Pela primeira vez, amostras do lado distante da Lua são trazidas à Terra. Material poderá ajudar cientistas a responder perguntas importantes sobre a história da Lua e da Terra.
A missão lunar não tripulada Chang’e 6, da China, enviou à Terra material do lado “oculto” da Lua hoje, dia 25- algo que nunca havia sido feito antes. O pouso da cápsula com as amostras ocorreu às 3h07 de Brasília na Região Autônoma da Mongólia Interior, na China.
Após perder velocidade pelo atrito atmosférico e sobreviver ao superaquecimento por esse atrito, a cápsula de cerca de 300 kg abriu um paraquedas e fez um pouso suave. O momento foi transmitido ao vivo pela TV estatal chinesa CCTV, com a descida acompanhada pela televisão ao vivo. Após o pouso, membros da equipe de recuperação verificaram a cápsula e ergueram uma bandeira chinesa próximo a ela.
Conforme noticiado, após as verificações no local de pouso, a cápsula seria transportada de avião para Pequim, onde as amostras seriam retiradas e distribuídas. Enquanto isso, espera-se que o módulo que trouxe a cápsula à Terra tenha disparado seus motores após a separação para não entrar na atmosfera.
A espaçonave poderia ser usada em uma missão estendida, como na Chang’e-5. A nave visitou o ponto Lagrange 1 do sistema Sol-Terra antes de retornar à Lua para testar uma órbita retrógrada distante. Essas atividade prolongada foi monitorada externamente e a China não forneceu muitos detalhes a respeito.
“A missão de exploração lunar Chang’e 6 obteve sucesso total”, disse Zhang Kejian, diretor da Administração Espacial Nacional da China (CNSA), nas instalações de controle da missão. O presidente chinês Xi Jinping parabenizou a equipe da missão, informou o serviço estatal de notícias Xinhua.
“Parabéns à China por decolar a sonda Chang’e-6 do lado distante da Lua com as primeiras amostras da região. Esse é um passo importante no trabalho da humanidade para entender e explorar a superfície lunar. Aguardo ansiosamente as descobertas científicas que estão por vir”, postou Bill Nelson, Administrador Geral da NASA, no X.
Josef Aschbacher, chefe da Agência Espacial Europeia, também parabenizou CNSA, destacando o sucesso da colaboração entre a China e a ESA na missão. Isso inclui a coleta bem-sucedida de dados pelo instrumento NILS (Negative Ions on Lunar Surface) e o suporte da estação terrestre da ESA para as fases iniciais da missão e o retorno à Terra.
Missão A missão usou quatro módulos: um módulo de pouso, uma cápsula de reentrada atmosférica, um orbitador e um ascensor (um pequeno foguete transportado no topo do módulo de pouso). O lançamento foi em 3 de maio na ilha de Hainan com um foguete Longa Marcha 5. A chegada à órbita lunar aconteceu cinco dias depois. Em 1º de junho, aconteceu a alunissagem, na cratera Apollo, que fica na bacia do Polo Sul-Aitken (SPA), uma marca de impacto de 2.500 km no lado da Lua que nunca fica voltado para a Terra.
O módulo de pouso coletou cerca de 2 kg de material lunar usando uma “colher” em um braço robótico e uma furadeira. Também obteve dados sobre os arredores com um detector de radônio, um detector de íons negativos e um pequeno rover.
As amostras foram lançada a bordo do ascensor em 3 de junho e se encontrou com o módulo em órbita dias depois. As amostras foram transferidas para a cápsula de reentrada, acoplada ao orbitador, que começou sua viagem para a Terra por volta do dia 21, de acordo com a NASA. A China forneceu poucas atualizações oficiais sobre a missão, mas rádio amadores conseguiram captar algumas das transmissões.
O ascensor chocou-se contra a Lua dias depois, segundo o rastreamento de rádio amadores. A CNSA não emitiu declarações sobre sobre o destino do ascensor, mas isso corresponderia ao protocolo da missão Chang’e-5, de 2020.
A cápsula de reentrada foi liberada quando a espaçonave passou a cerca de 5 mil km sobre o Oceano Atlântico Sul, às 2h41 de Brasília da última madrugada, informou a CNSA – que não divulgou cronograma de operações antecipadamente.
