revista Manchete, mas não consegui encontrar o desenho publicado. Após a publicação desse relato, várias pessoas contataram a polícia dizendo ter visto a mesma coisa.

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OVNI foi visto sobre o Morro do Vintém próximo ao horário em que os dois técnicos morreram (Chill Factor Films)

Na minha visão, deve-se levar em conta os fatores psicossociais que agem em qualquer avistamento ufológico. Com a notícia de um avistamento, inconscientemente, todos ficam mais alertas ao que foge do padrão e se assemelha ao que foi visto. Por questões individuais, algumas pessoas podem realmente achar ver algo assim. Outras, apenas entram na onda e fazer parte do grupo que viu algo.

Até onde é público, não houve apuração específica destes relatos. Então, não sabemos. Na comunidade ufológica, aceita-se amplamente o OVNI sobre o Morro do Vintém por conta dos “relatos independentes”.

Para a mídia, estava tudo pronto. Nas manchetes de jornais e revistas, os dois teriam sido mortos durante um contato com extraterrestres. Naturalmente, o caso atraiu a atenção de ufólogos, além dos interessados em fenômenos paranormais.

Uma das participações ufológicas de maior peso ocorreu em abril de 1980, quando Dias levou um pequeno grupo que incluía Jacques Vallée, proeminente ufólogo francês naturalizado americano, sua esposa Janine, o detetive Saulo, o fotógrafo Alberto Dirma, o jornalista e ufólogo Aurélio Zalmar, que acompanhou o caso desde o início, e um intérprete ao Morro do Vintém.

“Foi interessante. Nós subimos o Morro do Vintém, Dona Janine Vallée de salto alto […]. Chegamos ao local exato conduzidos por um rapaz, já homem feito, que foi o garoto que soltava pipa no dia em que encontraram os corpos. Foi ele que nos levou até lá”, contou Zalmar no Linha Direta de 1990.

Para o choque de todos, havia marcas nítidas das silhuetas dos corpos onde a vegetação não crescera. “O que vimos foi que, claro, a vegetação havia mudado de alguma forma. Mas o local onde os corpos foram encontrados ainda estava nu, não havia grama lá. Estava muito claro que algo muito incomum tinha acontecido ali”, disse Vallée no programa de 2004.

Os locais também tinham e sinais de calcinação, processo que só acontece a altas temperaturas. O solo não foi averiguado para tentar explicar as marcas.

Quando da remoção dos cadáveres, não era possível verificar a morte da vegetação e a calcinação do terreno. Seria o formol aplicado sobre os corpos o responsável por essa ausência de vegetação?

Vallée dedicou um capítulo de seu livro Confrontos, publicado em 1990, para as Máscaras de Chumbo, descrevendo sua visita ao local. Para ele, os dois foram vítimas de uma experiência mal sucedida.

Em 1997, Saulo foi ao morro com uma equipe de reportagem fazendo uma longa matéria sobre o caso. Também notaram que a vegetação ainda não havia crescido. Ele disse a Ademar Gevaerd, renomado ufólogo brasileiro e editor da Revista UFO, que o lugar tinha aparência macabra.

O investigador seria atormentado até o fim da vida pelas Máscaras de Chumbo – a situação mais estranha que encontrou na carreira e o único caso que deixaria sem solução. Em 1981, ele estava internado em um hospital próximo ao Morro do Vintém para uma cirurgia no estômago e teve alucinações com um OVNI. Ele sofreu um princípio de choque a anafilático e teve a sensação de estar levitando sobre a cama. Depois, ele caminhou até a janela e viu, na companhia de enfermeiros, algo que não conseguiram identificar. Um deles teria sugerido tratar-se de um balão, mas Saulo não conseguiu identificar o objeto no céu.

Os corpos dos radiotécnicos encontrados na mata
O Mistério das Máscaras de Chumbo: corpos encontrado na mata (Via Revista UFO)

Máscaras  Outro episódio chegou a ser levantado pelos policiais investigando as mortes no Morro do Vintém. Em 1962, um técnico de TV – profissional da mesma área de Manoel e Miguel – foi encontrado morto no Morro do Cruzeiro, no bairro Neves, em São Gonçalo, no mesmo Estado. Não havia qualquer sinal de violência e a vítima estava com todos os seus pertences. Também havia uma máscara de chumbo junto ao cadáver. O homem era francês e se chamava Hermes. O sobrenome não tornou-se conhecido.

