Robô procuraria por gelo no polo sul lunar. Agência mencionou atrasos e custos excessivo.
Ontem, dia 17, a NASA anunciou que encerraria o desenvolvimento da missão Volatiles Investigating Polar Exploration Rove (VIPER). O rover seria enviado para a região polar sul lunar num módulo de aterrissagem comercial Griffin, da Astrobotic Technology.
Como tenho destacado em alguns posts, a região do polo sul da Lua é importante para exploração por conta de seus depósitos de gelo de água que poderiam sustentar estações na superfície. O VIPER exploraria regiões permanentemente sombreadas para compreender melhor a extensão e a forma do gelo de água presente por lá. Originalmente marcado para ser lançado em 2023, o robô pousaria na borda ocidental da Cratera Nobile.
Em uma coletiva de imprensa, funcionários da agência disseram que os custos do VIPER aumentaram mais de 30%, o que causou uma revisão de rescisão. Em 2021, a NASA confirmou a missão a um custo de US$ 433,5 milhões. A última estimativa era de US$ 609,6 mi, com lançamento estimado em setembro de 2025, segundo Joel Kearns, vice-administrador associado de exploração na Diretoria de Missões Científicas da agência.
“Neste caso, as despesas restantes projetadas para o VIPER teriam resultado no cancelamento ou na interrupção de muitas outras missões em nossa linha de serviços comerciais de carga útil lunar”, disse Nicola Fox, administradora associado de ciência da NASA. “Portanto, tomamos a decisão de renunciar a esta missão específica.”
Kearns disse que o VIPER sofreu uma série de problemas na cadeia de suprimentos que atrasaram as entregas de componentes importantes e não especificados desde a pandemia. “Os atrasos ocorreram repetidamente em vários componentes-chave”, disse ele.
Outros pequenos atrasos foram mais difíceis de serem planejados pela missão do que um único grande atraso. Isso dificultou a construção do veículo espacial, do tamanho de um carro pequeno construído de dentro para fora.
“Muitos dos componentes que foram atrasados estavam, na verdade, na seção interna do VIPER, então, à medida que os componentes foram atrasados, isso começou a forçar a equipe do VIPER a atrasar a montagem e atrasar a integração e os testes iniciais.”
O rover já está completo, mas só agora está iniciando os testes ambientais. Kearns disse que o custo e o cronograma revisados presumiam que o VIPER passaria pelos testes ambientais sem problemas. “Vou lhe dizer que, em geral, os testes ambientais em nível de sistema de desenvolvimento de espaçonaves revelam problemas que precisam ser corrigidos, o que levaria mais tempo e dinheiro.”
Cancelar o VIPER agora economizará, no mínimo, US$ 84 mi da NASA. Kearns comentou que esse numero poderia aumentar se o lançamento fosse adiado para além de novembro de 2025 – o que exigiria uma espera de 9 a 12 meses até que as condições de iluminação fossem adequadas no local de pouso.

Ciência Kearns e Fox disseram que grande parte da ciência que o VIPER faria será feita por outras missões orbitais e no solo. A mobilidade que a sonda teria fornecido, no entanto, pode só estar disponível com o Lunar Terrain Vehicle, um rover para missões tripuladas do programa Artemis que também pode ser operado remotamente. Ele está programado para ser entregue no final da década.
A notícia do cancelamento do VIPER foi recebida com decepção em alguns setores da comunidade espacial. “Primeiro o Resource Prospector, agora, o Viper. Na era Artemis, por que a ciência lunar foi alvo de cancelamento?” perguntou Laura Seward Forczyk, fundadora e diretora executiva da empresa de consultoria espacial Astralytical, pela rede social X.
Em post no X, Phil Metzger, físico planetário da Universidade da Flórida Central, disse que a NASA estava cometendo um “erro grave”. “Esta foi a principal missão para medir variações laterais e verticais do gelo lunar no solo”, escreveu ele. “Teria sido revolucionário. Outras missões não substituem o que se perdeu aqui.”
