Primeiro voo operacional de lançador pesado da Blue Origin consegui pousar primeiro estágio. Missão lançou sondas gêmeas a Marte.
O lançador pesado New Glenn, da Blue Origin, fez sua estreia operacional na última quinta-feira, dia 13. O foguete lançou uma missão interplanetária da NASA e contou com pouso do primeiro estágio em uma balsa autônoma. O lançamento aconteceu às 17h45 de Brasília na Estação da Força Espacial de Cabo Canaveral, na Costa Espacial da Flórida. O foguete partiu do Complexo de Lançamento 36, operado pela Blue Origin.
O voo NG-2 prosseguiu conforme o planejado, com o corte do motor principal e a separação dos estágios ocorrendo cerca de três minutos após a decolagem. Após a separação, o primeiro estágio, de 57 metros de altura, iniciou uma série de manobras para tentar pousar na balsa de recuperação da Blue Origin, que aguardava a cerca de 604 quilômetros no Oceano Atlântico.
Aproximadamente sete minutos após o lançamento, enquanto o foguete reentrava na atmosfera, três de seus sete motores BE-4 foram religados. Dois minutos depois, o foguete realizou um pouso propulsado, aterrissando verticalmente na balsa Jacklyn, batizada em homenagem à mãe de Jeff Bezos, fundador da empresa. O estágio desceu até um ponto próximo à embarcação e deslocou-se para cima dele antes de pousar. Segundo Bezos, a manobra foi planejada para proteger a embarcação e “evitar um impacto severo caso os motores não liguem ou liguem lentamente”. Essa distância de segurança, inicialmente da ordem de cem metros, será reduzida com o tempo.
“Um foguete orbital pousou!” disse Ariane Cornell, da Blue Origin, durante a transmissão do lançamento. “Que dia incrível para a Blue Origin e para a indústria espacial.”
A Blue Origin batizou o primeiro estágio que voou na NG-2 de “Never Tell Me the Odds” (Nunca diga-me as probabilidades), uma referência à aparente improbabilidade de um touchdown bem-sucedido. “Acontece que ‘Never Tell Me The Odds’ tinha probabilidades perfeitas — nunca antes na história um foguete propulsor tão grande havia acertado o pouso na segunda tentativa”, disse Dave Limp, CEO da Blue Origin, em um comunicado. “Este é apenas o começo, enquanto aumentamos rapidamente nossa frequência de voos e continuamos a atender nossos clientes.”
Em janeiro, a empresa tentou uma aterrissagem semelhante durante no primeiro lançamento do New Glenn, mas não obteve sucesso, com os motores tendo falha de ignição na reentrada. A empresa não esperava acertar a aterrissagem, mas sim coletar dados para aumentar as chances de sucesso nos voos seguintes.
“Tínhamos dados muito bons e um bom entendimento do que precisava ser feito após o primeiro voo”, disse Limp. As simulações de Monte Carlo “sugeriram que tínhamos uma chance muito boa de pousar. Não 100%, mas era muito melhor do que o primeiro voo.”
Com esse sucesso, a Blue Origin tornou-se a segunda empresa na história a recuperar um lançador orbital em um voo operacional. Essa prática já tornou-se comum para a SpaceX , que dominou pousos e reutilizações de seu foguete Falcon 9, já tendo feito mais de 500 pousos.

New Glenn “Estamos prontos para operar, pessoal, no New Glenn!”, disse Cornell. “Um novo dia, um novo capítulo, acaba de se abrir para, como dissemos, a Blue Origin, mas também para a indústria espacial.”
O New Glenn, com 98 metros de altura, é capaz de transportar até 45 toneladas métricas para a órbita terrestre baixa (low Earth Orbit, LEO). O foguete é comparável ao Falcon Heavy, da SpaceX, (que ainda é mais potente) e tem quase o dobro da capacidade de carga do novo Vulcan Centaur, da United Launch Alliance. Com ele, a Blue Origin quer competir por parte do mercado de lançamentos atualmente dominado pelo Falcon 9.
A empresa projetou o primeiro estágio do New Glenn para realizar pelo menos 25 e já possui uma lista de missões para clientes que vão desde o governo dos EUA até empresas de comunicação. A Blue Origin também firmou parceria com a Amazon, também de Bezos, para lançar a megaconstelação de internet Project Kuiper, que competirá com a Starlink, da SpaceX. Atualmente, a Amazon possui licença para lançar mais de 3.000 satélites dessa constelação, que serão lançados por diferentes foguetes.
O sucesso lançamento também coloca o New Glenn um passo mais perto da qualificação para lançar cargas úteis de segurança nacional para a Força Espacial dos EUA e o Escritório Nacional de Reconhecimento. Em um comunicado após a NG-2, o Comando de Sistemas Espaciais da Força Espacial afirmou que continua o processo de certificação do foguete, mas não divulgou detalhes sobre o andamento.
