Menos de três meses após Pearl Harbor, militares americanos responderam a invasores no espaço aéreo de Los Angeles, mas não houve bombas jogadas ou aviões abatidos. Por décadas, debateu-se sobre a natureza dos alvos: aeronaves japonesas, balões… ou outra coisa?
Nas primeiras horas de 25 de fevereiro de 1942, as luzes em várias cidades na costa ocidental dos Estados Unidos foram apagadas por preocupações com possíveis ataques dos japoneses. Holofotes poderosos varriam os céus em busca de aeronaves inimigas de uma Los Angeles estranhamente silenciosa. De repente, o silêncio foi quebrado pelo som de várias explosões: o Exército abrira fogo e a cidade estava sob ataque.
Após mais de uma hora de muito fogo antiaéreo e um apagão que persistiu até o amanhecer, a população exigia informações, mas ninguém parecia saber o que realmente acontecera. Apenas estilhaços de artilharia haviam caído do céu e testemunhos variavam muito. Com a guerra no Pacífico com constantes desenvolvimentos, o episódio conhecido como “Batalha de Los Angeles” saiu do centro das atenções públicas. Anos depois, a história ganharia uma etiqueta conspiratória ao retornar ao debate público. Teria o governo ocultado a verdadeira natureza do ocorrido? Com a persistência de uma série de perguntas na “Era Moderna da Ufologia”, a Batalha entrou oficialmente para a casuística ufológica.
Quase 80 anos se passaram e muito foi dito a respeito do episódio. Nos últimos anos, foi dada uma atenção especial a esse caso (e a outros incidentes) por meio de produções midiáticas, como documentários do History Channel, levantando sua possível natureza ufológica. Para compreender o que aconteceu naquela noite, precisamos observar o contexto geral. E isso requer voltar um pouco no tempo.

Na manhã de 7 de dezembro de 1941, a Marinha Imperial Japonesa lançou um ataque surpresa à base naval americana em Pearl Harbor, no Havaí. A ofensiva devastadora acertou 21 navios e 347 aviões, matou cerca de 2.400 pessoas e deixou outros 1.200 feridos. Os Estados Unidos declararam guerra ao Japão no dia seguinte.
Tensão Com a progressão da guerra, submarinos japoneses patrulhavam o Pacífico na costa dos Estados Unidos. Chegaram a afundar um navio às vistas de uma grande cidade. Alertas e apagões eram cada vez mais frequentes, com o medo de um ataque japonês rapidamente tomando conta de toda a costa ocidental.
Em, Juneau, Alaska, moradores foram instruídos a cobrir as janelas para um apagão noturno após rumores de que submarinos japoneses estavam à espreita. Outros rumores, de que um porta-aviões passava pela Baía de São Francisco, fecharam as escolas de Oakland e também causaram um apagão na cidade. Nesse dia, sirenes de defesa civil em viaturas policiais foram ouvidas por toda a cidade e foi ordenado silêncio de rádio. Seattle também apagou as luzes e 2 mil residentes danificaram vários estabelecimentos com as luzes acesas. Os rumores foram levados tão a sério que 500 tropas do Exército se moveram para a Walt Dysney Studios, em Burbank, Califórnia, para defender as instalações contra sabotagem e ataques aéreos.
Em 23 de fevereiro, menos de três meses após o ataque no Havaí, o Japão atacou o continente. Às 19h05 (hora local), o submarino japonês I-17 emergiu a cerca de 2,3 quilômetros de Santa Bárbara. Após mirar canhões de 5,5 polegadas na refinaria de Ellwood, os japoneses abriram fogo. O ataque durou 20 minutos e 13 projéteis explosivos caíram sobre as docas e as instalações próximas. As instalações com gasolina, alvos aparentes, não foram atingidas. Não houve baixas e os danos materiais foram pequenos, apenas $ 500.

As primeiras informações sobre o ataque levaram ao envio de aviões de caça para a área. Subsequentemente, três bombardeiros se uniram à tentativa de destruir o inimigo, mas sem sucesso. Acreditando que o ataque a Ellwood poderia ter sido uma forma de desviar sua atenção – e seus aviões -, comandantes das Forças Aéreas do Exército (AAF) relutaram em designar mais recursos para essa ação.