Segundo o amigo José de Souza Arêas, ele teria ido ao alto do morro para tentar captar sinais de televisão sem o emprego aparelhos – apenas mentalmente. Ele teria ingerido um comprimido redondo e morrido porque não estava fisicamente preparado para a missão, que oferecia risco à vida. Os jornais não deram muita atenção ao caso, mas mencionaram que Hermes buscava contatos com seres extraterrestres.

Outro caso interessante ocorreu na praia de Grumari, na capital fluminense. Em 4 de março de 1986, o técnico em informática Olavo Menna Barreto Ferreira, 25, e o office boy Wellington Barros Wanderley, 24, foram encontrados mortos sem qualquer sinal de agressão física. Os policiais da 16ª DP encontraram no local uma garrafa de refrigerante de 1L vazia, um frasco de pó de guaraná vazio com odor de amônia e dois copos plásticos também vazios. Não havia máscaras e OVNIs nesse caso.

Olavo deveria estar na faculdade, a Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), quando foi visto encontrando-se com Wellington para uma atividade ufológica. Acredita-se que os rapazes tenham chegado à praia de táxi ou de carona, uma vez que não havia ônibus para o local. O trecho final só poderia ser feito a pé.

Algumas fontes afirmam que participavam de um grupo espírita ou ufológico. (Talvez fosse um pouco dos dois.) Segundo as famílias, faziam atividades como vigílias com o intuito específico de fazer algum tipo de contato. A mídia, claro, chegou a criar manchetes como “Morte no rastro do Disco Voador”. Olavo era filho de um renomado cirurgião dentista do Rio de Janeiro, dono de uma clínica odontológica na Barra da Tijuca, o que diminuiu a divulgação do episódio.

Feita a perícia no frasco, foram encontrados traços de um pesticida comum com um composto organo-fosforado – que pode inibir a enzima acetilcolinesterase, responsável pela finalização da transmissão de impulsos nervosos nas sinapses colinérgicas pela hidrólise do neurotransmissor acetilcolina. Traduzindo, inibir essa enzima pode causar paralisia temporária que levaria a morte. O caminho mais comum seria a paralisia dos pulmões.

Outro caso interessante ocorreu na praia de Grumari, na capital fluminense. Em 4 de março de 1986, o técnico em informática Olavo Menna Barreto Ferreira, 25, e o office boy Wellington Barros Wanderley, 24, foram encontrados mortos sem qualquer sinal de agressão física. Os policiais da 16ª DP encontraram no local uma garrafa de refrigerante de 1L vazia, um frasco de pó de guaraná vazio com odor de amônia e dois copos plásticos também vazios. Não havia máscaras e OVNIs nesse caso.

Olavo deveria estar na faculdade, a Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), quando foi visto encontrando-se com Wellington para uma atividade ufológica. Acredita-se que os rapazes tenham chegado à praia de táxi ou de carona, uma vez que não havia ônibus para o local. O trecho final só poderia ser feito a pé.

Vítimas do Caso Grumari
Vítimas do Caso Grumari (Via Extraterrestres: Ameaça ou Aliança?)

Algumas fontes afirmam que participavam de um grupo espírita ou ufológico. (Talvez fosse um pouco dos dois.) Segundo as famílias, faziam atividades como vigílias com o intuito específico de fazer algum tipo de contato. A mídia, claro, chegou a criar manchetes como “Morte no rastro do Disco Voador”. Olavo era filho de um renomado cirurgião dentista do Rio de Janeiro, dono de uma clínica odontológica na Barra da Tijuca, o que diminuiu a divulgação do episódio.

