Explosão por colisão com detrito ou falha interna gerou centenas de detritos; astronautas da ISS se abrigaram em naves de retorno. Não há indicações de teste de arma antissatélite.

No final do mês passado, o Comando Espacial dos EUA e provedores privados de consciência situacional espacial relataram que o Resurs P1, um satélite russo de sensoriamento remoto desativado em 2021, se fragmentou. Foram criados mais de 100 fragmentos que puderam ser rastreados por sensores terrestres.

Astronautas da Estação Espacial Internacional (ISS) ficaram abrigados em suas naves de retorno por cerca de uma hora, como precaução, caso a estação fosse atingida por destroços e precisasse ser evacuada rapidamente.

Leia mais: “Tripulação da ISS se abriga por risco de colisão com detritos de satélite russo”, 28/06/2024

Modelo de satélite Resurs P (Vitaly V. Kuzmin)

A causa do rompimento do satélite ainda não está clara, mas a empresa LeoLabs, a primeira a relatar publicamente o evento, acredita que uma “explosão de baixa intensidade” resultante de uma colisão ou dentro da própria espaçonave criou os destroços. Essa conclusão veio da análise que a empresa fez da nuvem de detritos usando suas próprias ferramentas para observar a distribuição dos objetos. A explosão criou pelo menos 250 fragmentos em altitudes que chegam a 500 km.

“Embora grande parte da nuvem de detritos ainda não tenha sido totalmente analisada, nossa avaliação preliminar conclui que a causa mais provável do evento é uma explosão de baixa intensidade”, concluiu a LeoLabs em um comunicado publicado no LinkedIn em 3 de julho. “Esta explosão pode ter sido desencadeada por estímulos externos, como o impacto de um pequeno fragmento (atualmente não catalogado) ou uma falha estrutural interna que levou a uma falha no sistema de propulsão.”

Essa análise exclui a especulação de que o satélite possa ter sido usado como alvo para um teste de armas antissatélite, como o Cosmos 1408 em 2021. Não houve outras indicações, como declarações dos militares russos ou americanos ou restrições do espaço aéreo, que sugerissem que tal teste tivesse sido planejado ou realizado.

A explosão não parece ter causado a ruptura completa do satélite. Observações ópticas do Resurs P1 pela Sybilla Technologies, empresa polonesa de consciência situacional espacial, relatam que o satélite ainda está lá, girando com um período de dois a três segundos.

Imagens feitas antes da explosão pela HEO, empresa australiana que usa satélites para fazer imagens de outros objetos no espaço  mostram que os painéis solares do Resurs P1 e de duas espaçonaves subsequentes, P2 e P3, não foram totalmente implantados. Não está claro se esse mau funcionamento da implantação está ligado de alguma forma à geração de detritos.

Imagens feitas por satélites da HEO dos satélites Resurs P1, P2 e P3 (X / HEO)

Ainda em orbita, o Resurs P1 entrará na atmosfera no final deste ano, à medida que sua órbita, atualmente com cerca de 355 km, decair.

Embora o evento de fragmentação não pareça ser o pior cenário, cria perigo para outros satélites. A altitude de alguns dos destroços, observou a LeoLabs, leva-os através das órbitas usadas por muitos outros satélites operacionais, inclusive a ISS e a estação espacial chinesa Tiangong. Esses objetos provavelmente permanecerão em órbita por “semanas a meses” antes que a resistência atmosférica cause o decaimento das órbitas.

“Este evento demonstra o risco contínuo de espaçonaves desativadas em órbita”, concluiu a empresa. “Existem mais de 2.500 equipamentos de longa duração abandonados e intactos (ou seja, corpos de foguetes abandonados e cargas não operacionais) que podem sofrer um destino semelhante ao Resurs P1 ao longo do tempo.”