É importante saber que o ataque a Ellwood aconteceu apenas cinco minutos após uma declaração pública do Presidente Franklin Roosevelt de que “os amplos oceanos que foram anunciados no passado como nossa proteção do ataque tornaram-se campos de batalha sem fim nos quais estamos constantemente sendo desafiados por nossos inimigos”. A ação japonesa, claro, recebeu mais atenção do que as palavras de Roosevelt.
O impacto na opinião pública, porém, foi gigantesco. Uma invasão japonesa parecia não apenas plausível mas iminente. (Uma invasão, de fato, aconteceu. Menos de quatro meses depois, forças japonesas bombardearam Dutch Harbor, em Unalaska, Alasca, e suas tropas desembarcaram nas Ilhas Aleutas de Kiska e Attu.) Nipo-americanos leais que previram que uma demonstração seria feita em conexão ao discurso do presidente também profetizaram que Los Angeles seria atacada na noite seguinte. O Exército também estava convencido de que estava prestes a um ataque e manteve a prontidão até o dia seguinte. Jornais foram permitidos a anunciar que uma estado estrito de prontidão fora imposto.

No dia 24, a inteligência naval emitiu um aviso de que um ataque poderia ser esperado nas 10 horas seguintes. Segundo registros do Escritório de História da Força Aérea dos Estados Unidos, às 19h18, o sul da costa da Califórnia foi colocado em Alerta Amarelo, que indica detecção de aeronaves não identificadas. Naquela noite, luzes foram relatadas a partir da proximidade de instalações de defesa. Três horas depois, às 22h23 reverteu-se ao Alerta Branco (tudo limpo), mas a tensão manteve-se alta, com os militares achando que um ataque poderia acontecer a qualquer momento.
Ação Às 1h44 do dia 25, três estações de radar detectaram um objeto voador não identificado (OVNI) aproximando-se de Los Angeles. Às 2h, o plote estava a cerca de 200 km da costa. Às 2h15, baterias antiaéreas foram colocadas em Alerta Verde: prontas para atirar. Às 2h21, foi dada a ordem para o apagão. Por volta de 2h40, o OVNI estava a apenas 5 km da cidade.
Embora o OVNI tenha desaparecido dos radares pouco depois, avistamentos de aeronaves inimigas inundavam o centro de informações. Pilotos do 4° Comando Interceptador da AAF ficaram de prontidão, mas permaneceram no chão, aguardando por indicações de escala e direção de qualquer ataque, antes arriscar seus recursos limitados.

Aviões foram relatados em Long Beach às 2h43 e, minutos depois, um coronel de artilharia costeira viu “cerca de 25 aviões a 12 mil pés” (cerca de 3,6 km) sobre Los Angeles. A típica sirene de bombardeio soou e milhares de guardas aéreos foram convocados e assumiram suas posições.
Às 3h07, os artilheiros receberam a ordem de abrir fogo e o céu de Los Angeles foi tomado pela fúria e o caos. Metralhadoras calibre .50 e cápsulas antiaéreas de 12,8 libras foram disparadas pela 37ª Brigada de Artilharia Costeira.
Os disparos tornaram-se esporádicos uma vez que era vista uma grande variedade de alvos: de um caça solitário a uma esquadrilha de até 200 bombardeiros de grande altitude. Ao mesmo tempo, testemunhas igualmente competentes não viam coisa alguma. Informações divergentes sobre posição, altitude e velocidade das aeronaves aumentaram ainda mais a confusão. Alguns achavam que os aviões tinham a forma de pássaros; outros, que tinham a forma de balões ou dirigíveis.

Moradores em um raio de 65 km a partir da costa assistiram aos disparos e holofotes em colinas e telhados, o primeiro drama de guerra para cidadãos do continente. Os disparos estenderam-se até aproximadamente 4h15. Foi soado o alerta de que tudo estava limpo e o apagão foi encerrado por volta de 7h20 da manhã.
Mais de 1.400 projéteis de artilharia antiaérea foram disparados. Vários prédios foram atingidos por fragmentos e cinco civis morreram: três em acidentes de trânsito no apagão e dois por ataques cardíacos pelo caos da guerra. Há informações conflitantes sobre pessoas atingidas por estilhaços de artilharia.
The day after Pela manhã, os jornais tentavam sem muito sucesso explicar o que se passara durante a madrugada. Relatos iniciais mencionavam vários aviões inimigos sendo abatidos no sudoeste da cidade. Houve relatos de quatro aviões inimigos abatidos e caindo em chamas em uma interseção em Hollywood. Um policial disse ter visto dois aviões caindo no cone de um holofote. A polícia local, porém, encontrara apenas estilhaços dos projéteis e o Comando de Defesa Ocidental informou que nenhuma bomba fora jogada e nenhum avião fora abatido.