Feita a perícia no frasco, foram encontrados traços de um pesticida comum com um composto organo-fosforado – que pode inibir a enzima acetilcolinesterase, responsável pela finalização da transmissão de impulsos nervosos nas sinapses colinérgicas pela hidrólise do neurotransmissor acetilcolina. Traduzindo, inibir essa enzima pode causar paralisia temporária que levaria a morte. O caminho mais comum seria a paralisia dos pulmões.

As fontes sobre o Caso Grumari são um tanto difíceis de encontrar e também acabam sendo conflitantes. Por exemplo, é dito que não foi encontrado veneno na autópsia, mas também há fontes que mencionam envenenamento por curari, uma planta usada por indígenas.

Em 2013, foi postado um comentário anônimo (e extremamente duvidoso) em uma página sobre o caso. O autor faria parte de um grupo de aproximadamente 12 pessoas que estudavam parapsicologia, ufologia, história antiga, filosofia, etc. e abstinham-se de tabaco, álcool e outras drogas. Temendo perseguição, o grupo se desfez após a morte dos dois e seu material foi queimado. Eles já estariam fazendo contatos paranormais há algum tempo e os dois teriam sido “induzidos ao erro”, causando uma espécie de suicídio.

Os Casos Hermes e Grumari foram estudados por Carlos Alberto Machado, investigador ufológico, que também pesquisou as Máscaras de Chumbo. Haveria alguma ligação entre os episódios?

Morro  Com o passar das décadas e a transformação dos meios de comunicação, o caso conquistou seu espaço entre os apreciadores de mistérios. Na TV, houve produções a respeito, algumas com tom mais sensacionalista do que realista. O caso foi tema da estreia de Linha Direta, em 29 de maio de 1990.

Em 2004, houve um novo episódio sobre as Máscaras de Chumbo. Lembro-me de ter assistido a esse programa. Era uma época em que eu ainda tinha medo da música de abertura. Lembro-me de ter considerado acessar o site para tentar conversar com Mário Dias, mas acho que a conexão com a internet da época não ajudou. (“Acho.” Um acidente em setembro de 2018 prejudicou minha memória de eventos mais antigos – que costumava ser boa.) Ao assistir o episódio novamente para produzir este post, notei referências claras ao filme Contatos Imediatos de Terceiro Grau, que tem um personagem inspirado por Vallée.

Para realizar o documentário, a equipe da Globo pediu acesso aos arquivos do caso, mas eles não existiam mais. Segundo Maurício Menezes, assessor de comunicação do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, tratava-se de um caso como qualquer outro e, quando prescreveu, os documentos foram destruídos.

“Para a Justiça, se tratou de apenas de mais um caso policial. Bem ou mal apurado, ele teve importância apenas para a imprensa. Mas, para o aparelho judiciário do Estado do Rio de Janeiro, foi apenas mais um caso. Como milhares e milhares de outros casos de assassinato de pessoas e tal, ele prescreve e tem que ser destruído mesmo”, disse em entrevista

Mesmo assim, Lutterbach estranhou a destruição dos documentos. “É estranho […] que um processo de tamanha repercussão desapareça. Não é um processo… um homicídio simples aí, um furto, uma apropriação indébita, não. É um processo sério. É um caso que… duas vítimas cujos laudos não apresentaram resultado.”

Conjunto de morros na região de São Lourenço, em Niterói, onde fica o Morro do Vintém (Elaine Vilela / via Revista UFO)

No ano anterior, a Revista UFO publicou em seu site uma matéria especial de Claudeir Covo, engenheiro eletrônico e ufólogo, revisando o caso. A matéria incluía novas fotos dos locais feitas por colaboradores da região. Eles relataram a dificuldade em acessar o Morro do Vintém – que já tinha outro nome e foi difícil até de localizar. “Não sabíamos – e nem as pessoas a quem pedimos – que o morro fosse hoje um local de extrema periculosidade, dominado pela caótica situação que reina em boa parte do Rio de Janeiro”, escreveu Gevaerd.

