Efeméride coloca planetas “alinhados” no céu noturno. Textos em redes sociais propagam informações incorretas sobre fenômeno.

Neste mês, ocorre uma efeméride astronômica que está chamando a atenção em redes sociais – especialmente entre leigos em astronomia. Infelizmente, também estão sendo veiculadas informações falsas a seu respeito. O “desfile dos planetas” é apresentado como um “alinhamento planetário raro”, mas nem tudo o que se diz a seu respeito é verdade.

Esse alinhamento celeste envolve seis planetas: Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, visíveis a olho nu, Urano e Netuno. Mas esse “desfile” dos planetas no céu não representa um “alinhamento planetário”.

Os planetas orbitam o Sol em trajetórias elípticas aproximadamente no mesmo plano – o plano da eclíptica, o caminho aparente do Sol no céu. Então, os planetas podem ser vistos ao longo de uma linha imaginária no céu, dando a impressão de estarem desfilando alinhados.

Captura de tela do software Stellarium mostrando o céu sobre Taubaté, SP, às 19h10 de Brasília, em 20 de janeiro de 2025 (Foto: reprodução/Stellarium / Eduardo Oliveira)

Mas isso é apenas uma perspectiva visual da Terra das trajetórias orbitais desses planetas. Um alinhamento planetário verdadeiro, em que os planetas se posicionam em uma linha reta perfeita, é extremamente raro por conta de variações nas inclinações orbitais e aos diferentes períodos de revolução de cada planeta.

Equívoco Alguns textos em redes sociais mencionam que o fenômeno ocorre uma vez a cada 396 bilhões de anos. Isso é absurdo não apenas por ser múltiplas vezes a idade estimada do Universo, mas também por ser uma interpretação equivocada de uma discussão feita pelo meteorologista e astrônomo amador belga Jean Meeus no livro Mathematical Astronomy Morsels, de 1997. Meeus, especialista em mecânica celeste e matemática astronômica, especulou sobre a possibilidade dos planetas serem visíveis simultaneamente no céu terrestre a, no máximo 1,8° uns dos outros.

O fenômeno mais próximo dessa descrição é justamente “desfile dos planetas”: a visão de múltiplos planetas no céu noturno ao mesmo tempo. Este evento ocorre com relativa frequência e não representa um alinhamento celestial específico.

Captura de tela de Eyes on the Solar System, da NASA, ilustrando uma visão em perspectiva do Sistema Solar em 20 de janeiro de 202, incluindo os planetas visíveis a olho nu (Foto: Eyes on the Solar System / NASA / Eduardo Oliveira)

Observação O “desfile dos planetas” oferece oportunidades não apenas para a compreensão de conceitos básicos sobre o Sistema Solar e dinâmica orbital, mas também para a observação astronômica. Em eventos como esse, amadores podem desenvolver habilidades de observação fundamentais para qualquer interessado na prática de astronomia.

Para observar este fenômeno, não é necessário ter equipamentos elaborados e custosos. Busque um local com pouca poluição luminosa e um horizonte claro. Os planetas podem ser identificados por suas cores distintas e brilho constante, em contraste com a estrelas cintilantes.

Pouco após o pôr do sol, olhe para o oeste (poente) e identifique Vênus e Saturno. A leste (nascente), Júpiter e Marte se destacam. Em março, especialmente na primeira semana, Mercúrio se junta ao desfile, ficando visível no poente logo após o anoitecer.

Efemérides como essa são importantes não só para a astronomia amadora, mas também para o ensino de astronomia. Eles representam uma oportunidade de aproximar o público da ciência de uma maneira tangível e acessível, fomentando o interesse e a curiosidade sobre o universo. Procure por observações, oficinas, palestras, workshops e outros eventos na sua região.