A Chang’e 6 não é a primeira missão bem-sucedida de retorno de amostras lunares. União Soviética, os Estados Unidos e a própria China já trouxeram material da Lua. Nove missões lunares, sem contar a Chang’e 6, estão nessa lista: incluindo missões Apollo e sondas não tripuladas da NASA, a missão soviética Luna 16, em 1970, e a missão chinesa Chang’e 5. Mas todas as amostras coletadas até então foram de locais no lado “próximo” da Lua, aquele que está sempre voltado para a Terra.
O lado distante, muito diferente, é mais difícil de ser explorado. É necessário um satélite retransmissor para se comunicar com as espaçonaves que operam lá. A China já lançou dois desses satélites. Para a Chang’e 6, foi lançado o satélite Queqiao-2 em março.
Essa dificuldade deixa uma lacuna em nosso conhecimento da Lua. Os lados próximo e distante são bem diferentes. A diferença mais óbvia é que, enquanto a maior parte do lado próximo é coberta por mares escuros – planícies de lava solidificada há muito tempo -, o lado distante quase não tem mares, sendo fortemente marcado por crateras de impacto.
A Chang’e 6 foi a segunda missão chinesa ao lado distante da Lua. Em janeiro de 2019, a Chang’e 4 foi a primeira, portando o rover Yutu 2, ativo até hoje. Até hoje, nenhuma outra nação realizou um pouso suave no lado “oculto” da Lua.
A China já está preparando as próximas missões do programa Chang’e. A Chang’e 7 deve ser lançada em 2026 e a Chang’e 8 em 2028. A última ajudará a testar tecnologias necessárias para estabelecer a Estação Internacional de Pesquisa Lunar – uma base lunar que a China planeja implementar na década de 2030 com parceiros internacionais. Esses planos incluem missões tripuladas à superfície lunar até 2030.
A NASA está trabalhando em uma série de missões não tripuladas dentro do programa lunar Artemis. A missão Artemis III deverá ser uma alunissagem tripuladas e, atualmente, esta programada para 2026. A região polar sul da Lua é muito visada nesses planos porque foram encontradas reservas de gelo de água no fundo de algumas crateras – locais protegidos da luz solar.
Ciência As amostras podem ajudar a responder algumas perguntas incômodas sobre o início da história do sistema solar. Por exemplo, a bacia SPA se formou há 4,26 bilhões de anos – algumas centenas de milhões de anos depois da maioria das crateras lunares, que foram destruídas por asteroides e cometas durante um período violento conhecido como Bombardeio Pesado Tardio.
“A SPA foi formada como parte do Bombardeio Pesado Tardio? Ou foi um evento separado? Ao obter dados precisos sobre a bacia e as crateras que a cobrem, poderemos entender melhor a história da Lua”, escreveu a Planetary Society, uma organização sem fins lucrativos, sobre a missão Chang’e 6.
“Isso também tem implicações para a compreensão das origens da vida na Terra”, acrescentou a organização. “É possível que os asteroides tenham transportado água e materiais orgânicos para a Terra durante o Bombardeio Pesado Tardio. Entender o momento e as circunstâncias desse evento é fundamental para desvendar nossa história de origem.”
“A Chang’e 6 é a primeira missão na história da humanidade a devolver amostras do lado mais distante da Lua, o que é motivo de comemoração para toda a humanidade”, disse Long Xiao, geocientista planetário da Universidade de Geociências da China em Wuhan, ao site SpaceNews.
“O lado mais distante, afetado pelo impacto da bacia SPA e sem regiões maria extensas, sugere que seu processo de evolução geológica é diferente do lado mais próximo”, explicou. “A obtenção de amostras do lado oposto com um contexto geológico determinado é crucial para revelar a história geológica da Lua.”
“Estou entusiasmado com as futuras pesquisas que os cientistas realizarão com essas amostras, que fornecerão informações valiosas para abordar muitas questões científicas lunares importantes. Este é um evento importante para os cientistas de todo o mundo”, comentou Long.
“Espera-se que as amostras, sendo as primeiras obtidas do lado mais distante da Lua, respondam a uma das questões científicas mais fundamentais da pesquisa científica lunar: que atividade geológica é responsável pelas diferenças entre os dois lados?” disse Zongyu Yue, geólogo da Academia Chinesa de Ciências, em um comunicado.
Yue espera que as amostras incluam pedaços do antigo manto lunar que podem ter sido lançados durante um impacto. “Quando essas informações forem obtidas, elas não só ajudarão a esclarecer o papel dos primeiros impactos de meteoritos lunares na evolução da Lua, mas também serão de grande importância na análise da história dos primeiros impactos do sistema solar interno.”
