ROS utilizará segmento russo da ISS. Decisão foi influenciada por sanções internacionais e recursos reduzidos pela guerra na Ucrânia.
A Estação Espacial Internacional (ISS) foi originalmente projetada para 15 anos de serviço, mas sua vida útil foi estendida diversas vezes. Hoje, alguns de seus módulos já têm 27 anos. Com isso, a necessidade de manutenção se torna cada vez maior e seus benefícios científicos diminuem – tornando cada vez menos interessante manter extensões de vida útil.
A estação está programada para ser desativada em 2030. Com o fim das atividades da ISS, diferentes agências espaciais governamentais e empresas privadas têm planos para suas próprias estações sucessoras.
A China, por exemplo, planeja dobrar o tamanho de sua estação Tiangong e a Organização Indiana de Pesquisa Espacial quer lançar a Estação Bharatiya Antariksh – com o primeiro módulo previsto para entrar em órbita em 2028. A lista de estações privadas em desenvolvimento inclui a Orbital Reef, da Blue Origin, a LOOP da Airbus, a Axiom Station, da Axiom Space, a Haven-1, da Vast, e a Starlab, da Starlab Space.
A Roscosmos, agência espacial russa, também está trabalhando nos planos de uma nova estação espacial. O assunto passou a ser mais debatido na agência nos últimos anos, após reações internacionais à invasão da Ucrânia, em 2022.
De acordo com uma declaração recente de Oleg Orlov, diretor do Instituto de Problemas Biomédicos da Academia Russa de Ciências, a Estação Orbital Russa (ROS) incluirá os módulos que compõem o segmento russo da ISS: Zarya, Zvezda, Poisk, Rassvet, Nauka e Pricha. O anúncio foi feito em 18 de dezembro, em uma coletiva de imprensa no centro multimídia de imprensa internacional da Russia Today (RT), em Moscou.
Orlov disse que uma comissão especial vem trabalhando nesse processo há vários meses. A decisão reflete a posição geopolítica da Rússia em meio à guerra em curso na Ucrânia, caracterizada por sanções internacionais, rompimento de acordos e recursos reduzidos.
Planos Inicialmente, oplano original para a nova estação foi criado a partir do conceito do Complexo Orbital Tripulado de Montagem e Experimentação (OPSEK), proposto em 2009. Essa estação deveria incluir os módulos que compunham o segmento russo da ISS, mas o plano foi abandonado em 2017, após um estudo de viabilidade demonstrar que era mais vantajoso manter a participação russa na estação internacional.
Em 2021, a Roscosmos anunciou que essa participação terminaria em 2024, citando preocupações com a condição de seus módulos – alguns dos quais têm quase três décadas de uso. Nesse ponto, o OPSEK foi renomeado para Estação Russa de Serviço Orbital (ROSS, em russo, rossiyskaya orbitalnaya stantsiya, ROS). Esse plano não incluiria mais os módulos russos da ISS.
O lançamento do primeiro módulo, para experimentos científicos e fornecimento de energia, estava previsto para 2027. Até 2030, a Roscosmos planejava lançar outros três módulos que formariam o núcleo da estação, incluindo o Nó Universal (UNM), o Gateway (SM) e o Módulo Base (BM).
Até 2035, seriam mais três módulos seriam adicionais, com a possibilidade de um habitat privado para turismo espacial. A estação proposta acomodaria uma tripulação de dois ou mais cosmonautas e seria capaz de operar autonomamente por meses, se necessário.
Novos planos O conceito mais recente para a Estação Orbital Russa (ROS) reflete a situação que a Roscosmos enfrenta nos últimos anos, devido às sanções sofridas pela Rússia e ao término de cooperações internacionais após a invasão da Ucrânia.
De acordo com o Orlov, a Rússia separará seus módulos da ISS assim que o programa for concluído em 2030. Esse segmento será o núcleo da ROS, com outros módulos a serem adicionados posteriormente.
“O Conselho Científico e Técnico da Roscosmos apoiou esta proposta e aprovou a implantação de uma estação orbital russa como parte do segmento russo da ISS como o principal cenário possível”, disse Orlov, citado pela agência de notícias estatal russa TASS.
Orlov também informou que a ROS terá inclinação orbital de 51,6°, escolhida por razões geopolíticas. Essa órbita permitirá que a Rússia lance de suas bases mais modernas, construídas para reduzir a dependência do Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão. Poderão ser usados os Cosmódromos de Plesetsk, no norte da Rússia, e de Vostochny, no Extremo Oriente russo. Isso se tornou ainda mais importante após danos a uma plataforma de lançamento em Baikonur suspenderam temporariamente todos os voos da Roscosmos para a ISS.
Este anúncio reflete o que Denis Manturov, Primeiro Vice-Primeiro-Ministro da Federação Russa, disse em 5 de dezembro em uma coletiva de imprensa no Centro Nacional Rossiya. Na ocasião, ele afirmou que, no final de novembro, a Academia Russa de Ciências decidiu alterar o plano para uma estação em órbita polar, de 96°. Isso possibilitaria observações sobre toda a Rússia e experimentos próximos ao polo norte magnético para estudar o impacto de raios cósmicos sobre organismos vivos. Próximo aos polos, o campo magnético da Terra oferece muito pouca proteção contra essa radiação.
Essa nova órbita ainda permitirá que a Rússia lance a partir de seus cosmódromos domésticos. Manturov também afirmou que a Índia está considerando a mesma órbita para a Estação Bharatiya Antriksh e que isso possibilitaria cooperação internacional.
Incertezas No entanto, alguns russos duvidam que a ISS permaneça operacional por tempo suficiente para que tal cooperação se concretize. Maria Sokolova, escrevendo no jornal russo New Izvestia, criticou duramente o plano para “reciclar” os módulos.
A principal questão, segundo ela, são os comentários feitos pelo próprio Orlov em 2022 afirmando que o crescente problema de bactérias e fungos acumulados na ISS ao longo do tempo representava uma ameaça à segurança dos tripulantes. A declaração foi feita em entrevista à agência estatal russa RIA Novosti, quando foi questionado sobre o motivo dos módulos do segmento russo não poderem ser usados para criar a nova estação.
“Uma análise dos resultados do monitoramento microbiológico do habitat dos módulos [do segmento russo] da ISS, realizado no âmbito das operações de controle médico permanente, indica que o estado do habitat da ISS está se deteriorando. Trata-se de um processo objetivo. Os resultados generalizados mostram que, em 65% das amostras analisadas das últimas expedições, foram encontrados microrganismos em quantidades que excedem os limites regulamentares. Entre os representantes da flora bacteriana isolados do habitat da ISS, foram identificadas espécies de importância médica capazes de causar reações alérgicas e alguns tipos de doenças dos tecidos moles e do trato respiratório superior”, disse Orlov em 2022.
Isso não mudou nos últimos três anos. Pelo contrário. As preocupações citadas por Orlov também se relacionam com declarações feitas no ano anterior sobre o estado de envelhecimento dos módulos – que motivou a decisão de não reutilizá-los. Usar os mesmos módulos para uma nova estação significaria herdar todos os problemas atuais da ISS, biológicos, técnicos e estruturais. Isso se aplica especialmente aos módulos Zarya e Unity, ambos com 27 anos, seguidos pelo Zvezda, com 25 anos.
Todos estão enfrentando problemas constantes devido às flutuações extremas de temperatura e radiação, o que leva à fadiga dos materiais e a vazamentos de ar. Isso exige manutenção contínua pela tripulação, que consome tempo que poderia ser dedicado a atividades para as quais a estação realmente foi criada.