A confusão estava presente mesmo entre autoridades. “Foi apenas um alarme falso. Não havia aviões sobre Los Angeles noite passada; pelo menos, é o nosso entendimento”, disse o Secretário da Marinha William Franklin Knox em uma coletiva de imprensa em Washington. Também disse que o incidente foi resultado de nervosismo e ânimos exaltados e indicou que indústrias vitais próximas à costa deveriam se mover para o interior uma vez que “ataques sempre são possíveis”.
Um relatório do Exército feito para Washington pelo Comando de Defesa Ocidental pouco após o fim da ação indicou que a credibilidade dos relatos começou a cair com o fim do apagão. A mensagem previa que desenvolvimentos provariam que “a maioria dos relatos anteriores fora amplamente exagerada”. A Quarta Força Aérea indicara que não houve aviões inimigos sobre L.A. Mas o Exército não publicou essas conclusões. Aguardou mais um dia para ouvir adequadamente as testemunhas.
Com base nesses relatos, comandantes locais alteraram seu veredito: até cinco aviões não identificados sobrevoaram Los Angeles. Refletindo a suposição do General George C. Marshall, o incidente teria sido causado por agentes inimigos em posse de aviões comerciais em uma campanha de guerra psicológica.
Para Henry L. Stimson, Secretário da Guerra, “até 15 aviões poderiam estar envolvidos, voando a várias velocidades pelo que foi reportado oficialmente, como sendo ‘muito lentos’ a até 200 milhas por hora [322 km/h] e a uma elevação de 9 mil a 18 mil pés [de 2,7 a 5,5 km]”. Acrescentou duas hipóteses: eram aviões comerciais operados pelo inimigo a partir de instalações secretas na Califórnia ou no México ou eram aviões leves lançados a partir de submarinos japoneses.

Perguntas Dada a ausência de um ataque propriamente dito, os aviões foram interpretados com parte de uma missão japonesa de reconhecimento. Ou mesmo um grupo de aviões comerciais comandados por agentes inimigos com o intuito de espalhar o medo e o caos…
Com os militares garantindo que estavam fazendo seu melhor para averiguar os fatos, esse foi o mais próximo que o público chegou de uma explicação. Poderiam tratar-se de aviões japoneses fazendo reconhecimento para um ataque próximo, poderia ser uma forma que o inimigo encontrou para abalar a moral pública, poderia não ter sido nada… Quando todos buscam uma resposta emocionalmente abalados mas ninguém possui uma explicação, especulações encontram um caminho para imaginário público.
Um editorial do periódico local Long Beach Independent do dia 26 já suspeitava de uma conspiração de acobertamento. “Há uma reticência misteriosa sobre o caso todo e parece que alguma forma de censura está tentando impedir discussões sobre o assunto.” Na primeira página, lia-se que “as consideráveis confusão e excitação públicas” causadas pelo alerta, assim como seus “acompanhamentos oficiais espetaculares”, requeriam uma explicação cuidadosa.
Temores foram expressos para que alguns ataques falsos não minassem a confiança dos voluntários civis no serviço de alerta de aeronaves. Wendell Willkie, advogado e executivo que fora indicado pelo Partido Republicano à presidência em 1940 assegurou que, com base em sua experiência da Inglaterra, quando um ataque aéreo real começa “você não precisará debater a respeito – você simplesmente saberá”. Para ele, as autoridades militares agiram corretamente com o alerta de precaução, mas lamentou a discordância entre Exército e Marinha.
O deputado Leland Ford, de Santa Mônica, convocou um inquérito parlamentar alegando que “nenhuma das explicações oferecidas até agora removeram o episódio da categoria de ‘mistificação completa'”. “Essa foi uma incursão de prática, uma incursão para assustar 2 milhões de pessoas, uma incursão com identidade enganada ou uma incursão para levar as indústrias bélicas do sul da Califórnia para longe”, acrescentou.
No dia 27, um editorial pesado do Washington Post chamou a forma como o episódio era tratado de “receita de temores” e censurou as autoridades militares pelo “silêncio teimoso” diante da incerteza difundida. O texto sugeria que a teoria do Exército (envolvendo aviões comerciais) “explica tudo, exceto de onde vieram os aviões, para onde estavam indo e por que nenhum avião americano foi enviado para persegui-los”.
