Quem é vivo (nem) sempre aparece. E por isso estou tirando a poeira do BdA. Quando isso acontece, é porque algo relacionado a astronomia realmente chamou minha atenção na mídia. Nesse caso, foi um audiência envolvendo ufologia no Congresso Nacional.

Na última terça-feira, 16 de setembro, o Deputado Chico Alencar presidiu uma audiência pública da Comissão de Legislação Participativa com o título “Ufologia, LAI [Lei de Acesso à Informação] e potenciais impactos à informação da sociedade”. Diversos veículos de comunicação deram alguma atenção a isso, mas sem destaque. O meio ufológico, por outro lado, repercutiu até internacionalmente.

(Curiosidade curiosa: 16 de setembro é o dia da independência mexicana. Com desfiles e demonstrações aéreas, sempre há muitas câmeras em público – muitas vezes apontadas para o céu. Nos anos 90, essas câmeras começaram a captar as flotillas, grupos de dezenas ou até centenas de objetos associados ao fenômeno ufológico.)

A audiência foi solicitada pela Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU), um grupo de nomes conhecidos na ufologia do país. Vários deles puderam falar por alguns minutos. Entre os temas que apresentaram, estavam vídeos divulgados nos últimos anos pelo governo dos Estados Unidos, alguns pontos relacionados a casos ufológicos brasileiros, alegações de que as Forças Armadas ocultam documentos sobre OVNIs e por aí vai.

Há várias notícias pela internet e comentários pelas redes sociais e Youtube, então não vou me alongar nesse ponto. Até porque não é minha intenção que seja o foco desse texto.

Íntegra da audiência (Câmara dos Deputados)

Ufólogos, divulgadores científicos, políticos e youtubers (em alguns casos, mais de uma definição se aplica à mesma pessoa) reagiram em uma ampla gama de opiniões: de “um grande dia para a ufologia brasileira” a “uma vergonha para o Congresso”. É claro que essas criticas a não se tratam apenas da audiência em si, mas também sobre gerar cortes para reels do Instagram e shorts do Youtube, “conteúdo compartilhável” e toda aquela coisa que já sabemos.

Vi reações diferentes mesmo dentro da própria bolha ufológica. Até porque essa bolha não é homogênea e uniforme. Durante a audiência, um ufólogo com considerável participação midiática enviou perguntas e comentários no site do Congresso tentando desqualificar a apresentação e os oradores.

A sessão aconteceu na manhã de terça, com o resto do dia sendo tomado por reações na ufobolha. Ainda ontem, mais pessoas se manifestavam, mas já num tom menos apaixonado. Achei melhor esperar a poeira abaixar um pouco mais e colocar algumas ideias no lugar.

Não é segredo para ninguém que o assunto me interessa desde criança e estou inserido nessa bolha, participando de um dos maiores podcasts do assunto no Brasil. (Nem eu acredito nisso.) E participo da bolha mesmo discordando de 99% do que outros membros dela dizem ser verdade. Então, é natural que minha atenção seja voltara para esse evento.

É claro que tenho minhas próprias impressões, mas esse texto não é sobre elas. É sobre como eu faria essa apresentação. Se me fossem dadas as mesmas duas horas, quais tópicos eu gostaria de abordar e quem levaria para a audiência?

Página do Boletim 1 do SIOANI, de março de 1969 (Foto: Arquivo Nacional)

Uma breve fala de abertura abordaria alguns fatos pertinentes. Movimentações políticas nos EUA buscando maior transparência sobre o tema podem ser um bom começo. Também poderia citar a postura de governos de outros países, como o Chile, em falar abertamente sobre essas ocorrências. O que eu não deixaria de fora é a atividade já reconhecida do Estado Brasileiro de investigar esses fenômenos.

Exemplos interessantes são as atividades do Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (SIOANI), da Força Aérea, entre 1969 e 72, e da Operação Prato, também da FAB, em 1977. No caso da Operação Prato, documentos foram “vazados” por um militar a ufólogos nos anos 90, sendo reconhecidos pela FAB como verdadeiros muitos anos depois. Isso estabelece como fato que há interesse real de estados no fenômeno, independente de suas explicações, e que há sigilo em muitas de suas investigações.

Seguindo o título da sessão, convidaria um especialista em Direito para falar sobre a importância da LAI e os contextos em que costuma ser aplicada. Em especial, pediria que explicasse brevemente como um cidadão pode pedir acesso a documentos e quais são os critérios aplicados. Seriam expostos os pedidos feitos por membros da comunidade ufológica e seus resultados.

Um cientista político traria explicações sobre benefícios da transparência para governos e sociedade. Poderiam ser apresentados exemplos de leis semelhantes no exterior, como o Freedom of Information Act (FOIA), dos EUA, além de situações em que a LAI foi empregada revelando aspectos importantes da história recente do Brasil.

Um historiador poderia abordar como governos comprovadamente se envolveram em pesquisas sobre fenômenos ufológicos e organizações de inteligência se valeram da discussão pública do tema para ocultar segredos de seus países. Pode soar conspiratório, mas há grandes volumes de documentos oficiais liberados via FOIA que mostram justamente isso.

Um especialista em aviação, talvez um aviador disposto a compartilhar um relato em primeira pessoa com o fenômeno, teria o papel de explicar o impacto disso para a segurança de voo. O desenvolvimento da aviação é salpicado de episódios envolvendo manifestações anômalas aproximando-se de aeronaves e até paralisando aeroportos. Esse orador poderia citar iniciativas voltadas a compreensão desses fenômenos aéreos, como a Sección de Estudios de Fenómenos Aéreos Anómalos, de militares chilenos, e a Americans for Safe Aerospace, de aviadores estadunidenses. (Ou seriam americanos?)