Dependendo do nível de supervisão governamental, a certificação pode levar de 2 a 14 lançamentos, observou o Comando. Limp não revelou qual opção a Blue Origin estava considerando, mas afirmou que os dois lançamentos já realizados não serão suficientes.
“Com certeza teremos que voar novamente para obter a certificação. Além disso, há muitas outras coisas. Há muita papelada envolvida”, disse ele. “Mas está tudo dentro do cronograma.”

Próximos voos A Blue Origin informou que pretende realizar o próximo lançamento do New Glenn, NG-3, no início de 2026, possivelmente com o mesmo propulsor. Em entrevista concedida no dia 13, Limp afirmou que, embora a análise dos dados tivesse começado recentemente, o veículo parecia ter performado exatamente como esperado. “À primeira vista, parece uma missão bastante nominal”, disse ele.
“É uma questão de sorte porque o terceiro propulsor já está bem avançado na fabricação”, disse ele. Embora os propulsores de New Glenn sejam projetados para serem reformados em duas a três semanas, este levará mais tempo, já que é o primeiro a ser recondicionado.
A Blue Origin espera que a missão NG-3 transporte seu módulo de pouso lunar não tripulado Blue Moon Mark 1. O desenvolvimento desse módulo está em fase final e ele será enviado em breve ao Centro Espacial Johnson para testes de vácuo térmico.
“Supondo que o cronograma atual seja mantido, acredito que esta seja provavelmente nossa terceira missão”, disse Limp. Caso o cronograma do Blue Moon sofra algum atraso, a empresa poderá lançar outra carga útil no próximo lançamento do New Glenn e transferir o módulo o quarto lançamento.
“Queremos ter um hardware muito robusto no próximo ano”, disse ele, incluindo a capacidade de produzir 20 unidades do segundo estágio por ano. “A questão é: conseguiremos atingir um ritmo operacional? E, para mim, esse é o próximo passo que teremos que discutir com a equipe.”
Ele observou que não falta demanda pelo New Glenn em um mercado com restrições de lançamento. “Meu telefone não parou de tocar nas últimas 24 horas, com clientes surgindo de todos os lados, o que é um bom problema para se ter.”
Atrasos Funcionários da NASA não puderam participar dos eventos de imprensa do lançamento da ESCAPADE por conta da paralisação do governo americano – a mais longa da história do país, com mais de 40 dias.
A Blue Origin estava otimista quanto ao lançamento no domingo, dia 9, após a Administração Federal de Aviação (FAA) ter anunciado na sexta-feira, a suspensão de lançamentos diurnos para reduzir sobrecarga e riscos à segurança dos controladores de tráfego aéreo. Essa suspensão começou na segunda-feira, a primeira de duas alternativas para o lançamento do New Glenn.
Como o mau tempo impediu o lançamento no domingo, a data ficou como quarta-feira, dia em que a paralisação terminou, após obter autorização da FAA para um lançamento diurno. A tentativa de quarta-feira foi frustrada por uma forte tempestade solar.
Esses foram apenas os atrasos mais recentes. Inicialmente, o lançamento estava previsto para outubro de 2024, mas a NASA decidiu adiar até que o foguete tivesse pelo menos um lançamento bem-sucedido, a fim de evitar possíveis gastos extras em caso de um longo atraso. Esse atraso acrescentou US$ 7 milhões ao custo total da missão para a UC Berkeley, disse Dave Curtis, gerente do projeto ESCAPADE na universidade.

Missão: Marte O pouso foi o clímax da transmissão, mas não era o objetivo principal da missão. Esse objetivo era lançar as sondas ESCAPADE – que se separaram do segundo estágio do New Glenn como planejado, a dupla se em um intervalo de 30 segundos, começando cerca de 3,5 minutos após a decolagem. “ESCAPADE, você está indo para Marte!” disse Cornell após a separação da segunda espaçonave
ESCAPADE é a abreviação de Escape and Plasma Acceleration and Dynamics Explorers (Exploradores de Aceleração e Dinâmica de Plasma e Escape). Nessa missão, a NASA enviará duas sondas construídas comercialmente para estudar como Marte, que outrora possuía água líquida em sua superfície, perdeu sua atmosfera ao longo do tempo, tornando-se o mundo árido que conhecemos hoje.
Construída pela Rocket Lab para a NASA e a Universidade da Califórnia em Berkeley, a missão custa menos de US$ 80 milhões — muito menos do que as principais missões que a agência já fez a Marte. Essa é a primeira missão a Marte a ser lançada em mais de cinco anos. A mais recente, o rover Perseverance (com o helicóptero Ingenuity), da NASA, foi lançada a bordo de um foguete Atlas V, da United Launch Alliance em 30 julho de 2020. Uma semana antes, a China lançou a Tianwen 1, sua primeira missão a Marte, também com duas espaçonaves.
“Acho que a ESCAPADE é realmente empolgante porque é pioneira, uma desbravadora, por assim dizer, para o que acreditamos ser uma nova maneira de realizar missões de ciência espacial”, disse Robert Lillis, investigador principal da missão, do Laboratório de Ciências Espaciais da UC Berkeley, a repórteres durante uma coletiva de imprensa no sábado, dia 8.