“Mandei dezenas de e-mails para várias empresas de turismo da cidade e nenhuma sabia sua localização exata, pois o local pertence ao conjunto do Morro de São Lourenço, que é muito grande”, escreveu Elaine Villela, psicóloga clínica. “O local é assustador, com alguns trechos isolados e outros com residências muito pobres. Não aconselho a ninguém ir até lá sozinho. É um labirinto de caminhos irregulares, subidas tortuosas, entroncamentos e torres de alta tensão”, contou Rosenvaldo da Silva Ribeiro, advogado e fiscal aposentado da prefeitura de Niterói.

Em entrevista ao podcast de ufologia Hangar 18 postada em maio de 2020, Carlos Machado comentou que também teve dificuldades até para fotografar o Morro do Cruzeiro, do caso Hermes. “Quando cheguei a uma casa de dois andares que tinha uma sacada alta, o cidadão que morava ali me chamou. […] ‘Tá com intensão de subir o morro?’ Falei ‘tô, quero tirar uma foro lá de cima’. ‘Eu, se fosse você, não ia, não.’ Aí, eu: ‘Ué, mas por quê?’ ‘Não aqui tem muito tráfico, o pessoal é perigoso.’ […] Ele me deixou entrar […] e eu fui na janela e tirei uma foto do morro. Quando eu estava tirando as fotos do morro, eu percebi que tinham uns caras armados lá com metralhadoras […] e eles já estavam de olho em mim. Realmente, não dava pra eu subir lá sem autorização.”

Na mesma entrevista, ele fez vários comentários interessantes a respeito das Máscaras de Chumbo. Por exemplo, apresentou brevemente sua hipótese de que a explosão em Atafona tinha o intuito de “derrubar um OVNI” a fim de “fazer contato forçado”. Para ele, quem quer que os tenha levado até o morro naquela quarta-feira pode ter cobrado uma quantia em dinheiro – o que explicaria o sumiço da maior parte dos Cruzeiros que carregavam.

Hangar 18 e outros podcasts possuem episódios sobre as Máscaras. Muito são mais opinativos e especulativos do que factuais. O YouTube também está cheio de conteúdo sobre o caso. (Tudo isso começa a ser e repetitivo a partir de certo ponto, dado que as informações são limitadas.) Ao longo dos anos, a Revista UFO publicou sobre o caso diferentes vezes. Se você deseja ver uma reconstituição do caso, recomendo o Linha Direta de 2004.

Máscaras de chumbo encontradas no Morro do Vintém com Manoel e Miguel (via Elessandro de Almeida)

No programa de 1990, é mencionado que Mário Dias estava escrevendo um livro sobre o caso. Em sua entrevista ao podcast, Machado comentou que tratava-se de um romance baseado nas Máscaras de Chumbo, mas o material datilografado foi furtado do banco traseiro de seu veículo, que fora violado. Esse material teria sido o único a desaparecer no episódio. Acobertamento? Quem faria isso?

Em 1990, Dias levantou pontos curiosos. “Por exemplo, no curso desses 23 anos, muitas das pessoas que estiveram envolvidas no caso, investigando ou não, morreram misteriosamente ou sofreram problemas de saúde. […] como o delegado Venâncio Bittencourt, que morreu co coração em Campos, a onde ele nunca tinha ido, terra dos Máscaras de Chumbo. Foi lá passear e morreu […]. O comissário, que também teve um problema, Oscar Nunes, […] que esteve comigo no local, morreu. Teve um derrame cerebral e morreu. Dois policiais morreram violentamente assassinados.”

Estaria alguém tentando manter o mistério? Quem? Por quê?

Essas perguntas somam-se a todas as outras sobe o caso. O que Manoel e Miguel foram fazer no Morro do Vintém? Qual era o sentido do bilhete? O que eram as tais cápsulas? Quem as forneceu? E as iniciais M. A. S.? Para onde foi o dinheiro?

Sobram interrogações sobre as mortes. Considerando o tempo que já se passou, as limitações da investigação, os erros humanos e a própria natureza misteriosa do caso, é possível que nunca saibamos as respostas.

“A resolução de quase todo mistério de crime depende de algo que parece, ao primeiro olhar, não carregar qualquer relação com o crime original.”

– Elsa Barker (1869–1954), novelista, contista e poeta americana

Eduardo Oliveira

editor