Norinco é uma das maiores fornecedoras de armas do mundo. Intenções de oferta são objeto de dúvida no setor.
Nos últimos meses, tenho destacado aqui e no Instagram a possibilidade de venda da Avibras, uma da maiores empresas brasileiras dos setores aeroespacial e de defesa, para o grupo australiano DefendTex. A empresa brasileira enfrenta graves problemas financeiros há alguns anos, com atrasos de mais de um ano no pagamentos de funcionários e risco de fechar as portas.
A crise é fruto de diversos fatores que incluem atraso de pagamento de clientes, diminuição de contratos governamentais e muitos desafios para conseguir financiamento para novos projetos. Isso coloca em risco a produção de produtos aeroespaciais e de defesa importantes, como motores usados em foguetes de sondagem e o lançador múltiplo de foguetes Astros II. O Astros II é o produto mais famoso da Avibras na atualidade, com características técnicas semelhantes ao M142 HIMARS, da americana Lockheed Martin.
Recentemente, essa aquisição entrou em risco pois o governo australiano recusou-se a fazer um empréstimo para a empresa adquirir a Avibras. No início do mês, Travis Reddy, CEO da DefendTex deu uma entrevista à TV australiana mencionando o interesse dos estrangeiros de transferir toda a tecnologia e produzir tudo na Austrália “em 18 meses”.
Leia mais: “Compra da Avibras por grupo australiano está em risco“, 11/06/2024
Agora, mais uma proposta relevante foi feita. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, na última quinta-feira, dia 13, a Norinco, uma estatal chinesa dedicada a produtos avançados de defesa, enviou uma carta ao Ministério da Defesa do Brasil manifestando seu interesse em comprar 49% da Avibras. Os chineses se comprometem a manter as linhas de produção no Brasil e usá-las como base para a produção, manutenção e venda de equipamentos chineses na América Latina.
Negócio da China A Norinco é uma das principais empresas fornecedoras de armas do mundo, com seus produtos destacando-se amplamente no setor militar, de fuzis a MBTs (“tanques de guerra”). Possui mais de 215 mil funcionários e faturamento bruto superior a US$ 82 bilhões.
Foi criada em 1980 para centralizar e desenvolver o setor de defesa chinês. Nos anos 1990, passou por uma grande expansão dentro e fora da China, conquistando mercados e diversificando seus produtos ao exportar para Ásia, África e Oriente Médio. Na década seguinte, a evolução foi focada em tecnologia e parcerias internacionais.
Não foram revelados detalhes sobre a proposta chinesa de aquisição da Avibras. Portanto, não é possível termos uma noção razoável de riscos e benefícios. Preocupações sobre o futuro da tecnologia e da produção brasileira de defesa foram levantadas após a veiculação da proposta.
Se os planos da Norinco realmente forem os anunciados, a brasileira pode ter encontrado seu caminho para a recuperação. Além de continuar fabricando produtos de seu catálogo atual, a Avibras poderá ampliar sua base industrial com equipamentos de projeto chinês.
Porém, a aquisição pode ter objetivos sigilosos. Por exemplo, encerrar a produção no Brasil gradualmente após os chineses terem acesso aos projetos e transferirem para a China as produções de maior lucro.
Atualmente, a Norinco não fabrica nenhum equipamento semelhante ao Astros II e o mercado de lançadores múltiplos de foguetes é estimado na casa de bilhões de Dólares. A dívida da Avibras é estimada em cerca de US$ 150 milhões. Pagar essa dívida e comprar 49% das ações para obter projetos e licença de produção do Astros II na China seria um negócio absurdamente positivo para a Norinco – uma estatal chinesa que fatura mais de US$ 80 bi por ano.
Uma coisa é certa: sem caminho de recuperação, a Avibras seguirá caminhando para seu encerramento. A exemplo da Engesa em 1993, o Brasil veria outra empresa de defesa de ponta fechar suas portas.