Frame de vídeo divulgado pelo governo dos Estados Unidos mostrando objeto anômalo sendo observado por aviadores militares (Foto: Department of Defense)

Um astrônomo ou professor explicaria como questões como essa proporcionam oportunidades interessantes para educação e divulgação científicas. O público atento a isso é naturalmente muito curioso e propício a manter-se engajado em uma atividade se for guiado de forma que mantenha o assunto instigante.

Seguindo nessa linha, um físico falaria sobre iniciativas de investigação de fenômenos anômalos envolvendo acadêmicos, como a Sol Foundation e o Project Galileo, da Harvard University. Isso serviria para demonstrar como é possível e importante envolver a academia.

Ele também apresentaria fenômenos atmosféricos ou mesmo geofísicos que, por vezes são confundidos com “OVNIs” e coisas afins. Muitos desses fenômenos ainda não são compreendidos a fundo. Ter uma população ciente a seu respeito pode ajudar a mitigar enganos e a direcionar recursos para pesquisas científicas.

O mesmo vale para a biologia. Novas espécies são descobertas continuamente. E o Brasil, dono de biomas únicos, tem animais que podem ser confundidos com coisas particularmente assustadoras – especialmente à noite. Por isso, também convidaria um biólogo para comentar esse assunto.

O último convidado seria um filósofo. Ele falaria sobre a importância do debate e da abertura a aceitação de novas evidências e sobre como essa postura foi importante para a história da ciência.

Eu retornaria para uma conclusão, citando a importância da transparência sobre o tema e propondo que sejam abertos quaisquer arquivos que o Estado ainda detenha sob sigilo. Dentro do possível, sugeriria a criação de uma instituição composta por representantes estatais e membros da sociedade civil, civis e militares, profissionais experientes e qualificados, com chancelas acadêmicas adequadas. A participação da rede acadêmica pública do Brasil seria muito importante. Esse órgão seria responsável por levantar informações sobre fenômenos anômalos e tentar explicá-los à luz do rigor científico. Tudo de forma aberta e transparente.

Manchete sobre a audiência no site da CNN Brasil (Foto: reprodução)

Ficou clara minha estratégia? Ufologia é um daqueles temas que levantam críticas negativas até no Programa do Ratinho. Leve-o para o Congresso Nacional (que talvez não seja tão diferente), colocando-o lado a lado com política, e você terá a receita certa para reações negativas de todos os lados. Inclusive para militantes políticos sem conhecimento de causa querendo usar a TV Câmara para criar material para redes sociais com papel alumínio na cabeça.

Se forem evitados tópicos que historicamente já serviram até de piada para o Caceta & Planeta, haverá muito pouco motivo para que essas críticas sejam feitas. O mesmo vale para um tom de voz fervoroso e escolhas lexicais que podem não parecer cuidadosas quando se fala, por exemplo, sobre as Forças Armadas no Congresso Nacional.

Atendo-se a uma abordagem “técnica” e sem alegações fundamentadas em argumentos impossíveis de serem verificados, não há muita margem margem para críticas negativas. O mesmo vale para sugestões viáveis, possíveis de serem alcançadas com apoio popular e político. Isso é reforçado se as falas forem feitas por pessoas profissional e academicamente dedicadas às areas competentes.

E sem usar jargões como “extraterrestres”, “alienígenas”, “seres”, “naves”, etc. (Até porque não há evidências de que esses fenômenos são causados por visitantes de outros lugares do nosso universo.) Mesmo os termos “OVNI” e “UFO” não são usados por muitos investigadores e interessados na área – tendo sido substituído por “FANI” e “UAP”, “fenômeno anômalo não identificado”.

Mas isso é apenas como o Edu faria se tivesse contatos, tempo para se preparar e conhecidos devidamente qualificados e dispostos a participar de uma audiência tão delicada como essa. Por isso, achei adequado usar meu blog para compartilhar isso com o público. Eu poderia pedir licença para usar meu espaço no podcast O Contato ou na revista CET, mas há outras pessoas nos mesmos veículos e não quero causar confusões. Esse ponto de vista é apenas meu. E estou aberto a debates – de forma respeitosa e cordial.

(Se quiser me ofender, use a descrição do Pix.)

Algumas das abordagens que sugeri já foram tidas lá no podcast O Contato e convido o leitor a conhecer, caso nunca tenha ouvido essa pérola da podosfera brasileira. Tratamos do tema de forma ampla, com divergências respeitosas, convidados que incluem acadêmicos de diferentes áreas e descontração quando cabe.

Aliás, no Instagram do podcast, meu colega Gustavo Cornaccioni apontou que outras audiências estavam acontecendo simultaneamente em outros ambientes do Congresso, por exemplo, sobre a regulação da medicina nuclear e a importância da atividade física para a saúde de idosos. Infelizmente, divulgadores científicos dedicaram muita energia para desqualificar a sessão sobre ufologia e não deram nenhuma atenção para as outras.

Ainda falando sobre Don Guto Cornaccioni, ele está lançando um livro muito pertinente a esse debate todo. Ruído Oficial é baseado em documentos oficiais da CIA que mostram como a inteligência americana (ou seria estadunidense?) se valeu da crença em OVNIs para cumprir seus objetivos de contrainteligência e manipulação da opinião pública.

“Você cita meu nome, fala do meu livro, mas nem pensa em me chamar de padrinho.” (Foto: Paramount)

Os links estão aí. Tchau.