Identificação inédita no Brasil aponta para colisão importante de asteroide ou cometa. Minerais foram batizados em homenagem ao Estado de MG.
Em novo estudo, pesquisadores da Universidade de Campinas (Unicamp), SP, encontraram sinais de um grande impacto ocorrido no Brasil há cerca de 6 milhões de anos. A equipe foi liderada pelo Professor Alvaro Crósta e o artigo está no periódico Geology.
Pela primeira vez, foi identificado no Brasil um campo de tectitos, vidros naturais formados pelo impacto de um corpo extraterrestre com a Terra. Até então, apenas cinco grandes campos de tectitos eram conhecidos: Australásia, Europa Central, Costa do Marfim, América do Norte e Belize.
Os minerais gerados pela colisão foram batizados de geraisitos, em homenagem ao Estado de Minas Gerais. (Perderam a chance de batizar de mineirito.) Isso porque as primeiras amostras foram encontradas no norte de MG, numa faixa com cerca de 90 km, nos municípios de Taiobeiras, Curral de Dentro e São João do Paraíso. Posteriormente, os geraisitos foram encontrados também na Bahia e no Piauí, ampliando a área para mais de 900 km de extensão.
“Esse crescimento da área de ocorrência é totalmente compatível com o que se observa em outros campos de tectitos no mundo. O tamanho do campo depende diretamente da energia do impacto, entre outros fatores,” explicou Crósta.

(Mineiritos) Geraisitos Já foram coletadas mais de 600 amostras de geraisitos, variando de menos de 1 g até 85,4 g, com até 5 cm no eixo maior. As formas são típicas de tectitos aerodinâmicos – esféricas, elipsoidais, gotas, discoides, halteres ou torcidas.
Embora negros e opacos numa primeira observação, os geraisitos tornam-se translúcidos sob luz intensa, com coloração verde-acinzentada, distinta dos moldavitos europeus, usados como joias desde a Idade Média. Suas superfícies são marcadas por muitas cavidades.
“Essas pequenas cavidades são vestígios de bolhas de gás que escaparam durante o rápido resfriamento do material fundido durante a viagem pela atmosfera, um processo também observado em lavas vulcânicas, mas especialmente característico de tectitos,” explicou o professor.
Análises geoquímicas mostram que os geraisitos têm entre 70,3% e 73,7% de sílica (SiO2). Os teores combinados de óxidos de sódio (Na2O) e potássio (K2O) variam entre 5,86% e 8,01%, ligeiramente superiores aos observados em outros campos de tectitos.

Foram identificadas pequenas variações em elementos-traço, como cromo,10-48 partes por milhão, e níquel, 9-63 ppm – indicando que o material original não era completamente homogêneo. Inclusões raras de lechatelierita, uma forma de sílica vítrea produzida em temperaturas extremas, reforçam a origem por impacto.
“Um dos critérios decisivos para classificar o material como tectito foi o baixíssimo teor de água, medido por espectroscopia no infravermelho: entre 71 e 107 ppm. Para comparação, vidros vulcânicos como a obsidiana costumam conter de 700 ppm a 2% de água, enquanto tectitos são notoriamente bem mais secos,” explicou Crósta.
Impacto As datações das amostras indicam que o impacto ocorreu há cerca de 6,3 milhões de anos, no final do Mioceno. As amostras foram divididas em três grupos de idades próximas (6,78, 6,40 e 6,33 milhões de anos). Como a incerteza nessas medições é de apenas 20 mil anos, os dados são compatíveis com um único impacto.
“A idade de 6,3 milhões de anos deve ser interpretada como uma idade máxima, pois parte do argônio [usado na datação] pode ter sido herdada das rochas extremamente antigas que serviram de alvo ao impacto,” disse Crósta.

Até o momento, os pesquisadores não conseguiram identificar uma cratera associada ao impacto. Segundo Crósta, isso não é incomum. Dos seis grandes campos de tectitos conhecidos, apenas três têm crateras conhecidas. No maior deles, da Australásia, que se estende por milhares de quilômetros, a cratera é hipoteticamente oceânica.
“Métodos aerogeofísicos, como levantamentos magnéticos e gravimétricos, poderão no futuro revelar anomalias circulares associadas a uma cratera enterrada ou erodida.”
Embora ainda não seja possível estimar com precisão o tamanho do corpo impactante, os pesquisadores consideram improvável que tenha sido pequeno. A grande quantidade de material fundido e a ampla área de espalhamento indicam impacto importante.