O New Glenn lançou as sondas em direção ao ponto de Lagrange 2 do sistema Terra-Sol, uma área de estabilidade gravitacional a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra. Elas permanecerão lá por um ano antes de se aproximarem da Terra em novembro de 2026, quando acionarão seus motores para uma manobra de assistência gravitacional que as colocarão em direção a Marte. Essa abordagem inovadora permitiu que a missão fosse lançada fora da janela de transferência típica entre a Terra e Marte, que se abre apenas uma vez a cada 26 meses. (A próxima janela de transferência ocorrerá no final de 2026.)
“Construímos um sistema de alto delta V [aceleração] que não apenas viaja até Marte e realiza a manobra de inserção na órbita marciana, mas também sobe para fora do poço gravitacional da Terra, eliminando a necessidade de transferência direta de Marte do veículo de lançamento, aumentando significativamente as opções de lançamento disponíveis”, disse Richard French, vice-presidente de desenvolvimento de negócios e estratégia da Rocket Lab, a repórteres no sábado.
Um comunicado da universidade menciona que “se humanos planejam colonizar Marte no futuro, centenas ou até milhares de naves tripuladas e não tripuladas precisarão partir durante cada alinhamento”. “Como a Terra tem um número limitado de plataformas de lançamento e atrasos técnicos e climáticos são comuns, a trajetória flexível que a ESCAPADE irá desenvolver poderá permitir que todas essas espaçonaves sejam lançadas ao longo de muitos meses, ‘entrando em fila’ antes de partirem para Marte durante o alinhamento planetário.”
Ciência Se tudo correr bem, a ESCAPADE entrará em órbita de Marte em setembro de 2027. Uma vez lá, os líderes da missão na UC Berkeley operarão as sondas, apelidadas de Azul e Dourado em referência às cores da universidade, por cerca de 11 meses.
Elas coletarão dados com quatro instrumentos científicos idênticos em ambas. A equipe científica usará essas informações para construir um mapa 3D do ambiente ao redor de Marte, a fim de estudar como o vento solar contribui para o esgotamento da atmosfera marciana, entre outras tarefas.
“As evidências geológicas mostram que Marte já teve água, e para manter a água, é necessária uma atmosfera densa”, disse Shaosui Xu, investigador principal adjunto do projeto ESCAPADE e físico espacial do Laboratório de Ciências Espaciais da UC Berkeley, em um comunicado .
“Sabemos que já houve uma atmosfera suficientemente densa em Marte, mas agora ela é muito tênue”, acrescentou Xu. “Há apenas duas maneiras de a atmosfera escapar: penetrar no solo ou escapar para o espaço, e muitos estudos mostram que a fuga tem sido um fator muito importante na evolução da atmosfera.”
Lillis afirmou que a equipe está particularmente entusiasmada porque a ESCAPADE estudará Marte em conjunto com outras espaçonaves que já estão por lá. A sonda MAVEN, da NASA, tem estudado de perto a atmosfera do planeta desde sua chegada em 2014. Outras espaçonaves em Marte incluem os robôs Curiosity e Perseverance da NASA e duas sondas orbitais europeias — a Mars Express e a ExoMars Trace Gas Orbiter. Além disso, a Mars Moons Explorer, planejada pelo Japão, monitorará o vento solar na lua marciana Fobos, fornecendo mais uma perspectiva sobre o clima espacial no Planeta Vermelho.
“Este é um momento realmente empolgante, em que teremos todos esses recursos em Marte”, disse Lillis.
As sondas ESCAPADE foram construídas pela Rocket Lab, que nunca havia participado de uma missão interplanetária dessa forma. Em junho de 2022, seu foguete Electron lançou a missão CAPSTONE, da NASA, à Lua, mas a empresa não fora responsável por construir a sonda.
A Rocket Lab está trabalhando em uma missão privada que buscará sinais de vida nas nuvens de Vênus e também trabalha para ajudar a NASA a trazer as amostras coletadas pela sonda Perseverance de Marte para a Terra .
Outras cargas Além da ESCAPADE, o New Glenn transportou uma carga útil secundária da ViaSat para testar o serviço de retransmissão de telemetria de lançamento InRange, como parte de um projeto do Programa de Serviços de Comunicação (CSP) da NASA. A tecnologia poderá ser utilizada em um sistema sucessor para o antigo Sistema de Satélites de Retransmissão de Telemetria e Dados (TDRS), da agência.
“Estamos entusiasmados em trabalhar com a Blue Origin como nossa parceira de lançamento para demonstrar nossos serviços inovadores de telemetria de lançamento”, disse Susan Miller, presidente da Viasat Government, em um comunicado . “À medida que a NASA se prepara para substituir o sistema TDRS, as capacidades comerciais precisam oferecer maior desempenho, flexibilidade e resiliência para apoiar as missões futuras.”


