Estimativa inicial era cerca de R$ 100 mi; expansão requer retirada de quilombolas. Nova torre de montagem de foguete possui menor risco de acidentes.
Sérgio Rezende, ministro de Ciência e Tecnologia, lançou nesta sexta-feira (10/09/2010) ontem a pedra fundamental do sítio de de lançamento do foguete Cyclone-4 na base de Alcântara, Maranhão, já com um novo alvo em vista: a porção nordeste da península que forma o município, onde vivem 2.000 quilombolas.
A Aeronáutica e o Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) pleiteiam uma área de 12.645 hectares para expandir o Programa Espacial Brasileiro. Os quilombolas, que tiveram suas terras reconhecidas pela Justiça mas ainda aguardam sua homologação, dizem que não vão ceder.
A resistência dos descendentes de escravos já fez com que as atividades da Alcântara Cyclone Space (ACS), binacional brasileira e ucraniana que prevê iniciar suas operações em 2012, fossem confinadas ao Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), da Aeronáutica. Originalmente o sítio deveria ficar num local vizinho à base, terra quilombola.
Mas os quilombolas não acham que o conflito com as atividades espaciais esteja resolvido. "Vamos achar quando nossas terras estiverem tituladas" diz Samuel Araújo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alcântara.
Na sexta, três representantes de comunidades quilombolas ouviram, ressabiados, o diretor brasileiro da empresa, Roberto Amaral (ex-ministro de Ciência e Tecnologia), criticando-os veladamente pelos atrasos no programa.
"Não temos culpa se atrasou. Cada comunidades tem direito de garantir seu próprio território", diz Araújo.
A próxima briga quilombola é com o próprio CLA, que aguarda parecer da Advocacia Geral da União um pedido de cessão de 12.645 hectares para o programa.
Segundo o coronel-aviador Ricardo Rangel, diretor do CLA, a área é vital para projetos como os foguetes da família Cruzeiro do Sul, que devem substituir o Veículo Lançador de Satélites (VLS).
Rangel diz que os requisitos de segurança, como um raio de 10 km livres em volta do sítio de lançamento, tornam necessária a expansão. "Hoje nós temos reservados 8.731 hectares para o CLA. Isso só permite o sítio do VLS e o da ACS", afirma.
Não é o suficiente para foguetes maiores, capazes de colocar em órbita satélites geoestacionários, ou lançamentos em órbita polar, diz. "Um lançamento polar teria de passar por cima da cabeça das comunidades. Se perdermos o setor nordeste, fica muito difícil fazer lançamento polar", continua.
Para ele, "é preciso decidir entre o interesse de 2.000 pessoas que moram no setor Nordeste versus 190 milhões de brasileiros."
Quer pagar quanto? A ACS deve custar ao país quase R$ 1 bilhão. O valor é dez vezes maior do que o estimado inicialmente para o capital da parte brasileira da empresa.
Especialistas têm apontado que, com a escalada de custos e com o tamanho limitado do mercado de lançamentos comerciais de satélites, a empresa pode ficar deficitária por até duas décadas.
Os custos incluem a construção do sítio de lançamento do foguete Cyclone-4 no CLA, orçado em R$ 519 milhões. Esse valor é o capital brasileiro da empresa. Um aporte de igual montante é esperado da Ucrânia, que enfrenta dificuldades financeiras após a crise de 2008.
Além disso, há obras dentro e fora do CLA que servirão à ACS e que são de responsabilidade do governo brasileiro. Entre elas estão um porto e uma estrada no valor de R$ 180 milhões; construções que servirão tanto ao CLA quanto à ACS, de R$ 110 milhões; e obras dentro do próprio sítio do Cyclone de R$ 145 milhões.
Segundo o diretor de Licenciamento da AEB (Agência Espacial Brasileira), Nilo Andrade, a agência já pediu crédito suplementar para essas ações, além do previsto na proposta de Orçamento da União para 2011.
Um ponto polêmico das obras que o Brasil fará no sítio do Cyclone é a construção de um depósito de combustível para o foguete, orçado em R$ 35 milhões. O combustível, hidrazina, é tóxico e não é usado pelos foguetes brasileiros.
Contra o tempo Será uma corrida contra o tempo: as obras no sítio ainda não começaram, nem o foguete está pronto.
Abandonados pelos seus parceiros russos na fase de desenvolvimento, os ucranianos tiveram de refazer o sistema de controle do Cyclone-4 com tecnologia própria.
Segundo o diretor ucraniano da empresa, Oleksandr Serdyuk, o sistema novo já foi testado com sucesso, mas faltam US$ 70 milhões para completar o foguete, que devem vir de bancos europeus. "O problema agora não é o lançador, é o sítio de lançamento", disse.
Mesmo iniciando as operações no prazo, não há clareza ainda sobre que fatia do mercado a ACS abocanharia.
Rezende diz que a empresa fará de quatro a cinco lançamentos por ano. Amaral, fala em seis. Segundo ele, a empresa começaria a dar retorno em seis anos, cobrando até US$ 50 milhões por lançamento.
Um ex-diretor da ACS, João Luiz Azevedo, fez outra conta na reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em julho. Segundo ele, os custos crescentes da empresa e o mercado reduzido fariam com que a ACS ficasse 28 anos deficitária. Outros partilham sua opinião.
A principal limitação é o fato de que 40% dos satélites do mundo são americanos. Como o Brasil não tem um acordo de salvaguardas tecnológicas com os EUA, a ACS ficaria vedada a essa fatia.
"Tudo é arriscado", afirmou Rezende sobre montar uma empresa mesmo sem mercado garantido. Ele considera que a ACS vale o risco por ser estratégica. Ela daria a chance ao país de ter um foguete próprio, já que há uma promessa da Ucrânia de repassar tecnologia do Cyclone ao país e o VLS-1 não servirá para lançar os satélites brasileiros.
O ministro afirmou que pretende propor um novo acordo com os EUA, só para a área de satélites.

Segurança A Aeronáutica resolveu minimizar a chance de um novo acidente com o VLS-1 reduzindo o número de técnicos na área de risco e criando uma estrutura que permite a fuga de incêndios.
A estimativa é de que a nova Torre Móvel de Integração (TMI) – de R$ 43 milhões –, onde o foguete será montado e lançado fique pronta em dezembro. Ela passou mudanças em relação à que foi destruída em agosto de 2003, matando 21 técnicos.
O VLS agora será monitorado por sensores montados numa segunda torre, para detectar qualquer risco de incêndio ou explosão.
Segundo o diretor do CLA, só serão admitidas seis pessoas de cada vez em atividade de risco junto ao foguete. Em 2003, eram mais de 20.
Ao lado da TMI foi construída uma torre de concreto para possibilitar fugas.
Todos os quatro andares têm três buracos: um tem escadas, outro um tubo de ferro (como em quartéis de bombeiros) e outro – para fugas rápidas – de onde o sujeito simplesmente se joga, caindo num colchão de ar no subsolo, num túnel.
Há portas corta-fogo, mas elas não resistem muito tempo diante de uma temperatura de 2.000°C estimada numa ignição como a de 2003. "Percebeu que tem problema, se manda", resume Rangel.
"Foguete nacional deve voar em 2015, mas orçamento é problema", 09/09/2010