No dia seguinte, o New York Times dizia que quanto mais o incidente era investigado, mais incrível ficava. “Se as baterias estavam disparando contra nada, como diz o Secretário Knox, é um sinal de grandes incompetência e nervosismo. Se as baterias estavam atirando contra aviões reais, alguns deles tão baixo quanto 9.000 pés [2,75 km], como declara Stimson, por que foram completamente ineficazes? Por que nenhum avião americano decolou para confrontá-los ou mesmo identificá-los? […] O que teria acontecido se esse tivesse sido um ataque real?”
Para que o Departamento de Guerra encontrasse as respostas, seria necessário expor uma série de fraquezas das defesas aéreas… Antes que isso acontecesse, sendo ou não uma ameaça real, a Batalha levou a muitos incidentes infelizes e incomuns – especialmente na comunidade nipo-americana de Los Angeles. Dias após o episódio, Roosevelt emitiu a Ordem Executiva 9066, que convocou a internação dessas pessoas. Mais de 30 foram presas naquela noite com diversas acusações de “sinalizar ao inimigo” a ter um “dial de rádio ativo”. Em Venice, o FBI conduziu uma mãe japonesa de 51 anos e seus dois filhos após um jornal local mencionar que um cidadão “notificou autoridades de ter visto luzes na casa deles piscando de forma suspeita”.
Até a imprensa se envolveu, com o Los Angeles Examiner alegando que “12 foram presos por, supostamente, lançar balões de papel que depois se consumiram em chamas, transformando-se em sinalizadores que ‘caíram em rotações de 3 brancos e 3 vermelhos'”. A manchete era chamativa: “Luzes Sinalizadoras Ascendem em Área Japonesa Durante Bombardeio”.
(Para quem se interessa por esses assuntos, vale a pena ler sobre a internação. De fevereiro de 1942 a março de 1946, 120 mil americanos de ascendência japonesa foram enviados para “instalações de realocação” nos Estados ocidentais. Para alguns autores, foi o maior erro da administração de Roosevelt.)
Alvos Com o fim da guerra, em 1945, a Batalha de Los Angeles ganhou atenção novamente. Documentos outrora confidenciais revelaram que o Exército conduzira uma investigação pouco depois do fim do apagão. Testemunhos de militares e civis revelaram alguns detalhes interessantes.
O fogo fora aberto após um sinalizador vermelho amarrado a um balão ter sido visto sobre Santa Mônica. Algumas baterias dispararam contra alguns alvos aéreos que incluíam balões, dirigíveis e aviões. Uma unidade até relatou ter deixado uma aeronave inimiga em chamas pouco depois da abertura do fogo. Algumas viram e ouviram os aviões.
Apesar dos relatos conflitantes, uma conclusão foi escrita em 22 de março: “Foi averiguado definitivamente que o apagão e o fogo antiaéreo […] foram causados pela presença de um a cinco aviões não identificados. Enquanto é possível que esses aviões tenham sido lançados de submarinos japoneses, é mais provável que fossem aviões civis ou comerciais operados [por] pilotos não autorizados.”
O envolvimento japonês foi descartado após a confirmação de que não enviaram nenhum avião para as proximidades de Los Angeles naquela noite. (Porém, aviões lançados a partir de submarinos foram empregados em Seattle mais tarde na guerra.) Quaisquer aviões observados teriam outra origem, nas Américas. Isso, por sua vez, parecia extremamente improvável. Uma busca minuciosa com participação do Escritório Federal de Investigação (FBI) não levantou nada.
Foi assim que a Batalha de Los Angeles ficou à mercê de especulações. Em 1948, outra hipótese ganhou força. Naquele ano, William Goss, ex-major da Força Aérea do Exército e professor universitário, pesquisou o incidente a fundo para a então recém-criada Força Aérea dos EUA. Ele teve acesso total aos registros militares relevantes e chegou à conclusão de que balões meteorológicos foram os responsáveis.
Balões meteorológicos eram lançados a partir de cada uma das doze posições de artilharia antiaérea ao redor da cidade a cada seis horas. Os balões eram iluminados por baixo por uma lamparina para que a luz fosse refletida pelo revestimento prateado do balão, assegurando sua visibilidade à noite.
