Cientistas divulgam resultados do primeiro ano de trabalho da sonda Venus Express. Descobertas incluem a detecção de relâmpagos na atmosfera venusiana.
Após um ano de estudos com uma sonda em órbita de Vênus, a conclusão dos cientistas é no mínimo arrepiante: nosso vizinho planetário é ainda mais parecido com a Terra do que se pensava. Com poucas diferenças (em Vênus, a uma altitude de 70 km, os ventos chegam a 360 km/h -três vezes a força de um furacão-, a pressão atmosférica de lá é 90 vezes maior que a daqui, as nuvens venusianas são de ácido sulfúrico e as temperaturas, provocadas por um efeito estufa brutal, passam dos 450ºC), Vênus e Terra são quase iguais.
Mas nem sempre foi assim. "À luz dos dados novos, é possível construir um cenário no qual os climas de Vênus e da Terra eram muito semelhantes quando eles nasceram e depois evoluíram para o estado que vemos agora, como gêmeos separados no nascimento", disse Fredric Taylor, da Universidade de Oxford, um dos pesquisadores responsáveis pela avalanche de resultados obtidos pela sonda européia Venus Express, publicados na última edição da revista científica britânica "Nature". "Bilhões de anos atrás havia até a possibilidade de Vênus ter sido habitável", disse o especialista em entrevista coletiva em Paris para divulgar o trabalho.
"Ele [Vênus] deve ser o ‘gêmeo malvado’ da Terra", diz Christopher Russell, geocientista da Universidade da Califórnia em Los Angeles, autor principal do estudo.
Uma das constatações mais surpreendentes foi a de que a atmosfera venusiana produz relâmpagos parecidos com os terrestres. Até hoje, os cientistas acreditavam que isso dificilmente pudesse acontecer. É verdade que a freqüência de raios detectada pela Venus Express é metade da que se observa na Terra, mas ainda assim é bastante — e muito mais do que os especialistas esperavam detectar.
Uma das constatações mais surpreendentes foi a de que a atmosfera venusiana produz relâmpagos parecidos com os terrestres. Até hoje, os cientistas acreditavam que isso dificilmente pudesse acontecer. É verdade que a freqüência de raios detectada pela Venus Express é metade da que se observa na Terra, mas ainda assim é bastante — e muito mais do que os especialistas esperavam detectar.
A sonda Pioneer, lançada em 1978 pela NASA, também já tinha colhido evidências de que existem descargas elétricas na atmosfera de Vênus, mas muitos cientistas acreditavam que os dados obtidos eram ruídos de interferência.
"Consideramos esta a primeira evidência definitiva de que há abundância de raios em Vênus", diz David Grinspoon, do Museu de Ciência e Natureza de Denver (EUA), outro cientista da missão. As descargas elétricas ocorrem entre nuvens acima de 55 km da superfície.
Os pesquisadores consideram a descoberta importante porque eletricidade afeta a química dos gases, e cientistas terão de levar isso em conta na hora de entender melhor a composição atmosférica de Vênus. Acredita-se que raios também tenham ajudado a criar, na Terra, a química que deu origem à vida.
Concepção artística de como seriam os relâmpagos em Vênus (Clique para ampliar.)
Foto: ESA
Os cientistas também avançaram muito para descobrir o mistério do sumiço dos oceanos de Vênus. Sim, como todo irmão gêmeo da Terra que se preze, Vênus tinha grandes oceanos de água em sua superfície no princípio de sua existência. Mas a proximidade com o Sol fez com que toda a água evaporasse, aumentando o efeito estufa naquele mundo, durante o primeiro bilhão de anos de vida do planeta (hoje o Sistema Solar, com tudo que há dentro dele, tem mais ou menos 4,7 bilhões de anos).
Após a evaporação, a ausência de um campo magnético em Vênus (lá as bússolas não funcionariam) fez com que aumentasse muito a interação da atmosfera com a radiação proveniente do Sol. Isso, por sua vez, levou as moléculas de vapor d’água a se dissolverem em hidrogênio e oxigênio, seus componentes básicos. Daí em diante, o hidrogênio, mais leve, fugiu para o espaço. Já o oxigênio reagiu com a superfície para produzir todo o monte de gás carbônico que hoje responde pelo efeito estufa monumental na atmosfera venusiana. Essa teoria, reforçada agora, fora proposta a partir dos dados da sonda americana.
Após a evaporação, a ausência de um campo magnético em Vênus (lá as bússolas não funcionariam) fez com que aumentasse muito a interação da atmosfera com a radiação proveniente do Sol. Isso, por sua vez, levou as moléculas de vapor d’água a se dissolverem em hidrogênio e oxigênio, seus componentes básicos. Daí em diante, o hidrogênio, mais leve, fugiu para o espaço. Já o oxigênio reagiu com a superfície para produzir todo o monte de gás carbônico que hoje responde pelo efeito estufa monumental na atmosfera venusiana. Essa teoria, reforçada agora, fora proposta a partir dos dados da sonda americana.
Também houve evolução no entendimento dos processos que ocorrem nas nuvens de ácido sulfúrico venusianas. Além dos relâmpagos, a dinâmica atmosférica do planeta tem muitas outras semelhanças com a Terra — o que ajudará os cientistas a aperfeiçoar seus modelos meteorológicos não só para Vênus mas também para a Terra.
Ainda há, no entanto, muitas questões em aberto sobre esse estranho mundo — entre elas, precisar exatamente quanto tempo levou para que Vênus deixasse de ser um planeta simpático e "molhado", possível abrigo para o surgimento da vida, e se tornasse o inferno seco e estéril que é hoje.
Ainda há, no entanto, muitas questões em aberto sobre esse estranho mundo — entre elas, precisar exatamente quanto tempo levou para que Vênus deixasse de ser um planeta simpático e "molhado", possível abrigo para o surgimento da vida, e se tornasse o inferno seco e estéril que é hoje.
Por essa razão, a ESA (Agência Espacial Européia) estendeu a vida útil da Venus Express para que ela siga trabalhando pelo menos até 2010, quando uma sonda japonesa, chamada Venus Climate Orbiter, se juntará a ela em órbita do planeta vizinho. Os pesquisadores avaliam que será importante comparar os dados das duas espaçonaves para colocar a pesquisa venusiana sobre territórios ainda mais sólidos.
Fontes: G1 e Folha Online