A NASA planeja desmontar o VIPER para reutilizar seus instrumentos e outros componentes. Primeiro, porém, a agência considerará propostas de empresas americanas e parceiros internacionais para voar o VIPER por conta própria, sem nenhum custo para o governo. As propostas devem ser entregues até 1º de agosto.
Griffin Além de seus próprios problemas de desenvolvimento, o VIPER enfrentou atrasos com Griffin, o módulo de pouso da Astrobotic que o entregaria à superfície da Lua. Esse transporte seria feito através do Commercial Lunar Payload Services, o programa da NASA para transporte de cargas à Lua por meios privados, ao custo de US$ 322 mi. A agência informou que não espera que o Griffin esteja pronto para a missão antes de setembro de 2025.
“Estamos empenhados em estudar e explorar a Lua para o benefício da humanidade através do programa CLPS”, disse Fox em comunicado. “A agência tem uma série de missões planeadas para procurar gelo e outros recursos na Lua durante os próximos cinco anos. Nosso caminho a seguir aproveitará ao máximo a tecnologia e o trabalho investidos no VIPER, preservando ao mesmo tempo fundos críticos para apoiar nosso robusto portfólio lunar.”
No final deste ano, por exemplo, a Intuitive Machines deverá enviar ao polo sul lunar o PRIME-1, uma experiência de mineração de gelo projetada para perfurar gelo de água e estudar o que acontece com ele quando trazido à superfície. Também pelo programa CLPS e com outros parceiros, a Agência Espacial Canadense está planejando enviar um veículo de “caça ao gelo” para a mesma região em 2026.
Com o VIPER cancelado, a NASA manterá a ordem de tarefa para Griffin e sua missão se tornará uma demonstração de tecnológica, carregando um simulador de massa no lugar do rover. A Griffin Mission One tem lançamento previsto para a primavera austral de 2025.
Kearns disse que a NASA considerou colocar cargas científicas, mas como o módulo foi projetado para transportar um rover, faltavam acomodações para carga útil e recursos como fornecimento de energia e comunicações que essas cargas precisariam.
“Acreditamos que, se pedíssemos à Astrobotic para fazer mudanças como essa, isso atrasaria ainda mais o seu cronograma”, disse. “Isso geraria mais custos para o governo. Isso levaria a um atraso na demonstração de uma aterrissagem bem-sucedida no polo sul pelo lander grande Griffin, que estamos muito interessados em ver.”
A Astrobotic também terá liberdade para incluir suas próprias cargas comerciais. John Thornton, executivo-chefe da empresa, disse em uma entrevista que a Astrobotic está considerando realizar um teste de seu serviço de geração de energia LunaGrid no Griffin. “Queremos voar rapidamente, mas também queremos fazer uma missão que seja mais impactante do que apenas o próprio módulo de pouso.”
Um Griffin sem o VIPER ainda pousaria na região polar sul da Lua, disse ele, embora não necessariamente no mesmo local selecionado pela NASA para aquela missão. Dependerá de quaisquer novas cargas se inscreverem para a missão, com a opção de um local de pouso mais seguro.
Tanto Kearns quanto Thornton disseram que a agência informou a empresa sobre a decisão muito recentemente, mas não foram mais específicos. Segundo o site SpaceNews, uma fonte da indústria disse que a NASA informou a Astrobotic apenas um dia antes do anúncio público.
“Este foi certamente um ano de tumulto e desafio para a Astrobotic como empresa”, disse ele, em referência ao lançamento de seu primeiro módulo lunar, Peregrine, en janeiro. O Peregrine sofreu um vazamento no sistema de propulsão não pôde tentar a alunissagem. O cancelamento do VIPER é “certamente outro soco no estômago aqui, mas vamos seguir em frente”.
Kearns disse que a NASA acredita que Griffin seria capaz de pousar com segurança na Lua, com ou sem VIPER a bordo, observando o trabalho que a NASA financiou para a empresa realizar testes adicionais do sistema de propulsão. “Temos confiança neles para tentar esse pouso, ou não continuaríamos a trabalhar com eles.”
“Sou um eterno otimista. Você meio que precisa [ser otimista] estar na indústria espacial”, disse Thornton. “Estou animado com o que podemos transformar isso.”