Como já vimos, o fogo fora provocado por um balão carregando um sinalizador vermelho. Pelo menos três oficiais testemunharam que identificaram o alvo como um balão meteorológico e um deles, Coronel Watson, decidiu não atirar após saber que um balão meteorológico havia mesmo sido lançado por um dos regimentos. (Ele não viu aviões.) Seu depoimento foi corroborado pelo General Fikel, que alegou acreditar que alguns alvos eram dois balões meteorológicos lançados por unidades antiaéreas perto de Hollywood. (Para ele, até 5 aviões sobrevoaram Los Angeles.)
Documentos sugerem que artilheiros de apenas uma bateria não acharam que os balões eram aviões e abriram fogo. A Bateria D do 203º Regimento de Artilharia Costeira, a única que não atirou, estava diretamente abaixo da trajetória da suposta aeronave. Fora esta a companhia que havia mais recentemente lançado seus balões, às 3h – pouco antes do início do fogo. Posteriormente, o pessoal da bateria foi instruído a não mencionar os balões e o comandante, Coronel Ray Watson, foi reformado.
Um balão explica a velocidade baixa do alvo. O OVNI teria levado 30 minutos para cobrir uma distância de cerca de 40 km. De fato, unidades de artilharia foram criticadas por não considerarem a velocidade.
A Associação de Artilharia Costeira dos EUA, documentando o episódio em 1949, também chegou à conclusão de que um balão meteorológico “iniciou todo o tiroteio”. “Uma vez que o fogo começou, a imaginação criou todos os tipos de alvos no céu e todos participaram [do fogo antiaéreo].”
Respostas Em 1983, a agência de pesquisa histórica da Força Aérea também concluiu que balões meteorológicos foram parte fundamental da confusão. Mas a hipótese do balão também levanta algumas perguntas. Por exemplo, por que o exército abriria fogo contra um simples e inofensivo balão?

Uma explicação pode vir de John Murphy, ex-coronel do Exército que participou da investigação. Em 1949, ele escreveu um artigo alegando que, quando o Controlador Regional em São Francisco recebeu a informação de um balão sobre Los Angeles, ele interpretou erroneamente e pensou em um grande zepelim. Então, ele deu a ordem para que abrissem fogo – mesmo sem ter autorização para tal.
Isso é corroborado pela investigação do Exército, que ressaltou que a “responsabilidade pela abertura do fogo deve estar com o Comandante Anti Aeronaves – não o Controlador”.
Outra pergunta, porém, permanece sem resposta até hoje. Como 1.400 projéteis antiaéreos não conseguiram derrubar um mero balão? A falta de uma resposta para essa pergunta alimenta, ideias conspiratórias há décadas. Para ajudar, o correspondente do LA Times Bill Henry escreveu que o OVNI sobreviveu a impactos diretos dos projéteis. Na mesma coluna, poucas linhas abaixo, ele escreveu que o OVNI se parecia com “um punhado de balões só flutuando com o forte vento noturno”. Em 1949, Murphy escreveu que “ambos os balões, pelo que me lembro, flutuaram para longe majestosamente e em segurança”.
A flexibilidade de balões e dirigíveis age de forma protetiva contra fogo antiaéreo ate certo ponto, uma vez que o revestimento de deforma para absorver a energia da onda de choque da explosão do projétil sem se romper. Então é possível que o balão tenha sofrido com as explosões sem ser abatido de forma imediata.
Além disso, não é garantido que um balão ou dirigível com gás hidrogênio entrará em chamas ao ser atingido por ondas de choque, estilhaços ou artilharia comum. Na Primeira Guerra Mundial, o zepelim L33 foi atingido por fogo antiaéreo sem incendiar-se. Forçada a pousar em território britânico, a tripulação incendiou o zepelim. Caças só começaram a ter sucesso contra zepelins quando usavam uma mistura de projéteis explosivos e incendiários (contendo fósforo). Essa combinação invariavelmente causava a ignição do gás hidrogênio.
Mesmo assim, um balão sobrevivendo a fogo antiaéreo da magnitude vista naquela noite parece bastante improvável. A não ser que… não tenham sobrevivido. Um guarda antiaéreo anônimo alegou que o fogo concentrou-se em uma “grande sacola que parecia-se com um balão”. Ele disse ter visto essa sacola ter sido despedaçada pelo fogo disparado e que ela caiu lentamente.
