Relatório aponta diversos problemas que podem colocar tripulação em risco. Orion e programa Artemis soma atrasos, complexidades técnicas e custos elevados.
Na última quarta-feira, o Gabinete do Inspetor Geral (OIG) da NASA divulgou seu relatório sobre a nave Orion após a missão Artemis I, conduzida em novembro e dezembro de 2022. A missão foi o voo de teste não tripulado da nave, construída pela Lockheed Martin, e do foguete SLS e deu a volta atrás da Lua. O documento liberado agora ressalta que ela pode oferecer riscos graves aos tripulantes da Artemis II.
O relatório está disponível aqui e mencionarei seus principais pontos a seguir.
Um dos maiores problemas é o escudo térmico. Meses após o voo, a NASA divulgou que o material ablativo do escudo se perdeu além do esperado na reentrada, mas afirmou que isso não representava risco. O escudo ainda está sob análise e foi um dos motivos do adiamento da Artemis II – agora, marcada para setembro de 2025, após adiamento de cerca de nove meses.
Segundo o relatório, foram mais de 100 locais onde material se perdeu inesperadamente. O ablativo, chamado Avcoat, se soltou “em fragmentos que criaram uma trilha de detritos [que foi visível nas imagens da reentrada] ao invés de se fundir como projetado”. “O comportamento inexplicado do Avcoat cria um risco de que o escudo térmico não possa proteger suficientemente os sistemas e a tripulação da cápsula do calor extremo da reentrada em missões no futuro.”
O documento inclui imagens que a NASA não tinha divulgado ainda e enfatizam esse problema. O OIG afirma que, embora a agência tenha sido capaz de recriar essa perda de material, “eles não conseguiram reproduzir a resposta exata do material ou o ambiente de voo experienciado durante a Artemis I”.
E existem outros problemas. Muitos outros. Vamos lá!
A Orion tem quatro parafusos usados para separar o módulo de serviço (da ESA) antes da reentrada. O relatório informou que três deles tiveram “erosão ou fusão inesperada” causadas por discrepâncias do modelo térmico. A NASA planeja reprojetar esses parafusos mas, para a Artemis II, irá instalar proteção térmica adicional ao redor deles.
Diversos problemas no sistema elétrico da Orion, interferiram no funcionamento de outros sistemas da nave durante a Artemis I. Uma unidade de distribuição de energia do módulo de serviço executou ações sem receber comandos para elas. A agência culpou exposição a radiação e indicou mudanças no software de bordo e nos procedimentos de operação.
O sistema de energia elétrica da Orion teve anomalias em 24 situações. “Sem solução permanente, há risco elevado de que anomalias de distribuição de energia poderiam levar a perda de redundância, energização inadequada e potencial perda de propulsão e pressurização do veículo.”
Entre um quinto e um quarto dos dados de telemetria da missão precisarão de processamento adicional para serem úteis. Isso pode causar avaliação inadequada de eventos críticos da missão, sem falar em atrasos e custos adicionais.

Um problema na unidade de Goldstone da Rede de Espaço Profundo (DSN, que se comunica com naves fora da órbita terrestre), na Califórnia, causou uma perda de comunicação de quatro horas e meia. O OIG associou isso a outros problemas da DSN, mencionando outras missões, não apenas da NASA, que tiveram situações semelhantes.
O relatório também menciona danos à torre móvel de lançamento que já tinham sido documentados pela agência. Esses danos foram causados, em parte, porque não houve modelagem precisa da acústica de baixa frequência antes do lançamento.
Elevadores da torre foram danificados porque as portas anti-explosão eram feitas de fibra de vidro – projetadas para proteger apenas do vento. (Sim, engenheiros da NASA fizeram isso.) Os reparos da torre ficaram ao custo de US$ 26 milhões, ao invés dos US$ 5 mi planejados.

Durante o lançamento, houve vários problemas com aquisição de imagens, limitando a qualidade do material registrado. Isso foi exacerbado pela decisão da agência de lançar à noite após duas tentativas de lançamento diurno, mesmo com a opção de esperar por outra janela de lançamento durante o dia e evitar esses problemas. O software das câmeras não aceitou bem as condições do momento do lançamento, causando problemas em 32 de 33 câmeras – incluindo exposição insuficiente resultando em imagens muito escuras, imagens fora de alinhamento e foco.
Lembrando: imagens do lançamento foram cruciais para entender as causas do desastre do Ônibus Espacial Columbia e dificultaram as investigações do acidente com o Challenger.
Após a amerissagem, não foi possível recuperar os três paraquedas principais da Orion – não sendo possível garantir que atuaram adequadamente. Análises antes do voo indicavam que eles flutuariam por tempo suficiente para que as equipes de recuperação chegassem a tempo. Mas isso não aconteceu na Artemis I, com os paraquedas afundando antes de serem recuperados.
A perda desses paraquedas, por motivos óbvios, pode levar a ferimentos graves ou até fatalidades na tripulação, como mencionado no próprio relatório.
A lista de problemas é bem longa e mencionei apenas os principais. É um cenário complicado para uma nave que custa cerca de US$ 1,5 bi a unidade e cujo desenvolvimento já consumiu mais de US$ 20 bi e cerca de 20 anos.
Como se não bastasse, ela está inserida em um programa espacial marcado por custos e complexidade elevados. A Artemis II está marcada para setembro de 2025, mas já postei no Instagram que esse cronograma deve mudar. Aposto que os chineses estão adorando essas notícias.
Pretendo retomar postagens aqui no blog sobre notícias, destinando o Instagram para curiosidades e posts reduzidos sobre as notícias do blog.


