Fenômeno só deve acontecer novamente daqui a milhões de anos; para observá-lo é bom ter binóculos à mão. Planetário de Campinas ficará aberto ao público interessado; haverá palestra e observação em São Paulo.
O cometa Lulin, esverdeado, rápido, vindo de longe, circulando no sentido oposto ao dos planetas e com duas caudas, poderá ser visto no céu com brilho máximo na madrugada de hoje (23/02/2009) para amanhã (24), com ajuda de binóculos. Vale a pena: ele não deve voltar por aqui nos próximos milhões de anos.
Já era possível ver o Lulin aumentando o seu brilho no céu havia alguns dias, mas ele atinge agora a sua aproximação máxima com a Terra. Estará a cerca de 60 milhões de quilômetros, menos de metade da distância entre a Terra e o Sol.
Para observar o astro errante no seu momento mais luminoso, será necessário estar em um lugar com céu limpo e longe das luzes da cidade. A Lua, pelo menos, deve colaborar: estará no fim da fase minguante e não ofuscará a observação.
Se as condições forem favoráveis, será possível ver o cometa a olho nu. Ter um binóculo à mão é recomendável. Mas é melhor não contar com o bom tempo: o Sol aparece hoje entre nuvens no país inteiro e pancadas de chuva podem acontecer.
Ver Aqui vão algumas dicas de astrônomos para observar o cometa. Pegue um binóculo, olhe para o leste — onde nasce o Sol — e procure por Saturno, que tem um brilho bastante proeminente no céu.
"De cidades grandes, provavelmente será muito difícil observá-lo a olho nu. Digo ‘provavelmente’ porque as variações do brilho de um cometa não têm sua determinação com muita precisão. Pode ocorrer uma explosão repentina e o brilho aumentar muito, embora isto não seja muito comum", afirma Rundsthen Vasques de Nader, astrônomo do Observatório do Valongo, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Lulin estará bem próximo de Saturno, na constelação de Leão — nessa época, o planeta fica visível por volta das 20h30, como um objeto vermelho-alaranjado, maior que as estrelas em volta e não que "pisca". No céu, a coloração do cometa deve ser de um branco esverdeado, devido a sua composição química: compostos de carbono e cianogênio, um gás tóxico.
O Observatório Municipal de Campinas colocará um telescópio à disposição do público que quiser ver o cometa. Na noite de hoje ele estará aberto por duas horas e meia a partir das 20h com os instrumentos apontados para o cometa. O ingresso custa R$ 3,00.
Júlio Lobo, astrônomo do observatório, diz que os cometas são "como top models": todos são bonitos, mas nenhum é igual a outro. Ele pede que os visitantes liguem antes para saber se a chuva não vai frustrar a observação (0**19 32986566).
Na quinta-feira (26), o Planetário do Ibirapuera oferece uma palestra com Oscar Matsuura, professor aposentado da USP, sobre cometas, às 20h. Os ingressos devem ser retirados uma hora antes.
Mais tarde, às 21h30, os visitantes poderão usar os telescópios para observar o Lulin e Saturno, sem necessidade de chegar com antecedência. Os dois eventos são de graça e fazem parte do calendário do Ano Internacional da Astronomia no Brasil. Mais informações podem ser obtidas no número 0**11 55755425.
Deixando poeira Quando um cometa se aproxima do Sol, o calor vaporiza a sua crosta de gelo e poeira, que deixa um rastro conhecido como cauda. Segundo Daniela Lazzaro, pesquisadora do Observatório Nacional, a cauda nada mais é, portanto, do que "poeira deixada para trás".
O vento solar, que é uma corrente de partículas carregadas que o Sol emite, joga esses gases para fora de maneira perpendicular à órbita. Quem olha da Terra para o Lulin, então, vê duas caudas. Mas Tasso Napoleão, diretor da Rede de Astronomia Observacional, diz que, no caso de Lulin, é apenas "uma ilusão de ótica, uma questão de ângulo". "A cauda, na verdade, é uma só", completa.
O Lulin circula em sentido oposto ao dos planetas em torno do Sol. Como a Terra está indo na direção contrária à do cometa, a velocidade aparente do astro será alta. Estima-se que, todos os dias, ele esteja se deslocando cinco graus no horizonte. Isso significa que, se você esticar seu braço em direção ao céu e olhar para sua mão com os dedos juntos, o cometa percorrerá o espaço de três dedos, aproximadamente. Quem observar o Lulin com bastante paciência, portanto, poderá percebê-lo se movendo em relação às estrelas.
Origem Cometas podem voltar com frequências que variam de algumas dezenas até milhões de anos. Os cometas de período mais curto — como o Halley, que visita a Terra a cada 76 anos — vêm de um lugar chamado cinturão de Kuiper (pronuncia-se "kóiper"), a mesma região do planeta-anão Plutão.
Outros cometas, de período longo, como Lulin, vêm de uma região orbital bem mais distante: a Nuvem de Oort, a 50 mil unidades astronômicas (o mesmo que 50 mil vezes a distância entre a Terra e o Sol). Isso significa que, se a Terra estivesse a um metro do Sol, a Nuvem de Oort estaria a 50 quilômetros (o cinturão de Kuiper estaria a algumas dezenas de metros). É por isso que os cometas de lá, depois de passarem por aqui, demoram para voltar. O Lulin é um deles e leva milhões de anos para completar uma órbita.
Esta é a primeira passagem dele perto do Sol, dizem astrônomos, porque ele ainda preserva a maior parte dos seus gases.
Lulin, que oficialmente se chama C/2007 N3, foi descoberto em 2008 por Quanzhi Ye, da Universidade Sun Yat-sen, em Guangzhou (China), com base em imagens produzidas no Observatório Lulin, em Taiwan — daí vem seu nome "popular".
A NASA (agência espacial dos EUA) apontou o telescópio espacial Swift para o Lulin a fim de tentar entender melhor a sua composição química e encontrar mais pistas sobre a origem dos cometas e do Sistema Solar. Cometas são de grande interesse para isso, pois acredita-se que sua composição seja semelhante à de corpos que vagavam no espaço antes da formação dos planetas.
Fonte: Folha Online