Existe ainda uma explicação mais simples. O tipo de balão meteorológico nunca ficou claro, mas é relativamente seguro presumir que o balão estava em ascensão durante o ataque de artilharia – assim como era levado pelo vento. A dificuldade em acertar um alvo que se move vertical e horizontalmente pode explicar como o balão sobreviveu tanto tempo.

Uma variação da hipótese do balão envolve um Fu-Go, um balão japonês usado para bombardeios. O problema com essa história é que esses balões só foram usados conta os EUA a partir de 1944. Sua existência foi mantida em segredo até um balão bomba matar 6 pessoas no Estado do Oregon. Se dispositivos chegaram a Los Angeles, os EUA e o Japão não possuem registros.
Até onde se sabe, a ideia de balões como armas de longo alcance surgiu em um estudo britânico de 1937. A Operação Para Fora (Outward) foi aprovada no final de 1941 e lançou seus primeiros balões ofensivos em março do ano seguinte, passando pelo Dia D e encerrando-se em setembro de 1944. Embora altamente improvável, não é impossível que estes balões de curto alcance e baixa altitude – que eram um pé no sapato da Luftwaffe por um custo baixo – estivessem presentes na costa ocidental do EUA.
Fumaça A fumaça das explosões da munição antiaérea tornaria a visibilidade dos balões muito menor ou mesmo nula. Por si só, essa fumaça pode ter alimentado a confusão. Iluminada pelos holofotes, as nuvens de fumaça de tantos projéteis (e nervos de guerra) foram confundidas com aeronaves inimigas.
Uma fotografia publicada pelo LA Times na manhã seguinte ao incidente mostra como nasceu a ilusão. Houve certa controvérsia envolvendo o retoque da fotografia original. Também há outra versão, publicada em 1945, com a imagem invertida horizontalmente e as explosões ampliadas. Ao contrário do que se pensa, retoque fotográfico não era algo incomum na época.

Na imagem, os holofotes parecem convergir seus feixes para algo indiscernível no céu. Poderia ser um avião, um balão, uma nuvem de fumaça… Quem sabe até uma nave extraterrestre… É comum que pessoas vejam a forma clássica de um disco voador. O que vejo é uma região do céu ocupada por fumaça e duas explosões que acentuam a forma do OVNI.
Em 10 de março de 2011, Scott Harrison publicou no site do L.A. Times uma atualização a respeito da Batalha e a fotografia recebeu atenção especial. “Na versão retocada, muitos fachos de luz foram clareados e alargados com tinta branca, enquanto outros fachos foram eliminados. […] [Naquela época,] era comum os jornais usarem artistas para retocar imagens por causa da reprodução pobre – basicamente, 10 tons de cinza, se você tivesse sorte.” Ele concluiu: “o retoque foi necessário para reproduzir a imagem. Mas, cara, eu queria que o retoque tivesse sido mais fiel à [fotografia] original. Com nossos padrões atuais, essa imagem não seria publicada.”
Algumas das manchas claras nas imagens podem ser efeitos óticos das lentes – e também foram retocados com tinta branca. Isso pode ter ajudado a criar a impressão de um objeto real na área para onde os holofotes convergem.
Outras fotografias daquela noite também são desprovidas de clareza, mas nenhuma parece retratar qualquer forma de OVNI.

Considerando esses fatos, não é difícil desenhar uma linha do tempo do incidente. Por volta de 1h, um balão meteorológico é lançado. Relatos de um balão são mal interpretados como os de um zepelim e o fogo é aberto pouco depois das 3h. O balão é derrubado pela artilharia ou escapa ganhando altitude. Em meio a todo esse caos, um segundo balão é lançado e tudo se repete. Enquanto isso, a fumaça criada por mais de mil explosões cria a ilusão de vários alvos.
A última parte é baseada no depoimento do Coronel Henry C. Davis, Oficial Executivo e Comandante em Exercício da 37ª Brigada. Por alguns minutos ele achou haver de 10 a 15 aviões sobre Inglewood, mas logo percebeu tratar-se de fumaça das explosões antiaéreas levadas pelo vento. (Ele também não acreditava que havia aviões inimigos.)
Radares Em algumas fontes, lê-se que caças decolaram para tentar abater as aeronaves invasoras. Isso não é verdade. Embora isso tenha sido veiculado na época, foi refutado quase imediatamente por autoridades, inclusive dizendo que os aviões amigos poderiam ser abatidos pelo fogo antiaéreo.
Outro ponto também foi mencionado pela investigação de 1948. “Não tínhamos muitos caçadores. Tínhamos 15 aviões em três lugares diferentes, um total de 45. Se isso fosse um reconhecimento precedendo um portador [de aeronaves de ataque]… Não queríamos ter nossos caças no ar com combustível pela metade quanto o ataque chegasse. Não quisemos correr o risco.”

Autoridades governamentais refutando umas as outras em um incidente envolvendo OVNIs é combustível para o fogo ufológico. E o radar também.
No começo, comentei que três estações de radar reparadas detectaram um OVNI às 1h44. Esse OVNI foi acompanhado até estar a 5 km de Los Angeles – onde desapareceu. Durante o fogo antiaéreo, várias estações de radar escanearam a região que os holofotes varreram e não viram alvo algum. O tal OVNI nunca mais apareceu nos radares.
É necessário salientar que os radares disponíveis deixavam muito a desejar. (Afinal, era 1942…) Pouco antes da Batalha de Los Angeles, Robert Watson-Watt, britânico pioneiro em radar, conduziu uma análise detalhas dos sistemas americanos de alerta antecipado. Em janeiro de 1942, Watson declarou que o equipamento de radar na Costa Oeste era “gravemente inadequado”. Ele ressaltou o “grave perigo de plotar alvos falsos”. Além disso, o pessoal de radar não possuía o treinamento suficiente para operar as estações de forma adequada.
Uma análise complementar do Exército, completada no início de fevereiro, confirmou o parecer de Watson e descreveu as condições do Comando de Defesa Ocidental como “inteiramente inadequadas”. Mesmo assim, é muito estranho que os alvos fossem visíveis a olho nu e binóculos mas fossem invisíveis ao radar.
Memória A Batalha de Los Angeles persiste como curiosidade histórica. Desde 2001, anualmente em fevereiro, o Museu de Forte MacArthur, no porto de Los Angeles, apresenta o evento O Grande Ataque Aéreo a L.A. de 1942, encenando os acontecimentos da noite do incidente.
A comédia cinematográfica 1941, lançada em 1979 e dirigida por Steven Spielberg, retrata o pânico na região de Los Angeles após o ataque a Pearl Harbor. O enredo é vagamente inspirado pela Batalha de Los Angeles e o bombardeio da refinaria de Ellwood.
Há cerca de dez anos, estava sendo promovido o filme Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles. Lançado em 2011, a obra de sci-fi e ação militar de Jonathan Liebesman acompanha o líder de um pelotão de fuzileiros com a missão de resgatar civis em Los Angeles durante uma invasão alienígena global. O material de divulgação incluiu uma versão alterada da famosa foto publicada pelo LA Times com manchetes falsas como material histórico real. Larry Harnisch, do periódico, comentou que “se a campanha de publicidade queria estabelecer a pesquisa de OVNIs como nada além de mentiras e falsificações, não poderia ter feito um trabalho melhor”.
Quanto ao que realmente ocorreu, diferentes hipóteses e crenças encontram espaço no imaginário popular – e nos resultados de busca na internet. Evidências fortes validam a hipótese do balão meteorológico. Quanto aos radares, sabemos que eram sujeitos a falhas que poderiam dar indicações como as obtidas no episódio, mas há a indicação positiva de que isso de fato ocorreu?
Alegar que era algo de natureza ufológica, para mim, pode ser um passo maior do que as pernas. Dentro da ufologia, por vezes, se fala em um objeto grande e silencioso atravessando a cidade imune à ação humana, mas precisamos ignorar um grande volume de informações para que essa hipótese funcione. Quanto aos avistamentos de aeronaves japonesas, vimos o quanto o pânico e a histeria podem interferir na percepção das testemunhas. Isso também pode explicar os soldados relutantes em admitir que atiraram em sombras e fumaça e dizendo a seus superiores que viram uma aeronave inimiga no céu. (E até que as viram em chamas…)
É plenamente plausível que nada demais tenha sobrevoado Los Angeles naquela noite. O fogo fora aberto por ânimos exaltados de guerra, erros de interpretação e até algumas trapalhadas militares. Como Knox disse, um alarme falso.
Pouquíssimas testemunhas ainda estão vivas e nenhuma informação é adicionada há décadas. É possível que alguns os detalhes do incidente nunca sejam explicados.
“Apenas os mortos viram o fim da guerra.”
– Homero (928-898 a.C.), poeta épico grego
Eduardo Oliveira,
editor